André Luiz de Almeida Mendonça, 54 anos, paulista de Santos, formado em direito numa faculdade privada de Bauru (SP) e em teologia num instituto ligado à Igreja Presbiteriana em Londrina (PR), é o personagem central deste Carnaval Fora das Ruas do Brasil de 2026.
Tímido, de fala mansa e sutil, dono de um olhar ora nervoso, ora desconfiado para os circunstantes, desde a noite da última quinta-feira, 12/2, ele passou a reunir em suas mãos o poder mais explosivo da República: a capacidade de discernimento para detonar (ou não) as ogivas nucleares e também as balas de festim contidas no relatório de investigações que a Polícia Federal empreendeu nos papéis e nos arquivos telemáticos dos liquidados Banco Master e REAG DTVM.
Designado por sorteio relator no Supremo Tribunal Federal das falcatruas do Caso Master e das fraudes lideradas pelos ex-controladores da instituição, Daniel Vorcaro e Augusto Lima, dificilmente, Mendonça conseguirá repetir o trágico desempenho do colega José Antônio Dias Toffoli nessa mesma relatoria.
Toffoli gabaritou o rol de erros que sempre é apresentado a quem ascende na vida pública e se vê numa encruzilhada que o obriga a decidir entre a glória e o cortejo de iniquidades e ardis ao redor dela. O “ministro Tayayá” preferiu as iniquidades. Foi assim, “ministro Tayayá”, que Dias Toffoli passou a ser chamado depois da exposição dos rolos financeiros dele e dos irmãos numa holding familiar que foi dona de um resort no Paraná em sociedade com o cunhado de Daniel Vorcaro.
MENDONÇA PODIA TER CONTIDO BOLSONARO
André Mendonça foi advogado da União concursado – passou num concurso público em 2000 – e ocupou o Ministério da Justiça e da Segurança Pública por 11 meses, durante o trágico governo de Jair Bolsonaro. Tendo sido antecedido no ministério por Sérgio Moro (o ex-juiz suspeito, que driblou o princípio do Juiz Natural e prolatou sentenças ilegais eivadas do fel e do ódio da perseguição política) e sucedido pelo desastroso e golpista Anderson Torres, delegado federal agora preso por formação de quadrilha a fim de dar um golpe de Estado, não era difícil para Mendonça ser considerado “o melhor ministro da Justiça” do Bolsonaro.
Se jogasse parado, sobressaía-se.
E André Mendonça jogou parado. E se deu mal. Deu-se mal, justamente, porque ficou parado no Ministério da Justiça no auge da pandemia da covid-19, quando o chefe dele, o repugnante Jair Messias Bolsonaro, negou o vírus, afrontou as estratégias públicas de distanciamento sanitário, desdenhou dos mortos e dos dramas familiares de quem perdia entes queridos.
Foram mais de 700 mil mortos no Brasil em consequência da pandemia; podia ter ocorrido uma redução de um terço ou de metade dessa estatística nefasta, se o governo de então, e seu líder patético, tivessem sido contidos na escalada de insanidades. Mendonça tem culpa na incontinência de Bolsonaro. Afinal, estava demandado e empoderado para contê-lo ou para romper com ele. Ajoelhou-se e seguiu no governo até ser indicado para ocupar uma vaga aberta no Supremo Tribunal Federal.
A indicação de André Mendonça ao STF se deu pela conquista de um latifúndio no coração da então primeira-dama Michele Bolsonaro. Foi mérito pessoal dele tal conquista. Ela ocorreu principalmente pela adesão integral e dogmática às teses mais retrógradas, pérfidas e esquisitas da “pauta de comportamento” do bolsonarismo.
Aquilo o alçou ao shape talhado pelo escroque que sentava na cadeira de presidente da República: Mendonça, afinal, era o “terrivelmente evangélico” que ele queria para açular seus golpistas amestrados de bíblia nas mãos. É esse passado que tisna o perfil biográfico do ministro, agora relator na Suprema Corte do país do maior caso de fraude financeira de nossa História. A fotografia de tamanhas descaídas pretéritas tem de ficar arquivada no retrovisor da vida para ser apenas consultada biograficamente – jamais exibida com orgulho.
O futuro flerta com André Mendonça. Ele é o segundo mais jovem dentre os seis ministros “sub 60” na atual composição do STF. Só é mais velho que o caçula Cristiano Zanin, que tem 50 anos. Nada na trajetória de Mendonça indica que ele largará o Supremo antes dos 75 anos, porque não parece ter chegado ali para fazer carreira, mas, sim, para construir uma biografia.
Uma das figuras centrais do escândalo do Master é o pastor da Igreja Lagoinha (de Minas Gerais) Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Zettel é pivô das fraudes financeiras cometidas na instituição e na operadora REAG. Vorcaro é filho de outro pastor também sob investigação, Henrique Vorcaro, e começou a vida ancorando programa gospel em TV ligada a denominações evangélicas.
Mas uma diferença oceânica separa o credo de uns da fé do outro. André Mendonça tem laços familiares históricos com a Igreja Adventista, secular, tradicional, de raiz teológica plena. Zettel e os Vorcaro são oriundos desse furdúncio argentário, que é o neopentecostalismo brasileiro. Essa distinção de igrejas estabelecerá distâncias sanitárias entre juiz e investigados nesse caso.

UM GABINETE QUE PODE SURPREENDER
André Mendonça formou um gabinete essencialmente técnico no Supremo Tribunal Federal. Foi obrigado a ser ainda mais explicitamente técnico que os demais ministros, porque pairava sobre ele, antes de assumir, o manto da desconfiança em relação à sua competência técnica como operador do Direito.
Tais desconfianças também recaíam sobre José Antônio Dias Toffoli em 2009, quando assumiu uma vaga no Supremo sob a indicação do presidente Lula. E ali em 2009, também Toffoli montou um gabinete espetacularmente técnico. Contudo, como o vício de fumar cachimbos entorta a boca, Toffoli foi paulatinamente degenerando a própria equipe até convertê-la num gabinete de boas-vindas à pauta de sordidezes e maluquices de Bolsonaro, em 2018. Tanto foi assim que o extremista de direita sacou do gabinete de Toffoli o general Fernando Azevedo e Silva para nomeá-lo ministro da Defesa, a partir de 2019.
Tendo confundido farda e patente com caráter, Bolsonaro surpreendeu-se e o demitiu, quando Azevedo e Silva retrucou ordens suas e se recusou a dar curso a elas, às vésperas do golpe de 8 de janeiro de 2023, ainda em março de 2021. Dias Toffoli seguiu próximo e aderente às causas mais malucas do bolsonarismo, contra as quais também silenciou enquanto foi presidente do Supremo Tribunal Federal. Foi naquele clima de ruptura interna do bolsonarismo, quando a turma da “selva” se separou dos áulicos minimamente módicos, que Mendonça montou sua equipe para a travessia de um quarto de século no Supremo.
Agora, pela primeira vez desde 2021, quando foi montado, o gabinete de André Mendonça tem a oportunidade de mostrar a que veio. O futuro e suas perspectivas biográficas flertam com ele. O país e as instituições republicanas estão a velar e a zelar pelas normas e pela postura. É necessário conceder-lhe o benefício da dúvida ante as expectativas tão contidas que tivemos em relação ao saber jurídico, à aptidão técnica e à liberdade de fé e de credo que tivemos, quando o ministro “terrivelmente evangélico” chegou à Corte Constitucional.