O alicerce na luta da classe trabalhadora

Mulheres assumem papel central em primeiro ato de campanha; mas, no acerto de contas com a história, elas sempre estiveram lá
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Caro leitor,

Não costumo escrever textos em primeira pessoa, porque a prioridade aqui é a notícia e não quem escreve ou conta a história. Mas vou abrir uma exceção desta vez. Quero compartilhar uma novidade: a partir de agora, conto com a generosidade da sua companhia (e da sua leitura!) semanalmente na revista Liberta. Passo a fazer parte do time de colunistas fixos.

Vai ser um encontro um pouco diferente daquele que a gente tem todos os dias no noticiário do ICL Notícias: sem a urgência diária e com mais tempo para a digestão. Espero que seja também um espaço de troca por aqui.

Boa leitura.

Antes do primeiro ato de campanha de Lula, no último domingo (16/8), fui junto com a equipe do ICL Notícias até o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Por volta das 7h, encontrei a vanguarda dos trabalhadores que estiveram ao lado do presidente em 1979, ouvindo o famoso discurso de mobilização de greve na Vila Euclides, em plena ditadura militar. Naquele momento, surgia a figura de Lula como líder sindical, que falava para milhares. Não tinha microfone. Os primeiros da fila repassaram a mensagem adiante, como num jogral.

Quase cinquenta anos depois, no reencontro dentro dos muros do Sindicato, entre um café e outro, eles partilhavam lembranças. A nossa colega Heloisa Villela foi quem descobriu que eles fariam uma espécie de concentração, e que seguiram juntos dali em ônibus rumo ao Primeiro de Maio.

João Paulo Cavalcante, um dos metalúrgicos que trabalharam ao lado de Lula, resumiu o sentimento. “Não é defender uma pessoa. Lula é uma história. É defender o que ele representa”, disse. Mas quem me chamou atenção foi o filho de uma das lideranças que estavam ali. Enquanto os veteranos se acomodavam nas vans, comentou, com a franqueza de quem pertence a outra geração: “Mas eram todos machistas, né?”.

Luiz Inácio Lula da Silva discursando para multidão no estádio de Vila Euclides em 1979.
Discurso de Lula no estádio de Vila Euclides, em 1979 (Foto: Folhapress)

A pergunta pode até parecer deslocada naquele cenário de tanta história e memória construída coletivamente. Mas não era. Dali, surgiu uma conversa sobre as mulheres dos grevistas. Ele contou que o Frei Betto, que fazia parte da Pastoral Operária e se tornou amigo pessoal de Lula, foi quem teve a sacada de alertar os companheiros que deveriam envolver as mulheres no assunto – porque eram elas que estavam segurando a barra em casa enquanto eles ocupavam a porta das fábricas.

Essa percepção do Frei Betto, há mais de 40 anos, pareceu se consolidar nas cenas que vimos na sequência, na Vila Euclides. Se, em 1979, as mulheres eram o alicerce nos bastidores, garantindo que a greve resistisse enquanto cuidavam da casa e dos filhos, elas agora ocupam o centro do palanque. Vozes femininas que reivindicam, há décadas, não apenas o apoio, mas o protagonismo de um projeto de país.

No centro do palanque

A deputada federal Benedita da Silva, candidata ao Senado pelo PT do Rio de Janeiro, recebeu destaque entre as mulheres. Desfilou no palco do meio, altiva, e foi a primeira a falar para a multidão da Vila Euclides. Falou em governar “com as mulheres” e “para as mulheres”. Sua presença carregava também outra dimensão: a de uma mulher negra e trabalhadora ocupando o centro da liderança do partido.

Antes dela, na concentração do evento, falaram as ministras Marina Silva e Simone Tebet, candidatas ao Senado em São Paulo. O discurso de Tebet se destacou, apesar de ter ocupado pouco espaço nas manchetes.

Na concentração, a ministra – que, ao reforçar o pedido de votos, sempre fala na dobradinha com a composição de chapa, Marina, num chamado para a “eleição de duas mulheres” – foi incisiva ao afirmar que a defesa das cores verde e amarela pertence ao campo progressista, chamando de “traidores da pátria” aqueles que desfilam com bandeiras estrangeiras.

Ao conectar soberania nacional e representatividade de gênero, Tebet sustentou que o projeto democrático só se completa quando as mulheres dividem o comando das decisões que afetam a família brasileira.

Mas é inegável que a primeira-dama, que tem sido vocal na cobrança por ações no combate ao feminicídio, concentrou o momento de maior carga emocional. Em um gesto que surpreendeu a multidão, ela resgatou a memória de dona Marisa Letícia a partir da luta coletiva das mulheres.

“Dona Marisa, que, junto a outras tantas mulheres, não estava no chão da fábrica em 1979, que não era líder sindical. Naquele momento, [elas] tiveram um papel essencial nos bastidores. Eram o alicerce para que seus maridos, sob a liderança desse homem, que virou presidente, pudessem lutar por melhores salários e mais dignidade para suas famílias. Essas mulheres, lideradas por dona Marisa, foram uma força importante e são pouco lembradas. Sem a presença delas, presidente, talvez essa história toda tivesse sido diferente”, disse. “Foi a dona Marisa quem bordou a primeira bandeira do PT, e a ela dedico toda minha admiração”.

Fator decisivo nas urnas

Dados do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) mostram o crescimento gradual da presença das mulheres na indústria metalúrgica do ABC, setor predominantemente masculino. Hoje, são 12,9 mil trabalhadoras na base da categoria, 17,2% do total – um avanço em relação a 2006, quando representavam 12,7%.

Mas elas sempre estiveram lá. Janja unificou gerações de mulheres que, nos bastidores ou não, construíram o movimento sindical. Em seu discurso, ela ressaltou que ser uma “Silva”, como ela e outros mais de 34 milhões de brasileiros o são, é carregar a identidade de milhões de chefes de família que seguram as pontas em casa.

Janja discursando em ato de campanha política diante de apoiadores.
Janja no ato de lançamento da campanha de Lula à reeleição (Foto: Reprodução/YouTube)

Apesar disso, a primeira-dama deixou claro que rejeita a visão da mulher apenas como “quem cuida” (ao contrário de uma fala recente de Flávio Bolsonaro sobre as próprias filhas), e cobrou por um Estado que cuide delas. Falou em escolas de tempo integral e proteção contra a violência. Tudo conecta o legado trabalhista de Lula às urgências da vida das brasileiras hoje.

A redução da jornada de trabalho e a luta por dignidade são a continuidade daquela resistência, mas com uma diferença fundamental: as mulheres não estão mais apenas em casa esperando os maridos voltarem do piquete; elas estão no microfone, no palanque e nas urnas, definindo o que o Brasil quer ser.

Como bem lembrou a primeira-dama, as mulheres são 52% do eleitorado. Serão elas – ou melhor, nós – o motor decisivo dessa caminhada. De novo.

E se tudo começou num ambiente onde o machismo era a regra, a pergunta daquele rapaz, quase cinquenta anos depois, talvez seja parte importante da resposta. As mulheres estavam lá. Depois de décadas sustentando a luta, queremos também ocupar os espaços onde se decide o nosso futuro.

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