O barril e o bolso — como a guerra de Trump pode custar caro ao Brasil

País não tem responsabilidade ou controle sobre a guerra, mas herda a conta da alta do petróleo
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O epicentro fica a 10 mil km daqui, mas os tremores já se sentem no asfalto brasileiro.

A guerra que Donald Trump e Benjamin Netanyahu abriram contra o Irã, como quem risca fósforo perto de um botijão para ver se o gás ainda funciona, provocou o que a Agência Internacional de Energia classificou como uma grande ruptura no mercado global de petróleo. O barril subiu de UU$ 70 para mais de US$ 100 em pouco mais de uma semana. Oito milhões de barris por dia foram subtraídos da oferta mundial.

O Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% do petróleo do planeta, está fechado e o tráfego marítimo despencou. A resposta de 32 nações foi liberar 400 milhões de barris dos estoques emergenciais, o equivalente a jogar areia nas rachaduras enquanto o solo continua tremendo.

Os ataques começaram em 28/2, com explosões em Teerã e em diversas cidades iranianas. Foram contabilizados 555 mortos nos primeiros dias. Trump é imprevisível, governa medindo forças de cima para baixo, sempre pronto a usar poder bélico quando seus interesses são contrariados. A guerra serve para dialogar com sua base, projetar força e mandar um recado ao mundo inteiro, com a China como destinatária principal.

Netanyahu, por sua vez, se agarra às guerras como instrumento de manutenção no poder e encontrou em Trump o parceiro ideal para transformar o Oriente Médio em vitrine de demonstração de força. Mas o Irã tem capacidade de retaliação. Mojtaba Khamenei, o novo líder supremo, declarou que Ormuz permanecerá fechado enquanto o conflito persistir. A neblina fica mais densa, cada vez com menos pontos de visibilidade que permitam enxergar uma saída próxima.

O petróleo é nosso (até deixar de ser)

A primeira onda do choque já chegou ao Brasil. No dia 14/3, a Petrobras reajustou o diesel em R$ 0,38 por litro. A estatal se apressou em defender a decisão. Atuação “equilibrada”, último aumento em fevereiro de 2025, queda real acumulada de quase 30% desde 2022. Muita justificativa para um gesto que obedece aos quesitos de sempre: paridade, margem, acionista. Uma nova roupa colorida para o velho figurino de caixa. A Petrobras, estatal de nome, segue operando com mão de mercado. E não é de hoje.

O escudo veio de outro endereço. O governo zerou PIS e COFINS sobre o diesel e criou subvenção de R$ 0,32 por litro, mirando um barateamento de R$ 0,64 na bomba, acima do reajuste da própria estatal. A Polícia Federal abriu inquérito para investigar preços abusivos. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, chamou de medida temporária, coisa de “estado de guerra”. Enquanto a Petrobras repassava o tremor, o Planalto tentava amortecer a vibração. Um detalhe que diz muito sobre quem propaga o choque e quem tenta absorvê-lo.

A segunda onda é política e tem memória. Quem viveu maio de 2018 sabe o estrago que o diesel provoca quando ultrapassa certo limiar. Prateleiras esvaziaram, postos secaram, hospitais racionaram oxigênio, tudo porque o combustível ficou caro demais para quem move o país sobre rodas. O fantasma voltou a rondar. A Associação Nacional do Transporte Autônomos sinalizou apoio a paralisações e avisou que o fechamento de rodovias será inevitável se o movimento avançar. A principal confederação do setor ensaiou posição contrária à greve, recuou horas depois e ficou em cima do muro.

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Caminhoneiros ameaçam repetir a greve de 2018 (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Lula delegou a Guilherme Boulos, secretário-geral da Presidência, a negociação com a categoria. No governo, há quem leia a mobilização como pauta legítima e quem enxergue oportunismo, lideranças caminhoneiras com afinidade bolsonarista tentando fabricar crise em ano eleitoral. Provavelmente, é tudo em todo lugar ao mesmo tempo.

A fome tem logística

A terceira onda é a mais lenta e a mais difícil de conter, porque atinge o que sustenta a vida das pessoas. O Estreito de Ormuz não transporta apenas petróleo. Por ali passa um terço dos fertilizantes do mundo, e, sem fertilizante, a colheita pode minguar, caso os conflitos persistam. Isso pode encarecer alimentos e empurrar a fome adiante. O Programa Mundial de Alimentos da ONU alertou para o risco de agravamento da fome global. Dubai, polo logístico de medicamentos para metade do planeta, foi atingida pelos ataques iranianos. A cadeia de escassez lembra os gargalos da pandemia, só que, desta vez, o vírus é geopolítico e a vacina não existe.

A inflação brasileira vinha dando sinais de trégua. Havia espaço para discutir corte nos juros. Esse horizonte ficou mais distante e aqui mora uma das distorções mais persistentes da política econômica. Um único remédio para inflação é conhecido, os juros altos. A receita de um mesmo antibiótico para qualquer febre, seja ela causada por excesso de demanda ou por ruptura de oferta.

O choque do petróleo é, por definição, um problema de oferta. O produto ficou mais escasso não porque o brasileiro esteja consumindo demais, mas porque uma guerra fechou a torneira do mundo. Subir juros não reabre o Estreito de Ormuz, não faz o fertilizante chegar mais rápido, não barateia o frete. Apenas encarece o crédito, freia o investimento e trava o emprego. O diagnóstico é preguiçoso, mas a conta chega. E, o mais perverso, o país não tem nenhuma responsabilidade sobre a guerra, nenhum assento na mesa onde as decisões são tomadas e nenhum poder para interromper o conflito. Apenas herda a conta, que, como todo aumento de preços, recai sobre os ombros governamentais, ainda que não seja essa a origem.

Terremotos têm uma característica traiçoeira. As réplicas costumam durar mais do que o abalo inicial. Decisões movidas por cálculo eleitoral e vaidade geopolítica redistribuem custos com brutalidade silenciosa. O diesel é o fio invisível que costura a economia de ponta a ponta, da refinaria ao caminhão, do caminhão à prateleira, da prateleira ao bolso de quem faz feira.

No final das contas, a guerra de Trump não é só contra o Irã.

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