Que fique claro: a Copa do Mundo de futebol não apura a melhor seleção do ciclo de quatro anos. Ela aponta a melhor seleção daquele período de 38 dias, porque a Copa cresceu. Assim, sete ou oito seleções podem levantar a taça – vai ganhar quem tiver melhor desempenho naquele pequeno espaço de tempo. E não é só isso: tem a formação do grupo de classificação mais favorável na primeira fase, graças ao acaso. Ou os cruzamentos não tão difíceis quando os confrontos eliminatórios começarem – também obra do acaso misturada com o próprio desempenho e o dos concorrentes na fase inicial.
Por isso, até mesmo quem fez tudo errado no ciclo anterior de quatro anos pode sair da competição levando o troféu para casa.
Sem esquentar lugar
Sim, é o caso do Brasil. Porque os comandantes da CBF resolveram radicalizar na bagunça. Após a eliminação nas quartas de final da Copa de 2022, no Catar, o primeiro semestre do novo ciclo foi entregue a Ramon Menezes, com importância zero como treinador e, à época, dirigindo a seleção Sub-20. Três jogos e duas derrotas depois, perdeu a vaga para Fernando Diniz – mais uma radicalização da CBF, porque permitiu que ele continuasse trabalhando paralelamente no Fluminense (onde ganhou a Libertadores).
Durou um semestre e foi substituído por Dorival Jr. – com bom currículo em clubes, mas longe de ser alguém com “peso” para comandar a seleção. Ficou pouco mais de um ano. Em 16 jogos, só sete vitórias. Mas a sucessão de técnicos que mal esquentaram o lugar foi apenas um reflexo da sucessão de cartolas no comando da CBF: Ednaldo Rodrigues (foi afastado, voltou, foi afastado de novo…), José Perdiz (interino), Fernando Sarney (interventor), Samir Xaud… Também esquentaram pouco o lugar.
Dirigentes sem nenhuma expressão colocando técnicos sem estatura para o comando da seleção. Desperdiçados três anos de preparação, o mais recente presidente investiu no impacto da contratação de um dos treinadores mais vitoriosos do futebol: o italiano Carlo Ancelotti. São seis títulos nacionais, cinco Uefa Champions League, com clubes de quatro países das principais ligas europeias.
Se a competência e a carreira de Ancelotti são inquestionáveis, ter pouco tempo e pouco conhecimento da estrutura interna do futebol brasileiro jogam contra. Mas nem mesmo ter um técnico deste tamanho garante um resultado que vá além das quartas de final, quase uma constante desde o título de 2002 – a exceção foi 2014, com uma semifinal e o 7 a 1 para a Alemanha, dentro de casa.

Sequência de erros
Para completar, o fator Neymar. O melhor jogador brasileiro surgido nos últimos 15 anos (único craque nacional desse período, na concepção deste escriba) não encanta desde antes do Mundial de 2022. Depois da Copa do Catar, seu desempenho em PSG, Al-Hilal e Santos foi pífio, recheado de contusões e pouco futebol. Depois da novela “será que Ancelotti convoca Neymar?”, entrou em cartaz a sequência, “será que Neymar será titular?”.
Parecia óbvio que o técnico italiano chamaria Neymar. Afinal, pela primeira vez, os técnicos puderam convocar 26 jogadores (três a mais do que nas copas anteriores) – o que deixa margem para levar um jogador que, se jogar o que já jogou, vai ajudar muito; e, se não jogar, não terá tirado a vaga de ninguém de alguma importância (mesmo João Pedro, que ficou de fora depois de ótima temporada na Premier League, não chega a ser uma unanimidade imprescindível).
Coloque-se no lugar de Ancelotti: se ganhar a Copa com Neymar no grupo, ótimo, entra para a história e acrescenta uma cereja e tanto no bolo de troféus da sua carreira. Se não ganhar, terá sempre o argumento de que “todo mundo queria que ele viesse, ele veio e não aconteceu nada”. Mas perder a Copa do Mundo sem a convocação de Menino Ney acarretaria ao italiano uma avalanche violenta de críticas e o próximo ciclo, para 2030, começaria sem clima e com desconfiança.
Essa sequência de erros, incompetência e impasses destrói as possibilidades do hexa?
Com certeza, não ajuda. Mas, como foi dito nas duas primeiras linhas deste texto, Copa do Mundo premia quem joga melhor naquele curto período. No entanto, não resta dúvida de que, nos dias de hoje, a Seleção Brasileira é inferior, técnica e taticamente, aos conjuntos de Portugal, França, Espanha, Inglaterra e Argentina (apesar de ter um time envelhecido, ainda tem Messi), além de outras seleções que não vivem grande momento, mas pela história devem ser incluídas nesta lista, como Alemanha, Holanda e Bélgica.
A Copa do Mundo que começa em poucos dias é superlativa, a maior da história. Mais seleções (48), mais sedes (três), mais jogos (104), mais fases (um mata-mata a mais), mais tempo (38 dias)… Ou seja, o grau de dificuldade cresceu, não tanto pela parte técnica, porque a Copa ganha muitas seleções que nada acrescentarão deste ponto de vista. Mas haverá mais viagens, mais partidas, mais desgaste físico.
O Brasil pode até voltar com o hexa, embora pareça muito pouco provável. E Ancelotti, de contrato estendido, certamente, investe numa campanha razoável para ter tempo de trabalhar quatro anos para 2030, com uma equipe bem renovada, moldada com o seu jeito. E sem Neymar.