Garotas do job fiscal

Atraídas pelo discurso da teologia da prosperidade, elas usam o nome de Deus e operam sob a tutela do diabo
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Precisamos entender o papel que Deolane e Virginia, dentre outras com menor ascensão, têm desempenhado na falsa simulação de “influencer”. Estamos diante de um sistema de lavagem de dinheiro que opera em tempos de redes sociais. De repente, uma anônima passa em processo meteórico a acumular seguidores/as, a ostentar uma vida de luxo, com viagens e compras de carros, joias e bolsas.

Se, no passado, a figura da laranja era reservada ao perfil anônimo e que em nada traduzia o estilo de vida com o qual “operava financeiramente” em suas contas, as organizações criminosas viram nas influencers do job fiscal um meio de manipular e, ao mesmo tempo, alienar uma massa que vive sob o fetiche de acompanhante virtual dessas falsas celebridades.

Laranja na cor dos cabelos, mas em CNPJ “garotas do job fiscal”. Em todos os casos, não é raro que parte de suas fortunas esteja vinculada aos jogos virtuais, mais conhecidos como bets. O faturamento dessas empresas é revestido em investimentos em Dubai, o paraíso fiscal das organizações criminosas mais atuantes no mundo.

Massagens com pó de ouro

A máfia Kinahan, por exemplo, em 2022, foi alvo de uma gigante operação da Europol. Essa máfia atua na área de esportes. Lava dinheiro em investimentos de compra e venda de jogadores, clubes de futebol, lutas e canais de esportivos. A família originária da Irlanda domina o mercado de drogas em parte da Europa e disputa a rota Bálcãs.

Dubai é a Wall Street do século 21. Os maiores investimentos dos mercados de drogas não estão concentrados nas organizações financeiras dos EUA. E isso mostra a disputa desse mercado na segunda grande crise da política de guerras às drogas! Agora, ela é financeira, global e dos Emirados Árabes Unidos (EUA).

Mesmo assim… Em 2025, a Receita Federal publicou a Instrução Normativa nº 2.265/2025, que atualiza a lista de países com tributação favorecida e de regimes fiscais privilegiados. Entre as principais mudanças, estão a exclusão dos Emirados Árabes Unidos da lista de jurisdições com tributação favorecida e a retirada de um regime aplicável a holdings na Áustria.

A mudança reconhece os avanços dos EAU em termos de transparência fiscal e investimentos estratégicos no Brasil. O país apresentou um plano de investimentos relevante no território nacional e atendeu aos critérios previstos na nova legislação, o que permitiu sua exclusão da lista de jurisdições com tributação favorecida.

A atualização está baseada na Lei nº 15.079/2024, que acrescentou o artigo 24-C à Lei nº 9.430/1996. Esse dispositivo permite que países que promovam o desenvolvimento nacional por meio de investimentos significativos possam ser retirados da lista de jurisdições com tributação favorecida.

Virginia Fonseca tira selfie ao lado do senador Cleitinho durante sessão da CPI das Bets no Senado Federal.
Senador Cleitinho (Republicanos/MG) e a influencer Virgínia Fonseca na CPI das Bets (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

As constantes viagens dessas mulheres para Dubai, com compras de joias, relógios e ostentação em pratos exóticos e massagens com pó de ouro, indicam uma mudança operacional do crime organizado no mundo. Se, anteriormente, as máfias italianas tinham entre seus códigos a discrição, as organizações criminosas nascidas em contexto prisional se inspiram na máfia de Nova York. Ostentam, usam perfis em redes sociais para manipular e alinear uma massa de seguidores e ainda operam com sistema financeiro de ponta.

No subsolo dessa pirâmide, jovens (em sua maioria pobres) vivem a dupla condição do vicio: em drogas e bets. Meninas (também em sua maioria pobres e periféricas) avistam na condição de job (trabalhadoras sexuais) o lugar de ascensão. A universidade e o ensino superior, para esses segmentos de sonho distante, tornaram-se coisa obsoleta.

Sonho de Dubai

Em pesquisa realizada com mulheres brasileiras e estrangeiras presas no estado de São Paulo, as com idade entre 24 e 38 anos narraram condição de trabalho e/ou exploração sexual pelas redes internacionais do mercado global de drogas. Não há nada de glamoroso nesses relatos. Não há nele paraísos artificiais como Dubai. Há, no entanto, muita violência e trabalho forçado.

A condição de job fiscal não pode ser para todas, mas se cria no imaginário social e fetichista de que é possível chegar a tal condição. Movidas pelo discurso da teologia da prosperidade, usam em vão o nome de Deus e operam sob a tutela do diabo. Se, no passado, meninas eram iludidas, enganadas e deslumbradas pelo sonho americano, agora, assistimos, sem saber o que fazer, a uma massa de meninas que se lança para o Sonho de Dubai. Se o crime no passado existiu para ocultar o verdadeiro criminoso, agora, o criminoso não oculta o seu crime. É o signo de poder. que não se contenta apenas com a captura do estômago, mas toma para si o espírito.

Reside aí o risco do Narcoestado… Quando a sua estrutura jurídica passa a operar a serviço das organizações criminosas e a sociedade, sem senso de polis, vê no crime, no linchamento, na corrupção a sua única alternativa. A guerra às drogas nos mostra que a mais perigosa e letal é a que acontece sob o rito de normalidade.

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