Em um cenário global hiperconectado, a segurança da informação deixou de ser um debate exclusivamente técnico para se tornar o epicentro de disputas ideológicas e geopolíticas. Quando ocorre um ataque hacker a órgãos estatais ou sistemas críticos de infraestrutura, como o que vimos há poucos dias, a reação imediata costuma extrapolar o diagnóstico técnico.
Em vez de uma análise sobre vulnerabilidades de firewalls ou protocolos de criptografia, o que frequentemente se testemunha é a rápida instrumentalização do incidente para a disseminação de narrativas conspiratórias. É a simbiose entre as vulnerabilidades do ambiente digital e a estratégia de comunicação da extrema direita, que transforma incidentes de segurança cibernética em catalisadores de pânico social e paralisia democrática. Tudo isso faz parte da “estética do medo”, que é fundamental ao avanço da politica de ultradireita.
Para compreender como um colapso digital se converte em combustível ideológico, é preciso analisar o pânico não apenas como uma reação emocional desordenada, mas como uma tecnologia política altamente refinada. A expressão “tecnologia política” abrange o uso estratégico de ferramentas institucionais, discursivas e midiáticas, que tem como objetivo moldar a percepção pública e guiar o comportamento das massas.
A extrema direita opera essa engenharia com maestria: diante de um evento disruptivo (como a invasão de bancos de dados governamentais ou a derrubada de serviços públicos digitais), o ecossistema de desinformação atua para amplificar a sensação de vulnerabilidade absoluta. O ataque hacker deixa de ser uma ação criminosa pontual para ser retratado como sintoma de uma “ameaça existencial oculta”, uma suposta conspiração globalista ou uma evidência da “fraqueza implícita” das instituições democráticas tradicionais.
A eficácia política do pânico
Numa visão psicanalítica, o pânico possui uma estrutura muito específica, que elucida sua eficácia política. Diferente do medo, que dispõe de um objeto delimitado e identificável (o medo de um animal, de uma agressão, de uma crise econômica ou mesmo da morte), o pânico flerta com o desamparo original e com o colapso dos referenciais de linguagem que organizam a realidade.
Freud disse que o pânico surge quando o laço social que une a massa a uma liderança ou a um ideal comum se rompe abruptamente. Quando o indivíduo se percebe desamparado diante de uma força que ele não compreende (as redes invisíveis da internet, os algoritmos e os ataques cibernéticos representam perfeitamente essa opacidade), o “eu” entra em colapso defensivo. Jacques Lacan avançou nessa trilha ao correlacionar a angústia à falta de mediação simbólica: é o encontro direto com o Real traumático, sem filtros.
A extrema direita compreende essa dinâmica psicossocial e, deliberadamente, sabota as mediações institucionais para empurrar o tecido social em direção ao pânico, sabendo que um sujeito tomado por ele abdica da racionalidade e busca, desesperadamente, uma figura de autoridade que prometa ordem e proteção a qualquer custo.
Nessa hora, a identificação com o próprio agressor é totalmente possível. Em outras palavras, o líder que ameaça pode ser o líder apoiado pelos ameaçados. Muita gente responde com covardia em vez de responder com coragem ao que chega como ameaça. Entende-se assim porque há “pobres de direita”, “mulheres machistas” e assim por diante, tudo é uma grande identificação ao agressor.
O pavor de Dilma Rousseff
Essa estratégia de saturação pelo pânico e pela violência simbólica possui raízes históricas profundas e momentos fundacionais bem documentados no cenário brasileiro. Um dos marcos mais nítidos da conversão do pânico em plataforma de poder ocorreu durante a votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, na sessão plenária de 17 de abril de 2016.
Naquela data, ao proferir seu voto na Câmara dos Deputados, o então parlamentar Jair Bolsonaro utilizou a tribuna não para fazer o que devia se fosse um político que faz jus ao cargo, debatendo as bases jurídicas ou econômicas do processo, mas para evocar o espectro do terror totalitário e da subversão moral. Ao exclamar o seu voto e dedicar a sua decisão à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (reconhecido como um dos principais torturadores do período da ditadura militar), o discurso operou uma destruição radical da lógica democrática.

O pronunciamento de 17 de abril de 2016 funcionou como um ensaio geral para a estética do pânico que definiria os anos seguintes. Ao exaltar explicitamente a figura de um torturador no coração do Parlamento, Bolsonaro acionou dois mecanismos simultâneos: primeiro, o pânico moral de que as instituições civis vigentes eram incapazes de “proteger a nação” contra as ameaças de esquerda; segundo, o pânico físico e institucional, ao sinalizar que a violência física extrema e a violação de direitos humanos fundamentais eram métodos legítimos de contenção social. A evocação do trauma histórico da ditadura desestabilizou o pacto constitucional brasileiro, demonstrando que o horror poderia ser reativado como ferramenta de intimidação e engajamento.
Quando aproximamos o discurso de 2016 dos ataques hackers contemporâneos, percebemos que a matriz operacional permanece idêntica. Em ambas as situações, o objetivo da extrema direita é produzir o colapso da confiança no sistema simbólico e institucional que sustenta a sociedade.
No ambiente digital, se o Estado não consegue proteger seus próprios dados ou se as urnas eletrônicas são alvo de questionamentos infundados após incidentes na rede, cria-se a atmosfera perfeita para a narrativa da fraude e da sabotagem interna. O ataque cibernético é transformado num espetáculo de vulnerabilidade. Imersos no desamparo psíquico provocado pela perda de controle sobre suas informações e serviços essenciais, cidadãos e cidadãs tornam-se altamente receptivos a soluções autoritárias.
Portanto, o pânico gerado pela extrema direita diante de eventos de alta tecnologia ou crises políticas não é um efeito colateral imprevisto, mas o cerne de sua racionalidade de governança. O medo paralisa, mas o pânico desorganiza as estruturas cognitivas e sociais, permitindo a refundação de um pacto autoritário baseado na promessa de segurança absoluta em troca da entrega da liberdade.
Compreender o pânico a partir de sua articulação psicanalítica e de sua instrumentalização histórica (cujo marco discursivo de 2016 permanece como uma cicatriz na democracia brasileira) é o primeiro passo para desarmar essa tecnologia política e resgatar a capacidade de resposta racional e soberana das instituições diante das ameaças da era digital.