A infância como arma de propaganda política

Trajetória da Brasil Paralelo é marcada por controvérsias que flertam com o crime
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Há empresas que vendem produtos. Há empresas que vendem serviços. E há empresas que vendem ressentimento embalado como “documentário”. A Brasil Paralelo pertence a essa terceira categoria.

O episódio mais recente expõe, de forma cristalina, a lógica que move esse empreendimento político-midiático. Segundo denúncias repercutidas pelo ICL Notícias, imagens de uma criança teriam sido utilizadas e recontextualizadas para atacar pautas ligadas à diversidade e à educação pública. Falas adulteradas fazem-na dizer o que não disse na peça supostamente documental. Não estamos falando apenas de divergência ideológica, estamos falando do uso da imagem infantil sem autorização dos pais como ferramenta emocional de propaganda.

Quando uma criança vira peça de marketing político, a fronteira ética foi atravessada.

Mas esse caso não surge do nada, ele se encaixa num histórico consistente. A trajetória da Brasil Paralelo é marcada por uma série de controvérsias que flerta com o crime: ataques ao legado e à história de Maria da Penha; disputas sobre uso indevido de imagem; revisionismo histórico sobre a ditadura militar; releituras ideológicas da escravidão; campanhas sensacionalistas sobre educação e permanente tentativa de transformar complexidades sociais em munição para guerra cultural. Nada disso é acidental.

Reação da ADU e do MP

O nome talvez seja a única coisa honesta já produzida pela empresa. Brasil Paralelo a quê? Paralelo aos fatos? Paralelo ao consenso científico? Paralelo à historiografia séria? Paralelo às decisões judiciais? Paralelo ao debate honesto?

O modo de operação é batido. Escolhe-se um tema sensível; produz-se estética cinematográfica sofisticada; selecionam-se entrevistados alinhados ideologicamente; misturam-se fatos reais com omissões estratégicas; entrega-se ao público uma narrativa emocionalmente poderosa e intelectualmente distorcida.

Se Olavo de Carvalho foi o pregador, a Brasil Paralelo virou a catedral audiovisual. Olavo ensinou uma geração inteira a desconfiar de universidades, da imprensa profissional, da ciência, de instituições democráticas e da produção intelectual. Substituiu o argumento pela caricatura, a dúvida honesta pela paranoia e o debate pela humilhação do adversário. A produtora apenas profissionalizou e envernizou esse método, tornando-o mais palatável.

No caso do material produzido sobre Maria da Penha, o objetivo era reabrir, simbolicamente, um caso já julgado para atingir uma mulher que se tornou referência nacional no combate à violência doméstica. O plano deu errado: houve reação institucional grave, com ação da Advocacia-Geral da União e acusações do Ministério Público, envolvendo desinformação e uso de documento falso pela produtora para produzir um filme que defende o algoz e ataca a vítima. Se isso se confirmar judicialmente, não será mera polêmica editorial, mas ataque à honra de uma vítima e tentativa de corroer a confiança pública na Lei Maria da Penha.

Maria da Penha aparece sentada em cadeira de rodas em retrato institucional, com expressão serena. A imagem reforça sua posição como símbolo no combate à violência doméstica, tema citado no texto ao discutir distorções e usos políticos de sua história.
Maria da Penha: referência no combate à violência doméstica é alvo de ataques (Foto: Jarbas Oliveira/Folhapress)

Na ditadura militar, familiares de vítimas denunciaram distorções e apagamentos. Na escravidão, pesquisadores apontaram tentativas de relativização histórica e esvaziamento do racismo estrutural. Percebe o padrão? Não se trata de revisar a história para compreendê-la melhor. Trata-se de revisá-la para torná-la politicamente útil para a extrema direita.

A fábrica da “realidade paralela”

Todo projeto autoritário precisa de inimigos simbólicos. No Brasil recente, um dos alvos preferenciais virou a escola pública e o professor, que passou a ser chamado de doutrinador. No Brasil paralelo desta empresa, a creche vira laboratório ideológico, o livro e a diversidade viram uma ameaça moral e a criança é usada de forma ilegal, para dizer o mínimo, como instrumento de propaganda política.

Esse caso é tão revelador porque mostra que, quando falta realidade para sustentar a tese, captura-se a imagem da infância para fabricar pânico. A criança não é sujeito, vira cenário e arma para a manipulação de mentes e geração de lucro. O componente econômico não pode ser ignorado. A guerra cultural dá audiência, engajamento, poder político e dinheiro. A indignação seletiva é modelo de negócios. Quanto mais medo se planta, mais fidelidade se colhe. Quanto mais inimigos imaginários se criam, mais indispensável parece a empresa que promete combatê-los.

O problema da Brasil Paralelo não é ser conservadora. Conservadorismo democrático existe e tem lugar legítimo no debate público. O problema é transformar desinformação em entretenimento, manipulação em linguagem audiovisual e ressentimento em identidade política. Quando se usa criança para atacar minorias, quando se reconta violência contra mulheres para desacreditar vítimas, quando se suaviza escravidão e ditadura para servir agendas atuais, não estamos diante de pluralismo, estamos diante de engenharia ideológica.

A resposta a esses descalabros precisa ser responsabilização jurídica séria, com indenizações robustas, direito de resposta proporcional, transparência editorial e punições capazes de tornar economicamente desvantajosa a mentira como método de negócio. A liberdade de expressão não inclui direito à fraude, à manipulação ou à fabricação deliberada de desinformação.

Mais do que isso, precisamos fortalecer cada vez mais a produção cultural, a memória histórica, a educação midiática e a defesa intransigente da verdade factual. Porque toda a sociedade que abandona a verdade acaba governada pela ficção mais agressiva. E nisso a Brasil Paralelo se especializou.

Assine a Revista Liberta

Tenha acesso ilimitado a todas as edições, com reportagens exclusivas, análises jurídicas e políticas, além de um olhar crítico sobre a história sendo escrita diante dos nossos olhos.

Quero Assinar
Já é assinante? Entrar