A cada ciclo eleitoral, aumenta a polêmica em torno das pesquisas. Elas divergem entre si, oscilam sem causa aparente e, não raro, descrevem mal o que a urna revela dias depois. Mas o problema não se restringe à intenção de voto: aprovação de governo, avaliação de políticas públicas, percepção sobre a economia e até a credibilidade atribuída a uma notícia aparecem hoje filtradas pela polarização, medindo menos o que as pessoas pensam do que o lado em que estão. A reação habitual é técnica. Reclama-se do tamanho e do desenho da amostra, da margem de erro, do método de coleta – telefone, painel on-line, entrevista presencial –, dos critérios de ponderação e das taxas de recusa, que não param de crescer.
Minha hipótese é outra: o problema não está no instrumento, mas no objeto. As pesquisas de opinião foram desenhadas para um mundo em que as preferências se formavam em meios efetivamente compartilhados: televisão aberta, rádio, jornais de circulação nacional. Nesse contexto, era razoável supor que uma amostra probabilística captasse os vetores dominantes da opinião pública. Esse mundo acabou junto com o chamado “eleitor médio” e com o caráter propriamente público da opinião, se é que algum dia eles existiram.
Blocos antagônicos
A polarização que atravessa a política brasileira não é apenas intensidade de preferências; é um fenômeno epistêmico. Populações cada vez mais segmentadas constroem suas percepções sobre economia, gasto social, segurança e representação a partir de fluxos comunicacionais nichados e, frequentemente, incompatíveis entre si. E os formadores de opinião se fragmentaram e se horizontalizaram: já não estão concentrados na academia e na imprensa tradicional, mas dispersos numa miríade de influenciadores, que vai de especialistas duvidosos a figuras cujo diferencial é justamente apresentar-se como gente comum. A autoridade epistêmica deixa de derivar de uma fonte externa – diploma, cargo, reconhecimento entre pares – e passa a derivar da semelhança com a audiência e da capacidade de retroalimentar suas preferências. Cada polo passa a ter, assim, quem credencie um fato, quem defina o que é escândalo, quem estabeleça o que conta como evidência.
Nesse ambiente, posições políticas deixam de responder apenas a interesses materiais ou a avaliações programáticas e passam a ser filtradas por enquadramentos particularistas e gatilhos afetivos, cada vez mais autônomos em relação às condições objetivas. Daí a dissonância que tanto intriga os analistas: eleitores que avaliam mal a própria situação econômica e bem o governo que a produziu, ou o inverso. Não é irracionalidade: a preferência não antecede a identificação – é, em boa medida, produzida por ela.
Minhas pesquisas sobre discurso político mostram que essas posições não circulam isoladas: organizam-se em cadeias de equivalência, nas quais segurança, moralidade, gênero, raça e economia se articulam num único bloco antagônico, sustentado menos por conteúdo programático comum do que pela identificação de um inimigo compartilhado. O survey faz o movimento contrário: fragmenta em itens independentes – “issues”, no jargão da ciência política –, o que funciona politicamente como totalidade articulada, e depois se surpreende com a inconsistência das respostas.
Quando perguntar vira ato de pertencimento, responder também. A resposta ao entrevistador torna-se expressiva – sinaliza lealdade, não a expressão de uma preferência –, e tanto a recusa quanto a deformação proposital da resposta deixam de ser aleatórias: responde-se o que se acredita ser favorável ao próprio líder ou campo político. Esse cenário encolhe o espaço para preferências plurais, não galvanizadas por nenhum dos polos. Aquilo que escapa à gramática polarizada vira ruído estatístico e desaparece duas vezes: da medição e da agenda pública, porque o que não é medido não é disputado.
A saída que venho perseguindo, e que estrutura a agenda do meu laboratório, o LAPPCOM, não é aperfeiçoar a pergunta, mas deslocar o núcleo informacional da análise eleitoral: conjugar a atenção ao que as pessoas declaram com a ênfase naquilo que eleitores e representantes efetivamente “fazem”. Comportamento observado ao lado da preferência declarada. E aqui o Brasil oferece uma oportunidade rara: temos acesso acurado e granular aos dados eleitorais – votos por seção e gastos de campanha – e, agora, a expansão das emendas parlamentares, ainda que estas permaneçam pouco acessíveis.
A impositividade das emendas, consolidada a partir de 2015, e a criação do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), em 2017, deslocaram o eixo de coordenação política do Executivo para o Legislativo e converteram a alocação territorial de recursos públicos em dimensão estruturante da competição eleitoral. Segundo os relatórios da Central das Emendas, elas saltaram de cerca de R$ 2 bilhões, em 2013, para cerca de R$ 60 bilhões em 2025 – parcela expressiva das discricionárias federais. O FEFC, inexistente antes de 2018, tornou-se a principal fonte de financiamento das campanhas legislativas. Dinheiro público distribuído por decisão de mandatários virou o mecanismo central de vinculação entre representante e eleitor.
