O Cavalo e a Laranja

A fábula de uma comédia de erros
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Quem é Karina Ferreira da Gama? Uma personagem secundária de um enredo composto por inverdades, explicações inverossímeis, corrupção, achaque e outros comportamentos suspeitos. Ela  deveria ficar na coxia, mas acabou vindo para a ribalta da cena política e policial.

Uma senhora de 47 anos, moradora de casa modesta na Vila Brasilândia, Zona Norte de São Paulo, que produzia pequenos eventos para o público evangélico e que, num intervalo curto de tempo, virou dona de uma produtora de cinema internacional, presidente de duas ONGs generosamente irrigadas por emendas parlamentares, sócia de quatro empresas e contratada de um projeto de R$ 157 milhões da prefeitura de São Paulo.

Para entender como essa mulher chegou ao protagonismo dessa comédia de erros, é preciso voltar ao começo. E o começo, como convém a uma trama que mistura política, vaidade e dinheiro, é um filme.

I. Um cavalo escuro na tela

Dark Horse foi anunciado como uma superprodução internacional. A expressão, por si só, já carregava a ambição do projeto: cinema americano, ator hollywoodiano, orçamento de gente grande. Na prática, era outra coisa. Era um projeto de exaltação política embalado como cinema – uma obra perfeitamente alinhada à visão de cultura do deputado Mário Frias (PL/SP), ex-ator e ex-secretário de Cultura do governo de Jair Bolsonaro.

Ele sucedeu, no primeiro escalão, o celerado Roberto Alvim.Alvim. Foi aquele ator que produziu a pantomima em cadeia nacional para a qual se fantasiou de Goebbels para exaltar uma arte “nacional” e “heroica” — a estética grandiloquente, a cultura como instrumento de engrandecimento do líder, a arte como liturgia do poder. Dark Horse é filho legítimo dessa concepção. Não nasceu para contar uma história; nasceu para consagrar um “mito”.

O filme se vendia como a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Quando as primeiras cenas vieram a público, porém, a atuação do ator Jim Caviezel deixou clara a natureza do projeto: uma comédia dramática, um tragicômico melodrama cuidadosamente montado para projetar Bolsonaro como herói.

II. O verdadeiro mentiroso

De repente, nas páginas da revista Intercept, o primeiro plot twist: surge Daniel Vorcaro, o homem que comprou meia República na tentativa de salvar um banco falido. Um personagem que já vinha sendo tratado pelo noticiário como o pior canastrão da história recente do sistema financeiro brasileiro. Mas que tinha uma relação oculta de “brother” com o senador Flávio Bolsonaro, que o Intercept cuidou de trazer para fora do armário de seu falso-moralismo

Os prints das conversas entre os dois, publicados pela revista, dispensam glosa. Neles, estão todos os ingredientes de um achaque: a intimidade, a cobrança em tom de súplica, a pressão política nas entrelinhas, o dinheiro. Flávio Bolsonaro tentou tirar dele R$ 134 milhões – o dobro do custo do filme. E foi visitar, secretamente, o banqueiro corrupto, descobriu-se depois, quando ele estava em prisão domiciliar. O senador da República, que outrora também era dado a ir a presídios para entregar comendas a milicianos, parece ter um pendor irrefreável por visitar presidiários.

Na porta do Supremo Tribunal Federal, Flávio, ao ser abordado pelo repórter do Intercept, tentou desqualificar o jornalista chamando-o de mentiroso. Não foi preciso mais do que algumas poucas horas até que se descobrisse quem era o “verdadeiro” mentiroso.

III. Barata-voa

A descoberta de que Flávio e Vorcaro eram gêmeos siameses corou até o PL de Valdemar Costa Neto – e o PL de Valdemar Costa Neto, registre-se, não é agremiação que se escandalize com facilidade. Embora o partido seja escolado em escândalos de corrupção, o que se seguiu foi um espetáculo de desconforto: reuniões, silêncio e muitas desculpas para justificar o injustificável. Todas elas cairiam num espaço de horas.

Flávio apresentou sua versão numa primeira coletiva sobre o assunto. Próceres do PL desfilaram diante dos microfones para declarar que as explicações do senador eram suficientes.

Os satélites do bolsonarismo não tardaram a se apresentar para ocupar o espaço de uma candidatura que, àquela altura, não valia um tostão furado. Ronaldo Caiado saiu-se com a fórmula protocolar: Romeu Zema foi mais dramático e classificou o episódio como um tapa na cara do país. Flávio deu novas explicações, mas ninguém acreditou porque eram, mais uma vez, tentativas óbvias de falsear a realidade.

IV. A nota de Mário Frias

As versões para explicar o inexplicável, mal eram apresentadas, caíam. E os tiros vinham de todos os lados – inclusive, e sobretudo, dos amigos. O caso mais instrutivo é o do deputado Mário Frias, produtor executivo do filme. Diante do escândalo, Frias divulgou uma nota tão longa quanto mentirosa. Nela, afirmou o seguinte: “Como já esclareceu a produtora GoUp Entertainment, não há um único centavo do sr. Daniel Vorcaro em Dark Horse“. Mas fez uma ressalva: “Ainda que houvesse, não haveria problema algum: trata-se de relação estritamente privada, entre adultos capazes, sem um único real de dinheiro público envolvido.”

