Sem salário digno para professores, promessas de candidatos não passam de propaganda vazia

Valorizar a educação é condição básica para qualquer projeto de desenvolvimento nacional
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Em todas as eleições, a mensagem é a mesma. Os candidatos descobrem, de repente, que a educação é a prioridade nacional. Visitam escolas, tiram fotografias em salas de aula, prometem investimentos, repetem que “a educação transforma vidas” e encerram seus discursos sob aplausos. Passadas as urnas, entretanto, a realidade costuma permanecer exatamente onde estava: nas costas do professor.

Se existe um consenso no Brasil, é o de que a educação é importante. O problema é que esse consenso termina quando chega o momento de transformar palavras em orçamento público. Defender a educação tornou-se politicamente barato; valorizá-la de fato continua sendo considerado caro.

Talvez esteja na hora de invertermos a lógica. Em vez de perguntarmos aos candidatos quais são seus projetos para a educação, deveríamos perguntar o que pretendem fazer, concretamente, pelos professores. Afinal, não existe educação pública de qualidade sem profissionais valorizados. Escolas não ensinam sozinhas. Prédios não educam.

Plataformas digitais não substituem o trabalho intelectual, emocional e humano realizado diariamente por milhões de docentes.

A valorização docente não pode continuar sendo um slogan eleitoral. Ela precisa ser mensurável. O eleitor deve poder cobrar resultados objetivos. Algumas perguntas simples bastariam.

O candidato compromete-se a cumprir integralmente o Piso Salarial Nacional do Magistério, sem manobras jurídicas, penduricalhos merrecas e interpretações criativas para reduzir seu alcance?

Existe um plano para recuperar as perdas salariais acumuladas ao longo dos últimos anos, impedindo que a inflação continue corroendo a renda dos professores?

Haverá investimento efetivo em condições de trabalho: redução da superlotação das turmas, melhoria da infraestrutura das escolas, tempo adequado para planejamento e correção de atividades e garantia de materiais pedagógicos?

O governo assumirá uma política séria de prevenção ao adoecimento físico e mental dos profissionais da educação, tratando a saúde do professor como uma questão de política pública, e não como um problema individual?

Por fim, haverá uma carreira capaz de atrair e manter bons profissionais na escola pública, oferecendo perspectivas reais de progressão, formação continuada e reconhecimento?

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(Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Falta vontade política

Nenhuma dessas propostas é revolucionária. Todas já estão previstas, de alguma forma, na legislação educacional ou são amplamente defendidas por especialistas da área. O problema nunca foi a falta de diagnósticos. O problema sempre foi a ausência de vontade política.

Durante décadas, acostumamo-nos a responsabilizar o professor pelos fracassos da educação brasileira. Exigem-se resultados cada vez maiores enquanto se oferecem salários insuficientes, jornadas exaustivas e condições frequentemente precárias de trabalho. Espera-se excelência de profissionais que, muitas vezes, precisam acumular matrículas em diferentes redes apenas para manter uma renda minimamente digna.

É curioso que nenhum gestor espere que um hospital funcione sem médicos valorizados ou que uma obra pública avance sem engenheiros. Mas, quando se trata da educação, parece natural imaginar que a boa vontade dos professores seja suficiente para compensar a falta de investimentos.

Neste período eleitoral, talvez devêssemos desconfiar um pouco mais dos discursos emocionados sobre o futuro das crianças e dos jovens. O verdadeiro compromisso com esse futuro começa pelo presente dos seus professores.

A educação brasileira não precisa de mais homenagens em outubro nem de mais discursos em época de campanha. Precisa de governos que compreendam uma verdade simples: valorizar o professor não é um gasto. É a condição básica para que qualquer projeto de desenvolvimento nacional deixe de ser propaganda e se torne realidade.

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