O mundo está mudando e talvez seja para pior

Declarações de Trump apontam para um novo patamar de normalização do absurdo
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Nas relações internacionais e em outras ciências sociais, chamamos de “conjunturas críticas” os períodos relativamente breves em que mudanças drásticas ocorrem, abalando as principais instituições da ordem mundial e, consequentemente, gerando efeitos duradouros para as sociedades ao redor do planeta. O mundo em que vivemos hoje já não é o mesmo do início de 2026. Donald Trump prometeu mudar o mundo (e está cumprindo). É verdade que não será o mundo que ele idealizou, mas a mudança é inegável.

Para ilustrar esse novo cenário, nada é mais simbólico do que os eventos recentes no Oriente Médio. Na noite de 7 de abril, pouco antes do prazo que ele próprio havia estabelecido, o presidente dos Estados Unidos anunciou um cessar-fogo de 15 dias. Diante disso, surge uma pergunta inevitável: quem ganhou e quem perdeu com esse conflito? Ainda há incertezas sobre os termos reais desse cessar-fogo, mas já é possível traçar alguns cenários para entender como fica o tabuleiro geopolítico global.

Isolamento dos EUA

A derrota mais evidente, talvez, tenha sido a dos Estados Unidos, em especial a de seu presidente. No dia 6 de março, Trump publicou em sua rede social uma mensagem exaltando seus “maravilhosos e corajosos aliados” e afirmando que só aceitaria encerrar o conflito com uma rendição incondicional do Irã. Pouco mais de um mês depois, os EUA se encontram isolados e tratam como vitória a reabertura do Estreito de Ormuz (que foi fechado em decorrência de ações de suas próprias forças militares). Além de não alcançar seus objetivos, Trump provocou fissuras em sua base política doméstica, amplamente contrária ao envolvimento do país no conflito. Seu enfraquecimento é tal que não está claro se terá capital político para retomar o esforço de guerra ao fim dos 15 dias de cessar-fogo, caso deseje.

O Irã, por sua vez, sofreu perdas significativas: civis mortos, lideranças eliminadas, infraestruturas estratégicas atingidas e parte relevante de seu arsenal bélico utilizado. Ainda assim, demonstrou resiliência suficiente para tornar a continuidade do conflito extremamente custosa para a maior superpotência do mundo. Do ponto de vista geopolítico, há argumentos de que o país emerge mais forte do que entrou, reafirmando seu papel como potência regional relevante.

Se considerarmos um horizonte mais amplo, o governo de Benjamin Netanyahu também alcançou parte de seus objetivos na região. A um custo humano elevadíssimo, enfraqueceu grupos antagonistas na Palestina, no Líbano, no Iêmen e na Síria. No confronto direto com o Irã, no entanto, a vitória é menos evidente. Israel precisou do apoio de diversas potências ocidentais para interceptar ataques iranianos e viu seu principal aliado, os Estados Unidos, firmar um cessar-fogo sem necessariamente priorizar os interesses israelenses.

As monarquias árabes, cujas economias dependem fortemente da exploração de hidrocarbonetos e que, tradicionalmente, mantêm alianças com os EUA, acabaram envolvidas no conflito contra suas próprias vontades. A proximidade política e militar com Washington, que deveria garantir estabilidade e segurança, produziu o efeito contrário, levando esses países a repensarem suas alianças.

Algo semelhante ocorreu com membros da OTAN. A Europa, historicamente alinhada a intervenções no Oriente Médio, desta vez optou por não acompanhar as iniciativas de Trump. Além da percepção de baixa racionalidade estratégica no conflito, pesou o desgaste das relações transatlânticas. Em poucos meses, os Estados Unidos passaram, aos olhos europeus, de companheiros na guerra da Ucrânia a potenciais ameaças à integridade territorial da Groenlândia. No mínimo, um sinal de que Trump não é um aliado estável ou suficientemente confiável.

Ruínas de uma escola atingida por ataques na província de Hormozgan, Irã, com civis observando os danos. A destruição de infraestruturas civis ilustra a crise na geopolítica global e o desrespeito aos princípios do direito internacional.
Escombros de escola atacada pelos EUA na província de Hormozgan, no Irã (Foto: AFP)

Como na Alemanha nazista

Ao tentar identificar vencedores e perdedores, talvez o maior prejuízo tenha sido da própria comunidade internacional. Assiste-se à consolidação de um novo patamar de normalização do absurdo: justificam-se genocídios em nome da autodefesa; naturaliza-se o assassinato de líderes políticos e de cientistas; ignoram-se os princípios mais elementares do direito internacional que sustentam um mínimo de civilidade entre as nações.

Declarações de Donald Trump exemplificam esse processo. Ao ser questionado sobre a possibilidade de um míssil de seu país ter atingido uma escola, vitimando mais de 150 meninas iranianas, o presidente respondeu que poderia “viver com esse resultado”. Em outro momento, ao estabelecer mais um de seus (muitos) prazos para negociações com o Irã, declarou que “uma civilização inteira morrerá esta noite”, uma fala que remete a um dos períodos mais tristes da história, como a solução final da Alemanha nazista.

Se, por um lado, o imperialismo estadunidense sofre um revés, o que pode ser interpretado como uma vitória para os defensores dos princípios da soberania e da autodeterminação, por outro, há pouco a comemorar no campo dos direitos humanos. O regime teocrático e autoritário dos aiatolás, que vinha sendo contestado nas ruas pela população iraniana, sai fortalecido. Um processo que parecia indicar desgaste nas bases de sustentação de um regime que viola direitos de diversas minorias foi descontinuado. Agora, há dúvidas sobre a continuidade e a força desses movimentos.

Em resumo, nesse jogo geopolítico, alguns ganham mais do que outros, e alguns perdem mais do que outros. A única certeza é a de que a mudança virá. Na verdade, ela já está em curso. Infelizmente, tudo indica que a comunidade internacional estará entre os que mais sofrerão seus efeitos negativos.

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