O multimilionário Jeffrey Epstein não foi uma exceção. Não foi um monstro isolado. Não foi um desvio do sistema: foi um produto dele.
Mesmo diante de acusações graves e de sua primeira condenação em 2008 por exploração sexual, Epstein cumpriu uma pena extraordinariamente branda.
O acordo firmado com a Procuradoria Federal da Flórida (amplamente criticado à época) permitiu que ele deixasse a prisão durante o dia para trabalhar e retornasse apenas à noite. Na prática, ele passou um ano sob custódia em regime privilegiado. Para as vítimas, ficou claro que o dinheiro pode negociar não só a sentença de um processo.
Ao ser libertado, apesar de denúncias numerosas e consistentes, retomou o convívio com amigos influentes, que naturalizaram a violência – e com a reputação praticamente intacta.
Os convites não cessaram. Epstein não operou nas sombras de um submundo clandestino. Não precisava. Ele circulou em salas iluminadas, em universidades prestigiadas, em jantares privados caríssimos, em ambientes onde poder econômico e capital simbólico se reforçam mutuamente. O sociólogo francês Pierre Bourdieu define o prestígio como uma forma de capital simbólico. E capital não se perde; se reorganiza. Reputações são blindadas, recicladas, reembaladas. Epstein não é exceção. É engrenagem desse sistema.
Por isso, suas doações de milhões de dólares continuaram sendo aceitas, funcionando como uma espécie de “ethics washing” (“lavagem ética”); conexões acadêmicas permaneceram como blindagem institucional. Arranjos institucionais foram usados como escudos jurídicos para garantir acesso privilegiado. É assim que funciona a arquitetura: trusts, empresas de fachada, estruturas financeiras complexas – mecanismos que concentram riqueza e, ao mesmo tempo, ajudam a fabricar a respeitabilidade de um criminoso sexual.
Nos últimos meses, a divulgação fragmentada de milhões de documentos sobre o caso reacendeu o debate público e provocou terremotos no mundo todo – como na França, por exemplo, com o governo anunciando ação na Justiça contra um diplomata suspeito de crimes sexuais; ou no Reino Unido, com a renúncia do braço direito do primeiro-ministro Keir Starmer. Foi uma verdadeira devassa. Ao mesmo tempo, a divulgação também enfrenta a desinformação em escala industrial.
Trechos descontextualizados passaram a circular como “provas” de teorias conspiratórias. Nomes citados foram utilizados para fundamentar sentenças. O jornalista Leandro Demori desmontou dois exemplos emblemáticos: a falsa narrativa de que Lula teria conversado por telefone com Epstein; e a mentira de que a apresentadora Luciana Gimenez teria recebido milhões de dólares do empresário. São acusações sem respaldo investigativo, impulsionadas por cliques e engajamento.
Lógica de poder
O resultado é paradoxal: quanto mais documentos aparecem, menos clareza parece se formar. O que já é grave por si só acaba diluído. A tragédia real de meninas abusadas vira pano de fundo para teorias e para o consumo.
Em A Sociedade do Espetáculo (1967), Guy Debord nos ajuda a entender como o espetáculo não teme a crítica: ele a incorpora. A denúncia, quando transformada em mercadoria midiática, deixa de ameaçar a própria estrutura que a produz. O caso Epstein tornou-se um exemplo dessa dinâmica: o horror é consumido a cada manchete; a indignação, compartilhada nas redes; a revolta, convertida em engajamento. A lógica de poder permanece intacta.
Enquanto se espera pelo próximo nome divulgado, as vítimas continuam sem reparação. Só temos uma mulher condenada, a ex-namorada e cúmplice do bilionário, Ghislaine Maxwell (junto com Epstein, na foto de abertura desta matéria). A sentença foi de uma pena de 20 anos de prisão por conspiração para abusar de menores. Me pergunto: enquanto se espera pela próxima lista (muitos são citados sem consistência para comprovar conexão causal com os abusos), onde estão os homens poderosos sem responsabilização criminal?

Na audiência recente no Congresso dos Estados Unidos, vítimas de Epstein apontaram falhas e lacunas na condução. Pedem por responsabilização. E passaram por um caso clássico de revitimização: tiveram seus dados pessoais expostos no lote de três milhões de documentos divulgados. Marina Lacerda, brasileira que afirma ter sido abusada aos 14 anos, questionou:
“Como o Departamento de Justiça foi tão cuidadoso ao proteger nomes de homens influentes e, ao mesmo tempo, falhou em proteger as sobreviventes?”.
O mesmo sistema que é cirúrgico para proteger o nome de poderosos é negligente com as vítimas. Isso ajuda a compreender como uma rede de abusos tão vasta e tão complexa pôde se perpetuar com um número incontável de adolescentes abusadas. Redes de proteção das elites ajudam a sustentar um pacto de silêncio histórico.
Precisamos lidar com casos de abusadores sexuais sem tratá-los como exceção. Sem enfrentar essa estrutura, veremos sempre o mesmo roteiro: escândalo, espetáculo, indignação, esquecimento.
E o pacto (silencioso ou ruidoso) de homens poderosos seguirá intacto.