Mas Frias ainda não havia terminado de se desmentir. Faltava o capítulo dos áudios. O Intercept revelou gravações que mostravam o deputado – o mesmo que jurava, por escrito, distância asséptica do banqueiro – na posição de bajulador de Daniel Vorcaro. E foi justamente na nota de Frias, nesse documento que pretendia encerrar o assunto, que apareceu a ponta do novelo. Um nome, citado de passagem, como quem cita uma referência de autoridade: a produtora GoUp Entertainment.

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Mario Frias, secretário de Cultura no governo Bolsonaro (Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados)

V. A ponta do novelo

Seguindo o caminho do dinheiro, jornalistas investigativos da Intercept encontraram o fundo Havengate, geridos por dois outros “brothers” de Eduardo Bolsonaro: o advogado Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana. Flávio Bolsonaro foi à GloboNews jurar inocência, e sua declaração merece transcrição integral: “Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”.

Posteriormente, esta semana, ficamos sabendo que o Havengate não foi criado agora, muito menos para a consecução do filme. O Intercept revelou que ele foi criado há muitos anos para ancorar um empreendimento imobiliário em Melissa, Texas, que não deu em nada.

Os ditos e desditos foram se acumulando na velocidade da luz. Eduardo Bolsonaro, que jurava não ter nada a ver com a encrenca, surgiu em seguida como produtor executivo do projeto do qual jurava não participar. E, com essa revelação, apareceram as primeiras suspeitas de natureza mais grave: a de que o dinheiro achacado do banqueiro sustentava a vida nababesca que Mr. Little Banana sempre tentou esconder.

VI. O colchão de ar de US$ 6 milhões

O Intercept descobriu o endereço do ex-deputado e mandou um repórter a Southlake, no Texas. O que o repórter encontrou não era exatamente o cenário de privações da narrativa oficial. É em Southlake que fica o “SPA” em que Eduardo Bolsonaro encostou seu famoso colchão de ar: uma mansão avaliada em US$ 6 milhões, com piscina, quadra de tênis e aluguel de R$ 30 mil por mês. Trinta mil reais mensais – o suficiente para pagar, todo mês, alguns anos de aluguel de uma casa na Brasilândia, bairro que voltará a esta história em breve, e não por acaso.

Confrontado com a descoberta, Eduardo reagiu segundo o manual da casa: partiu para a desqualificação. Disse que o repórter era burro e tinha batido na porta errada. A casa, sugeriu, não era a dele. Azar o dele: o repórter do Intercept tinha toda a cena registrada em vídeo. E sim – lá estava a mulher de Eduardo Bolsonaro saindo do banho, na casa que, supostamente, não era a dele. Na porta errada, na residência do vizinho? Provavelmente, não.

VII. A laranja

Karina Ferreira da Gama é a dona da produtora GoUp – a produtora de cinema que nunca fez filme nenhum. Tem 47 anos de idade. Antes de se tornar dona de uma produtora responsável por uma superprodução internacional estrelada por um ator de Hollywood, Karina fazia pequenos eventos para o público evangélico. Nada em sua trajetória anterior anunciava o salto. O que houve foi um produtivo encontro: Karina teve a sorte de conhecer Mário Frias, para quem trabalhou na última eleição. A partir daí, a vida dela mudou. A dele, idem!

Mudou de um jeito que os registros públicos permitem medir. Os grafos de relações societárias levantados pela reportagem mostram Karina no centro de uma teia corporativa cheia de singularidades. Ela é sócia de quatro empresas. Preside duas ONGs: o Instituto Conhecer Brasil e a Academia Nacional de Cultura – ambas, como se verá, muito bem aquinhoadas pela generosidade da bancada bolsonarista. Foi assim que ela se transformou num prodígio empresarial.

Vários deputados bolsonaristas do PL indicaram quase R$ 4 milhões em emendas parlamentares para os negócios dessa senhora. Nem tudo foi pago. Mas há um dado que dispensa interpretação: só o padrinho dela, Mário Frias, destinou a Karina mais da metade desse valor.

VIII. O rio de R$ 61 bilhões

As emendas parlamentares compulsórias, ferramentas utilizadas pera mandar dinheiro para o projeto do filme, foram instituídas há 11 anos com uma justificativa de aparência nobre: supostamente, livrariam os parlamentares da manipulação do Executivo na liberação de dinheiro para projetos de interesse deles. Acabaria o balcão, dizia-se; o deputado não precisaria mais se ajoelhar diante do Planalto para ver seu recurso liberado. Mas os parlamentares foram se apropriando de parcelas cada vez maiores do orçamento.

No ano passado, o governo pagou mais de R$ 50 bilhões em emendas parlamentares compulsórias. Este ano serão R$ 61 bilhões no total – o equivalente a 40% de tudo o que a União tem para investir. Cada deputado terá, neste ano, R$ 40 milhões para distribuir. Cada senador, R$ 74 milhões.

