Suje-se gordo, pois o juiz nunca será ‘tough’

Moral aritmética: o problema não é o roubo em si, mas o montante apropriado
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Um conto

“Suje-se gordo” é um conto despretensioso de Machado de Assis, recolhido em Relíquias da Casa Velha (1906). Quase uma anedota, o conto nos apresenta a dois personagens: o narrador da história e o temível Antônio do Carmo Ribeiro Lopes.

Compreenda-se o adjetivo.

O narrador recorda duas participações suas no júri. Tarefa delicada: na ausência de uma prova definitiva, incontestável, ele se inclinava pela absolvição. No caso em tela, contudo, a questão era clara, apesar do empenho do advogado de defesa: “O discurso foi admirável, e teria salvo o réu, se ele pudesse ser salvo, mas o crime metia-se pelos olhos dentro”.

Condenado – portanto. O crime era pífio, coisa irrisória, mas, se a lei é dura, ainda assim é a lei.

(Ou não?)

Contudo, um dos membros do júri mostrou-se muito veemente; exaltado até. Eis o nosso Lopes. Sua eloquência define certa forma de fazer política nos tristes trópicos:

“– Não estou debatendo, estou defendendo o meu voto, continuou Lopes. O crime está mais que provado. O sujeito nega, porque todo o réu nega, mas o certo é que ele cometeu a falsidade, e que falsidade! Tudo por uma miséria, duzentos mil-réis! Suje-se gordo! Quer sujar-se? Suje-se gordo!”

Moral aritmética: o problema não é o roubo em si, mas o montante apropriado. Ladrão pé de chinelo? Cadeia! Pena severa. Clemência alguma.

(O filósofo Bezerra da Silva já tinha advertido: “Cuidado com ele, de terno e gravata bancando o decente. É o diabo vivo em figura de gente”.)

Quem conta…

João IAO narrador deixou a vida levá-lo sem maiores atropelos e um dia foi novamente convocado para o júri. A surpresa do conto tem lugar, pois quem ele encontrou no banco dos réus? O patriota exaltado, mas agora acusado de um desvio milionário. Mas nada que pudesse abalar o cidadão de bem. Senhor da situação, Lopes comportava-se como um mestre consumado na arte da dissimulação.

(Um perfeito master – você me entende.)

O caso era grave; as provas irrefutáveis. O intransigente membro do júri provará do seu veneno, pensou consigo o narrador. Tinha motivos sólidos para assim crer:

“Lopes negava com firmeza tudo o que lhe era perguntado, ou respondia de maneira que trazia uma complicação ao processo. Circulava os olhos sem medo nem ansiedade; não sei até se com uma pontinha de riso nos cantos da boca.

Seguiu-se a leitura do processo. Era uma falsidade e um desvio de cento e dez contos de réis. Não lhe digo como se descobriu o crime nem o criminoso, por já ser tarde; a orquestra está afinando os instrumentos. O que lhe digo com certeza é que a leitura dos autos me impressionou muito, o inquérito, os documentos, a tentativa de fuga do caixa e uma série de circunstâncias agravantes; por fim o depoimento das testemunhas.”

Você já antecipou o final da história – tenho certeza. A empáfia do Lopes rendeu frutos e ele foi absolvido. Manteve a dignidade, a honra e, sobretudo, a fortuna que roubou. Mas talvez o verbo seja muito rude, grosseiro mesmo. Lopes especulou com o alheio, realizou tenebrosas transações, por certo; mas, pelo menos, lançou mão de expedientes ousados. O mais importante, contudo, é a lição que atravessa séculos e regimes no Brasil brasileiro, vou cantar-te nos meus versos:

“Vi que não era um ladrão reles, um ladrão de nada, sim de grande valor. O verbo é que definia duramente a ação: “Suje-se gordo!” Queria dizer que o homem não se devia levar a um ato daquela espécie sem a grossura da soma. A ninguém cabia sujar-se por quatro patacas. Quer sujar-se? Suje-se gordo!”

Um juiz tough?

O Lopes do conto bem podia chamar-se Daniel. Em lugar da cova dos leões, o covil dos parasitas do Estado – esporte favorito da elite que mora num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

A engrenagem está sempre em dia, a máquina em funcionamento quase automático. Diante dos tantos Antônio do Carmo Ribeiro Lopes que dominaram o Império e se reproduziram na República, como imaginar um juiz tough? Certamente não nos Dias que nos cabem viver. O provérbio-sintoma do dilema brasileiro vem à mente: ‘Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”.

(Mesmo que o juiz-ministro se desmoralize completamente. Ainda que a Suprema Corte se torne palco de decisões incompreensíveis.)

O último parágrafo do conto segue atual:

“Havia, entre outros documentos, uma carta de Lopes que fazia evidente o crime. Mas parece que nem todos leram com os mesmos olhos que eu. Votaram comigo dois jurados. Nove negaram a criminalidade do Lopes, a sentença de absolvição foi lavrada e lida, e o acusado saiu para a rua.”

No texto de Machado de Assis, o tribunal contava com 11 votos.

Sujar-se magro ou gordo: eis a questão.

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