O paradoxo das servas voluntárias

As antifeministas e a performática arte de lutar pelo direito de não ter direitos

Diz a lenda que Epimênides, um filósofo cretense do século VI a.C., proferiu uma frase que atormentaria os lógicos pelos milênios seguintes: “Todos os cretenses são mentirosos”. Se a afirmação fosse verdadeira, Epimênides, sendo cretense, estaria mentindo, o que tornaria a frase falsa. Se fosse falsa, significaria que os cretenses dizem a verdade, tornando a frase verdadeira. A filosofia grega nos deu esse nó na cabeça. Mas a política brasileira contemporânea nos deu a sua versão prática, barulhenta e infinitamente mais irônica: a mulher antifeminista que usa palcos, mandatos, salários partidários e o direito ao voto para pregar que as mulheres não deveriam ter espaço na vida pública.

Trata-se da autocontradição performativa em seu estado de pureza. É a ação de um sujeito cujo próprio ato de falar destrói o conteúdo do que está sendo dito. Quando uma mulher sobe num palanque sob a garantia constitucional de sua liberdade de expressão, eleita pelo sufrágio universal e clama que “o feminismo destruiu a essência feminina” e que “o homem deve ser a única liderança”, ela está cometendo um suicídio lógico em praça pública. Ela exige, com todas as forças dos seus pulmões empoderados pela democracia, o sagrado direito de não ter direitos.

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