No caminho da corrupção patrocinada pelas emendas há ONGs de fachada, que lavam o dinheiro sujo das negociatas. Entidades de papel, que recebem recursos públicos e os fazem desaparecer em serviços de comprovação impossível. É este o papel que, segundo os investigadores, cabe ao Instituto Conhecer Brasil – a ONG presidida por Karina Ferreira da Gama, que seria a laranja do esquema.

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Sede do Instituto Conhecer Brasil (Foto: Divulgação)

Mário Frias destinou ao Instituto de sua ex-assessora Karina R$ 2 milhões. O deputado Marcos Pollon mandou R$ 1 milhão. Bia Kicis admitiu ter indicado R$ 55 mil. E a generosidade desceu ao plano estadual: três deputados estaduais do PL paulista indicaram emendas para a ONG de Karina. Valéria Bolsonaro deu R$ 100 mil. Lucas Bove, R$  213 mil. Gil Diniz, R$ 200 mil. Na lista, uma presença dissonante, que a apuração registra como registrou as demais: o petista Luis Fernando Teixeira, que depois se disse enganado, indicou mais R$ 190 mil.

Some-se tudo: quase R$ 4 milhões em indicações parlamentares para os negócios de uma senhora cuja qualificação conhecida era ter trabalhado na campanha de um deputado. Nem tudo foi pago – mas a intenção, essa, está documentada no orçamento da União.

IX. O Wi-Falha

Com a ajudinha dos bolsonaristas, Karina, a despeito de sua falta de experiência, conseguiu contratos milionários com prefeituras e governos estaduais. O mais vultoso deles merece capítulo próprio: o contrato para instalar cinco mil pontos de Wi-Fi em locais públicos de São Paulo. Um projeto de R$ 157 milhões.

Cento e cinquenta e sete milhões de reais para conectar a maior cidade do país. A reportagem decidiu fazer o teste mais elementar do jornalismo: ir à rua verificar se o serviço existe.

Debaixo de uma das antenas instaladas pelo programa no Largo do Paissandu, em São Paulo, fica uma banca de jornais. A dona da banca trabalha, literalmente, sob o equipamento – se há algum paulistano em condições de atestar o funcionamento daquele ponto de Wi-Fi, é ela. Perguntada sobre o Wi-Fi livre da prefeitura, sua resposta foi direta: não funcionou.

A reportagem seguiu para um segundo ponto. Ali, a caixa de passagem da instalação estava arrombada – a infraestrutura do projeto de R$ 157 milhões entregue ao relento e à depredação, sem que ninguém, aparentemente, tenha notado ou se importado.

Terceiro teste, na praça da Biblioteca Mário de Andrade, um dos endereços mais centrais e movimentados da cidade. Lá, um usuário tentava captar o sinal de internet prometido. Não conseguia. Onde os documentos dizem que deveria haver 27 antenas instaladas, só conseguimos localizar quatro.

O resultado está nas ruas: antenas que não conectam, caixas arrombadas, usuários sem sinal. E R$ 157 milhões do contribuinte paulistano no caminho. Que não conectam ninguém a nada, a não ser o dinheiro do contribuinte com o caixa de Mário Frias e do filme Dark Horse.

X. A síndica de um duto

Somando o orçamento de Dark Horse, o dinheiro da prefeitura de São Paulo e as emendas parlamentares, ao menos R$ 220 milhões passaram pelas mãos de Karina Ferreira da Gama. Ainda não se sabe exatamente quanto – a cifra é um piso, não um teto. O que se sabe é a natureza da função: Karina foi a ponta de um duto pelo qual passou muito dinheiro público.

Curiosamente, Karina Ferreira da Gama leva uma vida aparentemente quase miserável na periferia de São Paulo. Ela mora na Vila Brasilândia, um típico bairro de classe D e E na Zona Norte da capital. A reportagem foi até a porta da casa dela. Espiando por cima do muro, não é difícil perceber que se trata de um imóvel modesto – uma peça que se encaixa com perfeição no mosaico de construções singelas com telhados de eucatex que compõem o bairro.

Os vizinhos pouco sabem de Karina. Perguntados, dizem que ela só se distingue dos demais moradores por um detalhe: um carro de luxo. Um motoqueiro do bairro confirmou à reportagem essa única extravagância visível – o automóvel destoante estacionado na paisagem da comunidade.

A imagem resume a personagem e, de certo modo, o esquema inteiro. Duzentos e vinte milhões de reais atravessaram as mãos dessa mulher – e não pararam nelas. Se tivessem parado, Karina não moraria na Brasilândia. O carro de luxo é a gorjeta que ficou na mão da síndica do duto; o resto passou adiante, para destinos que os investigadores ainda tentam mapear. É a assinatura clássica do testa de ferro: a desproporção entre o volume de dinheiro que circula em seu nome e o padrão de vida que exibe. Quem lava dinheiro para si enriquece; quem empresta o nome para o dinheiro dos outros ganha um carro.

Onde parou o dinheiro é a pergunta que esta reportagem deixa armada – e que as investigações em curso terão de responder.

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