Aluga-se

A eleição vai decidir quem fica com a chave do Brasil, e já tem gente com contrato pronto
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A placa no portão

Em 1980, o Brasil andava cansado. A inflação comia o salário antes do fim do mês, a dívida externa crescia toda vez que os juros subiam nos Estados Unidos e o governo militar já ensaiava o caminho do FMI. Foi nesse país que Raul Seixas gravou Aluga-se. Na canção, o Brasil inteiro ganha uma placa no portão e é oferecido a inquilinos estrangeiros, como quem resolve a crise de uma vez só. Raul ria de uma elite que sempre achou mais fácil entregar a casa do que arrumá-la.

Quarenta e seis anos depois, a placa voltou. De um lado, um projeto que aceita o resultado das urnas, defende a democracia e a soberania. Do outro, um candidato que recebeu a missão de concorrer das mãos do pai, numa visita à prisão onde Jair Bolsonaro cumpre 27 anos por liderar a trama golpista.

Um homem bateu em nossa porta

Os interessados chegaram cedo. Estados Unidos e China brigam pelos minerais que movem o mundo novo, dos carros elétricos aos mísseis, e o Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do planeta, quase toda ainda dormindo debaixo da terra. A única mina desse tipo funcionando no país já tem dono estadunidense.

Washington tirou da gaveta a Doutrina Monroe, aquela de 1823 que trata a América Latina como quintal, e só espirrou Bom Ar pra tirar o cheiro de naftalina. A Estratégia Nacional de Defesa de 2026 chamou a reforma de Corolário Trump, e o apelido pegou mais rápido: Doutrina Donroe. O quintal voltou a ser quintal.

O aumento do aluguel veio antes de qualquer contrato. Em 2025, Trump jogou uma tarifa de 50% sobre os produtos brasileiros e avisou que era por causa do julgamento de Jair Bolsonaro. Uma punição estapafúrdia para um país com quem os Estados Unidos têm superávit comercial há 16 anos. Quando a Suprema Corte dos EUA derrubou as tarifas de emergência, a Casa Branca trocou a papelada e manteve a cobrança, por meio da Seção 301, com uma lista de queixas que inclui as regras para as big techs e até o Pix, aquele do pão nosso de todo dia. A coisa foi longe a ponto de senadores democratas perguntarem, por escrito, se o governo Trump pretende reconhecer o resultado da nossa eleição. Dono nenhum deveria ouvir esse tipo de pergunta do inquilino.

O vizinho que já assinou

Flávio Bolsonaro não esconde onde foi buscar inspiração. Javier Milei discursou na convenção que lançou a candidatura, e a campanha vende a Argentina como apartamento decorado. Quem entra para conhecer encontra outra coisa. Mais de 31 mil empresas fecharam as portas desde a posse de Milei, as fábricas encolheram, o desemprego cresceu e a inflação, que virou troféu, continua alta o bastante para assustar qualquer brasileiro que viveu os anos 1980.

O contrato foi assinado em fevereiro. Para aliviar as tarifas, a Argentina aceitou pôr os Estados Unidos na frente da fila dos seus minérios, abrir a porta para os produtos de lá e deixar os dados pessoais dos argentinos seguirem para os servidores do Norte. Meses antes, Milei tinha vencido as eleições para o Congresso com um socorro bilionário que Trump condicionou, em público, ao resultado das urnas. O fiador cobrou adiantado, e cobrou em voto.

O corretor

O plano de Flávio atende pelo nome de Para o Brasil Vencer o Atraso, o que exige certo senso de humor. Por trás do título está um programa que anda de ré, com privatização, corte de gastos que sempre termina no andar de baixo e a ideia, revelada pela Folha em abril, de mexer no dinheiro garantido para saúde e educação e segurar o valor das aposentadorias. A equipe econômica é velha conhecida. Morou aqui entre 2019 e 2022, deixou o imóvel de pernas para o ar e ainda levou as moedinhas do lago.

O mercado financeiro aplaudiu mesmo sem ver a planta, porque conhece bem essa corretagem. Primeiro se desvaloriza a casa por dentro, depois se corta a luz de quem mora nela, e no fim a venda aparece como a única saída sensata.

É o corretor da canção do Raul, só que sem o deboche e com o complexo de vira-lata, diagnosticado na década de 1950 por Nelson Rodrigues.

Não por acaso, ele entende do riscado. Antes de querer alugar o país, Flávio foi investigado por comprar e vender apartamentos com dinheiro vivo, até o STJ anular as provas, e comprou uma mansão no Lago Sul com financiamento do BRB. Quem conhece o mercado imobiliário da família sabe que ali ninguém paga aluguel.

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O complexo de vira-lata foi diagnosticado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues (Foto: Carlos Moskovics/Reprodução)

A chave

Rosa Luxemburgo, presa em 1915, escreveu que a Europa em guerra teria de escolher entre o socialismo e a barbárie. Por aqui, a barbárie saiu pela porta com a redemocratização, mas nunca foi longe. Ficou rondando o quintal e, na primeira brecha, tentou entrar de novo. Veio com os palácios dos três Poderes depredados em 8 de janeiro e com um plano de golpe que terminou em condenação. A campanha do PL chama isso de perseguição e fala em anistia para quem tentou pôr a casa abaixo.

Em agosto, Flávio prometeu decretar Jesus Cristo o Senhor do Brasil, como se a fé coubesse num decreto e o Estado laico fosse um cômodo a desocupar. A frase caiu mal até entre os católicos, que ouviram ali um recado de quem nunca engoliu Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil desde 1930. Depois, ele brigou com a CNBB e subiu num palanque em São Paulo erguendo a imagem da santa.

Tudo isso sai da mesma planta em que o retrocesso ocupa todos os cômodos. Direitos humanos ficam demodê, prontos para o bota-fora, juiz que condena golpista vira alvo de sanção estrangeira, minérios e dados viram moeda de troca por apoio em Washington. A soberania, que a Constituição de 1988 pôs como primeira regra da casa, fica em xeque, negociada por quem trata o Brasil como mercadoria.

Raul fez piada porque em 1980 ainda dava para rir. Em 2026, a graça acabou. A América Latina vai virando um condomínio administrado de Washington, com síndico escolhido a serviço de Trump. Na nossa vizinhança sul-americana, a maior casa ainda não entregou a chave. Nessas eleições, cada eleitor sai de casa com ela no bolso. Pode entregá-la ao corretor que já chegou com o contrato pronto, escrito em inglês. Pode também fazer o que a canção do Raul, no fundo, pedia: ficar com a casa e resistir.

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