Neoliberalismo em modo turbo

Com apoio de Trump e FMI, reforma trabalhista de Milei bate recorde de retrocessos
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No início de 2020, poucos dias após ter deixado a presidência da Argentina (2015-2019), Mauricio Macri foi perguntado se tinha algum arrependimento a respeito da sua gestão. Ele não hesitou um segundo. “Se pudesse voltar atrás, teria feito as coisas que precisava fazer de forma mais célere, especialmente as reformas”, disse.

Javier Milei e seu entorno – ao qual se juntou o próprio Macri, no segundo turno da eleição de 2023 – devem ter aprendido a lição. Com apenas dez dias no cargo, o novo presidente enviou ao Congresso um decreto nacional de urgência (DNU 70/2023), com 366 artigos, os quais revogavam ou alteravam leis em praticamente todas as áreas do Estado e da vida social.

Uma semana depois, antes mesmo de deputados e senadores se debruçarem sobre o DNU, Milei enviou um novo pacotão com mais alterações legislativas profundas, a chamada “Lei Ônibus”, um calhamaço com 664 artigos em 351 páginas.

Esse primeiro mês mostrou a pronta disposição para a guerra que Milei sempre alardeava como inevitável: uma disputa entre as suas “forças do céu” e a “casta parasitária” da política argentina.

Por um lado, essas medidas praticamente enfiavam uma nova Constituição goela abaixo do Parlamento e da sociedade. Por outro, anulavam de saída a capacidade da oposição de pautar o debate, mesmo com leve maioria tanto na Câmara quanto no Senado. Sem dúvida, uma estratégia resultante das experiências anteriores em que a direita esteve no comando da Casa Rosada (o que ocorreu em 26 dos últimos 50 anos, diga-se de passagem).

Após um primeiro ano muito difícil e conturbado, econômica e politicamente, Milei ganhou o presente que foi a eleição de Donald Trump. A ajuda do republicano foi decisiva para que a gestão do “libertário” se recuperasse em 2025.

Não à toa, vários nomes de peso da oposição dizem que o verdadeiro comando da Argentina atual se encontra nos Estados Unidos: na Casa Branca e no JP Morgan, companhia pela qual passaram o ministro da Economia (Luis Caputo) e seu adjunto (José Luis Daza), além do presidente do Banco Central (Santiago Bausili) e seu vice (Vladimir Herning).

Bicicleta financeira com respaldo do mercado

As vitórias nas eleições legislativas do segundo semestre de 2025 tiveram um duplo efeito. Primeiro, garantiram o respaldo do mercado para a continuidade da política econômica centrada na “bicicleta financeira”. Junto a isso, trouxeram alívio e confiança renovada para a cúpula do governo, que saiu empoderada para avançar com o experimento ultraneoliberal.

Os escândalos de corrupção envolvendo até a irmã do presidente e secretária-geral da presidência, Karina Milei; o golpe com a criptomoeda $Libra; a repressão às manifestações da sociedade e a perseguição a profissionais e veículos da imprensa; os cortes brutais no orçamento da educação e da saúde; a extinção ou a forte redução de programas para aposentados e pessoas com deficiência de baixa renda, como a oferta gratuita de tratamentos e remédios para doenças crônicas; sem falar nas diatribes chocantes do chefe de Estado… Nada disso foi capaz de frear o governo Milei, que obteve nas urnas as cadeiras necessárias para garantir o controle do Congresso.

A escancarada disposição de Trump – e, por tabela, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de todo o sistema financeiro global – para socorrer financeiramente a Argentina, é vital destacar, pavimentou o caminho para o triunfo eleitoral.

E aí chegamos à reforma trabalhista. O projeto ganhou manchetes no mundo inteiro, não exatamente pelo suposto caráter modernizante, mas pela quantidade de retrocessos que trouxe ao longo dos mais de 200 artigos.

O termo retrocesso não é mera retórica política. Para Roberto Pompa, jurista argentino e ex-juiz do Trabalho, a reforma de Milei “contraria o princípio da progressividade e da não regressividade, considerado pela Suprema Corte de Justiça um princípio arquitetônico do Direito”. O preceito, ressaltou Pompa, está consagrado tanto na Constituição Nacional quanto em tratados internacionais dos quais a Argentina é signatária, tais como a Convenção Interamericana de Direitos Humanos, o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos.

A decisão de votar ainda em fevereiro, com o Congresso em recesso e convocando sessões extraordinárias, foi assumida publicamente como parte da estratégia para arrefecer a resistência. Debate? Apenas uma sessão nas comissões da Câmara e do Senado. Audiência pública? Nenhuma. Macri sorri de inveja.

Sessão extraordinária do Congresso argentino vota reforma trabalhista do governo Milei, citada na matéria “Neoliberalismo em modo turbo”.
Votação da reforma durante recesso parlamentar em sessões extraordinárias (Foto: Luis Robayo/AFP)

Indenização por conta do empregado

Recuos? Um único: no artigo que determinava o corte de metade do salário durante afastamento por licença médica. Neste caso, o governo também confessou depois da aprovação na Câmara, que o item era uma isca para desviar a atenção do que considerava essencial: o fim do pagamento da indenização por demissão por parte da empresa.

As multas, agora, ficarão a cargo de um fundo e poderão ser pagas em até 12 parcelas. Aliás, o Fundo de Assistência Laboral (FAL) contará com aportes dos próprios trabalhadores. Sim, o empregado vai pagar uma parte da sua própria indenização.

Jornada de até 12 horas diárias, fim do pagamento de horas extras, “salário dinâmico” (com critérios de bonificação subjetivos e definidos pelos patrões) e forte restrição ao direito de greve são outras joias da reforma. Até agora, nenhum porta-voz ou parlamentar governista conseguiu apontar onde ela beneficia os trabalhadores.

Ah, e até 20% do salário poderá ser pago em alimentação e alojamento. Nas redes sociais, a piada corrente é que os apoiadores de Milei votaram nele esperando receber em dólar, mas acabarão sendo pagos em pacotes de macarrão.

Mas nem todos consideram esta nova legislação trabalhista o fim do mundo. Na era Milei, uma surpresa pior sempre está à espreita.

Um dos empresários mais militantes no apoio ao governo, Natalio Grinman, presidente da Câmara de Comércio, resume assim: “Alguns vão ficar pelo caminho, mas é o preço a pagar para se ter uma Argentina normal”. A definição do que seria “normal” fica por conta da imaginação de cada um.

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