Ao acabar a leitura da primeira encíclica do Papa Leão XIV, notamos, com surpresa, a introdução de um novo estilo de argumentação: não é mais aquele eclesiástico clássico, com muitas referências aos pensadores cristãos dos primeiros séculos. Mas um novo, contemporâneo, que dialoga com os vários saberes e autores, homens e mulheres, para além de sua origem confessional. Parece-nos estar lendo um texto de algum teólogo contemporâneo.
Antes de tudo, cabe sublinhar o tom geral esperançoso da encíclica ao abordar um tema tão controverso e espinhoso como o da Inteligência Artificial (IA). Mas é realista ao descrever a situação mundial de permanente beligerância: ”Não se trata de uma descrição sombria e pessimista, mas de uma denúncia necessária”(MH,210). Essa denúncia se torna cristalina quando se refere a “bombardeios contra civis, ataques a hospitais, a escolas ou a infraestruturas vitais, violências que afetam crianças…escândalos que ferem a própria humanidade”(MH, 216). É como se estivesse se reportando aos crimes do exército israelense na Faixa de Gaza. Assume o olhar das vítimas, “pois não é justo permanecermos neutros face aos conflitos” (MH, 216).