Marco Zero da legalização das bets reuniu bicheiro do Rio e irmão de ministra do STJ

Waldir Maranhão, que substituía o cassado Eduardo Cunha na presidência da Câmara, acionou Rogério Andrade e irmão de Marluce Caldas para legalizar jogo durante a interinidade
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Na sexta-feira 13 de maio de 2016 o médico veterinário Waldir Maranhão (PP-MA) encerrou mais cedo o expediente na presidência da Câmara dos Deputados, entrou no carro oficial onde já o aguardava o ex-deputado João Caldas (DC-AL) e pegou a estrada para Goiânia. Ele havia assumido o cargo, interinamente, uma semana antes. Lá ficou por 69 dias. A capital de Goiás está a duas horas de viagem da sede do Congresso Nacional. O destino da dupla era a casa do bicheiro goiano Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, que cumpria naquele momento prisão domiciliar com tornozeleira eletrônica e restrição total de saída do período de seu condomínio.

Cachoeira não sabia da visita que receberia, mas Caldas (pai do candidato a governador de Alagoas JHC, ex-prefeito de Maceió), fiava-se na intimidade com o empresário goiano – nome histórico das bancas de Jogo do Bicho no Centro Oeste e dono de empresas químicas e incorporadoras – para levar o convidado ilustre à casa do amigo.

Rogério Andrade, bicheiro carioca que também cumpria sentença condenatória, aguardava a chegada dos parceiros de Brasília almoçando com Cachoeira. Ele sabia da agenda extemporânea, só não a havia revelado para o anfitrião. Andrade desfrutava do regime semiaberto, com uso de tornozeleira, e obteve autorização para visitar o colega em Goiás naquele dia exato, tendo de regressar ao Rio até as 19h.

João Caldas, atual presidente do partido Democracia Cristã que teve Aldo Rebelo como pré-candidato à presidência da República e depois tentou inventar para o mesmo posto a candidatura de Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, é irmão da atual ministra do Superior Tribunal de Justiça, Marluce Caldas.

Assim como foi o grande artífice do lobby pela indicação da ministra Marluce, o ex-deputado alagoano inaugurava naquele 13 de maio de 2016 um novo ciclo da corrente de pressão pela legalização no Brasil dos jogos de azar – incluindo as bets que àquela altura eram chamadas de “apostas esportivas” – ao circuito dos lobistas do Jogo do Bicho, das casas de bingo e dos cassinos.

“Vim aqui para dizer a vocês dois, que são do ramo: vamos legalizar o jogo. Qualquer tipo de jogo. Vamos aproveitar a minha interinidade para a provar isso. Fazemos rapidinho”, anunciou Waldir Maranhão aos dois bicheiros. Rogério Andrade topou a aposta – afinal, ajudou a montar o ardil para fazer com que Cachoeira aceitasse a empreitada. O goiano sempre foi considerado o mais influente naquele ramo de negócios. Surpreso com a visita e a ousadia da proposta, além de escaldado por fervuras passadas que havia vivido nos tempos da Ação Penal 470 e da CPMI dos Correios, Carlinhos Cachoeira brecou o trem do jogo que parecia ter saído de Brasília como uma bala.

“Vocês estão malucos? Somos dois sentenciados, deve ter gente nos monitorando de tudo quanto é jeito, isso não vai dar certo. Assim, não”, ponderou Cachoeira, recusando a proposta. Maranhão recolheu os flaps, recalculou a rota de volta ao Congresso e entabulou os caminhos do lobby pró-legalização das bets com o presidente de seu partido, Ciro Nogueira. Rapidamente o tema foi comprado pela base de Michel Temer, que ocupava a presidência da República depois da deposição de Dilma Rousseff. Temer aprovou a excrescência legislativa e iniciou a pandemia de endividamentos na sociedade brasileira.

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