Poucas questões mobilizam tanto o imaginário israelense-judaico-sionista como a memória do Holocausto. Se o sionismo se constitui a partir da justificativa de oferecer abrigo, guarida e proteção aos judeus europeus contra perseguições e antissemitismo no continente, o Holocausto e a memória da Shoá são utilizados como paradigma da frágil e arriscada vida judaica na diáspora e como justificativa para a existência e defesa do Estado de Israel.
É como se os seis milhões de judeus mortos na Europa dos anos 1940 estivessem sempre no retrovisor da política sionista. Quase nada é feito sem que a Shoá seja mobilizada ou levada em conta.
O Holocausto como futuro possível
Aqui é importante notar que o Holocausto não é visto somente como um passado a ser lembrado, mas fundamentalmente como um futuro possível. Nesse contexto, o horizonte imaginado de um novo genocídio contra os judeus acaba por justificar práticas políticas cotidianas: expansão territorial, percepção de adversários como nazistas e mesmo políticas de violência e racismo no interior do Estado de Israel.
A partir de 2023, essa narrativa justifica até mesmo práticas genocidárias do Estado de Israel contra palestinos de Gaza. Se o Holocausto é mobilizado para organizar a vida judaica-sionista em Israel, pode-se imaginar que poucas coisas não são justificáveis para, supostamente, evitar-se uma próxima Shoá.
Exército, ocupação de territórios, repressão de palestinos, percepção geopolítica – tudo é perpassado pela memória do Holocausto, de um lado, e pela perspectiva de um novo genocídio judaico de outro. Assim é a realidade da política neossionista do Estado de Israel: a existência cotidiana estaria espremida entre a memória da Shoá e a perspectiva de outro Holocausto, sempre à espreita.
A manipulação estratégica da memória
A mobilização da Shoá como elemento central da cultura política sionista também justifica a manipulação de sua memória. Se a agenda dos direitos humanos impede violência contra palestinos, a memória do Holocausto a justificaria. Expansão territorial em territórios ocupados, políticas de apartheid e discriminação, invasão de territórios e países vizinhos (como o que vem acontecendo no Líbano), declaração de novas guerras contra países da região – quase tudo está sob o signo da manipulação da memória do Holocausto.
Afinal, quem se oporia a evitar uma nova Shoá, quando o Holocausto está tão vivo no retrovisor?
É difícil entender a política contemporânea de Israel sem colocar a memória da Shoá nesse contexto. Não somente a política interna do Estado, mas também a geopolítica israelense e os vínculos com seus aliados estabelecem-se sob a manipulação dessa memória.
A gramática do genocídio na leitura de mundo
Nessa dinâmica, onde o genocídio dos judeus se transforma em gramática de leitura de mundo, países que ameaçam a hegemonia israelense viram nazistas, palestinos que exigem seus direitos históricos se transformam em ameaça existencial, e qualquer grupo que apoia agendas contrárias ao domínio de Israel se transforma em colaboracionista – visto como apoiador do nazismo e, consequentemente, antissemita.

Netanyahu e a instrumentalização da Shoá
Esse processo acompanha o Estado de Israel desde sua fundação e se agudiza nos anos 1960. Entretanto, poucos políticos foram tão certeiros e insistentes na mobilização e manipulação da memória da Shoá como Benjamin Netanyahu, atual e mais longevo primeiro-ministro da história de Israel.
Um dos pontos centrais de seu uso tem relação com o Irã. Nas várias vezes em que falou na Assembleia Geral das Nações Unidas, nas bem-sucedidas tentativas de implodir acordos e nos discursos que justificavam ataques e invasões, invariavelmente, Netanyahu acionava a ideia de que o Irã é a reencarnação da Alemanha nazista e de que apenas a derrubada de seu regime garantiria a sobrevivência do Estado de Israel e, consequentemente, do povo judeu.
Nesse contexto, defender acordos com a República Islâmica do Irã seria, para o primeiro-ministro de Israel, defender acordos com o próprio nazismo. Assim, países que apoiassem uma solução para a crise entre Israel e a República Islâmica seriam percebidos como colaboracionistas dos “novos nazistas”.
Os acordos construídos entre 2008 e 2011, patrocinados e defendidos pela diplomacia do primeiro governo Lula, foram implodidos por Netanyahu e Donald Trump (em seu primeiro mandato) com essa justificativa: apoiar uma solução pacífica para a crise do programa nuclear iraniano seria apoiar um acordo com os novos nazistas.
A colonização da memória como estratégia geopolítica
O que defendo neste artigo é que há um processo de colonização da memória de Israel pela memória da Shoá, estabelecendo uma perspectiva geopolítica baseada na manipulação da memória do Holocausto.
Netanyahu investe esforços políticos numa arquitetura onde o ataque ao Irã, a destruição de seu regime e o domínio de seu território sejam elementos fundamentais para sua sobrevivência política. Hoje, com sua carreira política em risco, a possibilidade de prisão e o isolamento internacional, Netanyahu transforma a estratégia de memória em tática e justifica a invasão e a guerra ao país persa.
O contexto atual: entre o 7 de Outubro e Trump
Seu projeto se fortalece a partir de dois contextos distintos e complementares: o ataque do Hamas ao território israelense e o segundo mandato do presidente Trump.
A invasão ao território israelense, em 7 de outubro de 2023 (que não contou com participação do Irã), produziu usos explícitos da memória do Holocausto e elevou a percepção de que a concepção de Netanyahu em relação ao Hamas e à questão palestina havia sido derrotada.
Humilhado e desesperado, o primeiro-ministro desencava a questão iraniana e a transforma em tábua de salvação de seu governo e de sua própria sobrevivência política. Contando com o apoio de Trump em um segundo mandato mais ideológico e errático, Netanyahu retoma a narrativa da ameaça do extermínio em busca de apoio e justificativa para a guerra.
Em uma sofisticada arquitetura da memória, Netanyahu convence Trump a se jogar em uma aventura bélica sem estratégias ou agendas viáveis e claras. Para além de interesses políticos e econômicos, a guerra do Irã estabelece a vitória de uma geopolítica manipulada pela memória do Holocausto.