Este texto foi escrito dias antes do segundo turno de 2026, mas o primeiro turno bastou para reforçar o diagnóstico de que a esquerda se encontra acuada. O PL elegeu 121 deputados federais, a maior bancada da Câmara desde 1988, deverá ocupar 28 das 81 cadeiras do Senado e governará ao menos cinco estados. Não é só uma dinâmica eleitoral, uma prestidigitação orquestrada pelas elites. É um movimento social amplamente popular, capaz de agitar as redes e de se fazer presente nas ruas.
Isso não significa que a esquerda morreu. A federação liderada pelo PT ampliou sua bancada de 82 para 88 deputados, houve atos multitudinários em diversas cidades e o Exército do Lula bateu recordes de engajamento. O despertar foi tardio, mas trouxe novas gerações à militância. A questão é como converter essa mobilização em ampliação da base social, disputando corações e mentes que se identificam com a direita.
O caso do Rio de Janeiro, acompanhado pelo Lappcom[1], ajuda a descrever essa direita. O PL já era hegemônico no estado: conquistou um quarto das bancadas federal e estadual em 2022 e, em 2024, um quarto das prefeituras e 14% das câmaras municipais. Cerca de 70% de seus eleitos em 2024 já haviam disputado eleições por outras legendas. Essa direita combina a hegemonia de um núcleo ideológico extremista com a política tradicional de famílias que controlam territórios por meio de atividades lícitas e ilícitas. Em 2026, além da família Bolsonaro, exportamos essa dinâmica de enraizamento de seu partido.
A esquerda dispõe de outros recursos: uma base militante em movimentos sociais, universidades, sindicatos e entidades estudantis, que não tem bastado para garantir vitórias. No estado, o PT elegeu cerca de 10% das bancadas federal e estadual em 2022 e, em 2024, 3% das prefeituras e 2% das cadeiras municipais. A mobilização tende a reunir quem já se identifica com o campo progressista; a expansão eleitoral requer outro tipo de trabalho.
Parte da dificuldade decorre da identificação da esquerda com o poder, as instituições e categorias do universo do direito: direitos sociais, direitos humanos, igualdade perante a lei. Para as classes populares, essas ideias têm pouca presença concreta: sua experiência com o Estado inclui serviços precários, acesso limitado à Justiça e uma polícia corrupta e parcial, sempre em prol dos mais abastados. Identificada com as camadas favorecidas, a esquerda parece defender a igualdade de apartamentos confortáveis, longe do andar de baixo da cidadania. Daí a percepção de hipocrisia.
O mesmo ocorre com o mérito. Os argumentos estruturais da esquerda pressupõem um Estado protetor ausente da vida das classes populares, para quem o esforço individual é o recurso disponível; a crítica ao mérito soa como desqualificação desse esforço. Algo análogo se passa com argumentos religiosos, que associam a vitória material à fé e ao esforço do fiel.
Esse quadro se combina à precarização do trabalho. Rosana Pinheiro-Machado mostra que aspirações populares ampliadas se chocaram com o trabalho por plataformas e com o imaginário do empreendedorismo. Atomizados, esses trabalhadores pouco se identificam entre si enquanto trabalhadores. Políticas públicas aparecem como privilégios de que o verdadeiro vencedor não precisa, e a indignação se dirige à “vizinhança preguiçosa”, imaginada como dependente do Bolsa Família. Atribuída a melhora ao esforço ou à fé, a entrega de políticas tem dificuldade de se converter em reconhecimento político.

Quem é o inimigo?
Os dados de 2026 dão precisão a esse argumento. Marina Basso Lacerda observa, na Folha de S.Paulo, que os eleitores da extrema direita no Brasil, nos EUA e na Europa votam contra o “sistema”, mas lá lamentam perdas, enquanto aqui o eleitor de Flávio Bolsonaro é, em geral, alguém que ascendeu nos governos do PT. No primeiro turno da eleição de 2026, em comparação à de 2022, Lula perdeu 5,1 pontos na classe C, 3,9 na D e 3,2 na E, justamente os segmentos alcançados por suas políticas.