É isso que chamo de territorialização dos recursos políticos, e é o que a plataforma CARTPOL, desenvolvida pelo LAPPCOM com a COPPE/UFRJ, procura tornar legível: cruzar, em escala submunicipal, o voto por seção, a alocação de emendas, os gastos de campanha e os indicadores socioeconômicos de cada localidade.
Desenvolvemos indicadores que decompõem essa relação em duas direções. Um mede a relevância da unidade espacial para o candidato (R_UESP_CAN): que fração de sua votação vem dali, isto é, quanto seu resultado eleitoral “depende” daquele lugar. O outro mede a relevância do candidato para a unidade espacial (R_CAN_UESP): que fatia dos votos locais ele detém, isto é, quanto ele “domina” aquele território. Somado entre os concorrentes, esse segundo indicador mede também a competitividade do espaço: onde ninguém atinge valores altos, o eleitorado é fragmentado e a disputa, aberta; onde um se destaca muito, ela é menos acirrada.
Um terceiro indicador pondera o peso da unidade menor – bairro ou município – na maior, estado ou país: concentração em território irrelevante não é enraizamento. As combinações é que interessam: dependência sem domínio indica reduto disputado; domínio sem dependência, presença capilar; ambos altos, enraizamento consolidado. Cruzadas com as emendas, permitem perguntar se o dinheiro vai para onde o mandatário depende, para onde domina ou para onde pretende crescer. Nas seis regiões do estado do Rio analisadas pelo LAPPCOM, esse desenho descreve coalizões, capilaridade partidária e enraizamento que nenhuma pergunta de survey alcança.

Dimensão ideológica
O passo seguinte é incorporar essas variáveis a modelos explicativos e preditivos – e aqui é preciso ser honesta: esse modelo ainda não existe. É agenda, e agenda condicionada ao acesso aos dados de emendas. O desenho que projetamos combina modelos regularizados, capazes de lidar com muitos candidatos e muitos preditores; inferência probabilística e lógica fuzzy, para tratar a heterogeneidade entre territórios; e modelagem baseada em agentes, validada pela reprodução de eleições passadas. A ambição é prever distribuição de votos, e não apenas vencedores, aliviando – sem eliminar – a dependência do que é declarado.
A vantagem é direta: esses dados não passam pelo filtro do nicho. Uma emenda executada é um ato, não uma opinião; o voto agregado por seção é comportamento, não autorrelato. Nenhum dos dois exige que o eleitor se exponha a um entrevistador nem que tenha, no momento da pergunta, uma resposta coerente. Há ainda uma afinidade entre método e objeto que merece ser dita. Na política local, o pragmatismo de eleitores e de atores políticos costuma sobrepor-se à dimensão ideológica: decide-se por obra, por serviço, por acesso ao mandato, por relação pessoal. É justamente essa dimensão que o analista – ele próprio, com frequência, bastante ideologizado – tende a subestimar, na mesma medida em que superestima o peso da ideologia. Observar a alocação territorial de recursos é uma forma de devolver ao pragmatismo o lugar que ele de fato ocupa.
Nada disso substitui os surveys, nem poderia. E não apenas porque dados observados não explicam porque alguém votou, com que intensidade ou o que faria noutro cenário.
De todo modo, pesquisa de opinião não serve apenas para eleição. Precisamos saber o que as pessoas pensam sobre as coisas, o que preferem, o que demandam – e, sobretudo, se a oferta política, discursiva e alocativa corresponde a essas demandas. Sem isso, a representação vira um circuito fechado entre elites e territórios, sem nenhuma instância em que a demanda se enuncie. O ponto não é abandonar o instrumento, mas cercá-lo de evidências que não dependam dele.
E aqui chegamos ao que me parece o argumento central. A qualidade dos dados públicos brasileiros é profundamente assimétrica. Sobre votação e financiamento de campanha, o TSE oferece microdados acurados, granulares e comparáveis no tempo – patrimônio que poucos países possuem. Sobre emendas parlamentares, não. Transferências com finalidade genérica, as chamadas emendas Pix, são muito menos rastreáveis do que convênios; e a exigência de planos de trabalho prévios, imposta pelo Supremo e estendida aos entes subnacionais, só produzirá transparência se esses planos forem padronizados, agregados e fáceis de compreender. Hoje não são. É por isso que a transparência formal deixa de produzir inteligibilidade – e, sem inteligibilidade, não há controle cidadão sobre o mandato nem avaliação dos efeitos distributivos das decisões de nossos representantes.