Negacionismo: crime contra a saúde pública

Precisamos discutir os limites que a sociedade está disposta a estabelecer para proteger a vida de todos
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No dia 29/7, em Washington, o Dr. Anthony Fauci, figura central na gestão da pandemia de covid-19 nos Estados Unidos, ao depor diante do Comitê de Segurança Interna do Senado, em vários momentos invocou a Quinta Emenda da Constituição americana, exercendo seu direito de permanecer em silêncio.

Em poucas horas, o silêncio estratégico de um cientista foi transformado por influenciadores e parlamentares brasileiros em prova de que as vacinas seriam inseguras ou ineficazes.

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou um vídeo em suas redes sociais afirmando que “nunca foi pela ciência”, usando o silêncio de Fauci como argumento de que as vacinas contra a covid-19 seriam ineficazes ou inseguras, que a hidroxicloroquina e a ivermectina teriam sido injustamente demonizadas e que toda a resposta à pandemia teria sido uma fraude.

O vídeo foi endossado por Eduardo Bolsonaro, pelo senador Magno Malta (PL-ES) e por Flávio Bolsonaro. Em seguida, a base bolsonarista reviveu alegações já refutadas por inúmeros estudos científicos sobre a eficácia e a segurança das vacinas e também sobre o uso de medicamentos sem evidência comprovada.

Agências de checagem, especialistas e instituições de saúde contestaram prontamente o conteúdo dessas publicações, apontando a ausência de sustentação científica.

A base material para essa discussão é dolorosa e irrefutável. O Brasil encerrou o ciclo mais crítico da pandemia com a marca oficial de 711 mil mortes por covid-19, número sabidamente subnotificado. No auge da pandemia, o país viveu um colapso humanitário sem precedentes, chegando a registrar mais de 30% das mortes em todo o mundo, apesar de possuir menos de 3% da população global, uma cifra que não se explica por variáveis epidemiológicas, mas por decisões políticas deliberadas de um governo que promoveu tratamentos ineficazes e usou a máquina estatal para disseminar desinformação.

Notícias falsas aumentam as mortes

A história das epidemias nos ensina que o medo é um componente frequente das crises sanitárias. Da Peste Negra à gripe espanhola, a humanidade sempre buscou culpados e curas milagrosas. No entanto, o que mudou o curso da história foi a ciência. A varíola, que vitimou centenas de milhões de pessoas, foi erradicada em 1980 graças a um esforço global de vacinação. A poliomielite, que afetava milhares de crianças, tornou-se uma lembrança distante no Brasil após a criação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 1973.

Dados recentes da OMS e do Unicef são contundentes ao mostrar que a imunização salvou pelo menos 154 milhões de vidas nos últimos 50 anos. Desse total, cerca de 94 milhões de mortes foram evitadas apenas pela vacina contra o sarampo. Estima-se que o PNI tenha evitado milhões de mortes e casos de incapacidade ao longo de suas cinco décadas de existência. Apenas a erradicação da poliomielite poupou o Brasil de uma carga anual de milhares de casos de paralisia infantil.

O perigo de líderes políticos adotarem o negacionismo como política de Estado possui precedentes históricos dramáticos. Na África do Sul, o ex-presidente Thabo Mbeki negou sistematicamente a relação causal entre o vírus HIV e a Aids, classificando a doença como uma consequência da pobreza e da má nutrição. Um estudo da Universidade de Harvard estimou que essa postura foi responsável por mais de 330 mil mortes evitáveis e pelo nascimento de 35 mil crianças com HIV, que poderiam ter sido protegidas.

Nos últimos anos a desinformação em saúde tornou-se uma ameaça direta à manutenção de altas taxas de cobertura vacinal e à segurança sanitária do Brasil. Uma revisão sistemática, publicada em julho de 2026, na Frontiers in Public Health demonstrou que a hesitação vacinal, alimentada por mitos como a falsa associação entre vacinas e autismo, é diretamente impulsionada pela desinformação nas redes sociais. Estudo da revista Vaccine (2025) já havia identificado que a propagação de notícias falsas é a principal razão citada pelos pais para a não vacinação de seus filhos.

Diante desse cenário, o negacionismo e seus impactos na saúde devem ser tratados como uma questão política de alta prioridade. Quando influenciadores, profissionais de saúde e políticos com grande alcance midiático, deliberadamente, distorcem evidências consolidadas, desacreditam vacinas, promovem tratamentos sem eficácia e estimulam comportamentos que colocam a segurança pessoal e coletiva em risco, a sociedade deve debater se estamos diante de uma forma de ataque à saúde pública, que deva ser enquadrada como crime.

É fundamental distinguir a dúvida legítima do negacionismo. O ceticismo e a pergunta crítica são o motor da ciência e da própria democracia. O negacionismo, por outro lado, é a rejeição sistemática de evidências consolidadas, a escolha deliberada de estudos isolados para sustentar teses refutadas e o uso de falsos especialistas para explorar o medo e a desconfiança. Aqui, a dúvida não é um caminho para o conhecimento, mas um método de erosão da confiança institucional para atingir objetivos políticos ou econômicos.

Temporão Anthony Fauci foto reuters folhapress
Silêncio de Anthony Fauci no Senado dos EUA foi usado para desmoralizar vacinas (Foto: Reuters/Folhapress)

Responsabilidade das plataformas digitais

A regulação das plataformas digitais, embora urgente, é evitada sob o pretexto da defesa da liberdade de expressão, ignorando que a infodemia produz morbimortalidade real e mensurável. A ausência de propostas objetivas para a responsabilização das plataformas por conteúdos que atentem contra a saúde pública cria um vácuo perigoso.

O negacionismo científico continua a operar sem um contraponto estatal estruturado e sem base legal que proteja a sociedade, o que deixa o SUS vulnerável a crises de confiança, que comprometem a eficácia de campanhas de prevenção e o enfrentamento de futuras emergências em saúde pública.

Defendemos a criação de um marco legal específico ou o aperfeiçoamento da legislação atual, que alcance as práticas organizadas de negacionismo que produzam risco concreto ou dano coletivo à saúde. Esta tese não defende a punição automática de toda e qualquer opinião divergente ou a dúvida do cidadão comum. O objeto aqui deve ser a postura de quem, em posição de influência ou poder, transforma a dúvida num instrumento de sabotagem sanitária deliberada.

Atualmente, as autoridades tentam enquadrar tais condutas em tipos penais genéricos, que nem sempre captam a gravidade da desinformação em massa na era digital. Esta lacuna deve ser debatida pelo Congresso Nacional e pela sociedade, especialmente diante do poder de alcance das plataformas digitais e da capacidade de agentes políticos influenciarem o comportamento de milhões de pessoas simultaneamente.

A liberdade de expressão é indispensável, mas não é um direito absoluto, que autoriza a colocação da segurança da população em perigo. Quando a comunicação se torna fraude, publicidade enganosa ou incitação a condutas perigosas, ela ultrapassa a fronteira da liberdade de opinião e ingressa no campo da ação lesiva à sociedade.

Discutir o negacionismo como crime contra a saúde pública é discutir quais limites uma sociedade está disposta a estabelecer para proteger a saúde de todos e é uma agenda democrática necessária para proteger a integridade do tecido social. Nesse contexto, a criminalização, apresenta-se como um limite civilizatório, onde haja o reconhecimento de que a produção e disseminação deliberadas de fake news, quando resulta em doença e morte evitáveis, é uma agressão intolerável à vida em sociedade.

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