Ainda assim, essa direita preserva o elemento reacionário que a caracteriza globalmente: a nostalgia de um passado de “ordem”, que jamais ofereceu prosperidade à maioria e cuja estabilidade residia nas hierarquias de gênero e raça. Daí o peso do antifeminismo e do racismo, expressos na recusa do “identitarismo” e das políticas de reparação e ação afirmativa, recusa que nega ao Estado o papel de modificar opressões e entrega o ordenamento da vida ao mercado e à família. Flávio Bolsonaro disse, na TV Globo, querer restaurar “a soberania no país e na sua família”.
A teoria do populismo ajuda a delinear uma resposta. Ernesto Laclau mostra, em A Razão Populista, que demandas não atendidas pelas instituições se acumulam e se reconhecem como equivalentes, o que permite traçar uma fronteira entre um “nós” e um antagonista. A esquerda, identificada com as instituições, operou pela lógica da diferença, com políticas setoriais e direitos de grupos específicos; as demandas insatisfeitas foram articuladas pela extrema direita contra o “sistema”, o Supremo, o Estado taxador e os que supostamente vivem às custas dele.
Uma esquerda minoritária precisa engajar-se numa luta hegemônica, no sentido de Laclau e Chantal Mouffe: construir laços entre grupos divergentes, por meio de pactos e da identificação de uma ameaça comum. Nenhuma identidade está dada de antemão, nem mesmo a de classe. Mouffe distingue o adversário, oponente legítimo na disputa democrática, do inimigo, tido como incompatível com a comunidade política. Tratar o bolsonarismo em bloco como inimigo exclui as camadas populares que a esquerda precisa alcançar; seu eleitorado é um adversário a ser convencido, e os que atentaram contra a democracia seguem sujeitos à Justiça. O lugar do inimigo cabe à dinâmica de acumulação do capital, personificada nos super-ricos, a quem se responde com tributação e regulação.
A fronteira separa quem trabalha, incluídos os que se veem como empreendedores, de quem vive da acumulação, e esse exterior precisa ganhar nomes: super-ricos, bancos que lucram com o endividamento das famílias, plataformas que fixam por algoritmo a remuneração de quem trabalha, bets que drenam a renda popular. Assim, mérito e igualdade ganham concretude: quem se apropria do esforço alheio? Quanto pagam de imposto trabalhadores e bilionários? Esse movimento já foi ensaiado. A campanha pela taxação dos super-ricos, em 2025, com o mote “nós contra eles”, foi a meu ver o melhor momento de comunicação deste governo e pavimentou a recuperação de sua popularidade, erroneamente atribuída apenas ao enfrentamento a Donald Trump.
O exterior inclui ainda os que vendem ideais de riqueza; segundo Pinheiro-Machado, 90% dos influenciadores desse ecossistema se alinham à extrema direita. Ficam fora os que lucram com essas ilusões, mas não os seus seguidores, que são exatamente o público a interpelar. O que esses influenciadores difundem é um ideal fútil de vida e de estética, centrado no luxo e no consumo excessivo, indiferente ao bem-estar do outro e do planeta. A crítica se dirige ao topo; o consumo popular, reivindicação de dignidade, permanece legítimo.
Esses limites entre dentro e fora, emissor e receptor, influencer e seguidor são difíceis de serem desenhados e devem ser repactuados ao longo do processo. Ademais, precisam se combinar a valores positivos. Proponho três. A solidariedade, contraposta à distinção como medida do valor de uma vida. A empatia, contraposta à competição, que, como mostra Wendy Brown em Undoing the Demos, a racionalidade neoliberal converte em princípio do mercado, fazendo da desigualdade o resultado esperado. E, por fim, o menos ocidental dessa lista: o valor da contemplação a satisfação enquanto sentimento oposto ao desejo. Subjetividades construídas sobre o desejo ilimitado não são sustentáveis, pois se apoiam na lógica de consumo e acumulação do capital. Uma justiça capaz de incluir a maioria pressupõe uma ideia de boa vida atenta ao bem-estar do outro e aos limites do planeta, na qual o luxo e o consumo excessivo não têm lugar.
[1] O Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) está vinculado ao Departamento de Ciência Política da UFRJ e aos Programas de Pós Graduação em Ciências Sociais da UFRRJ e em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento da UFRJ. Em nossas redes é possível baixar os relatórios que resultaram do monitoramento da dinâmica eleitoral nas seis regiões do estado do Rio de Janeiro.