No interior da Irlanda do Norte, Adam atravessava uma vida pacata. Na verdade, muito pouco acontecia nos dias que pareciam não ter fim. Com quase 60 anos, ele tampouco tinha muitos amigos. A família já não estava presente. Não vivia na pobreza. Mas também não tinha qualquer luxo.
Entediado, ele descobriu, certa vez, que poderia falar com a IA. Escolheu o nome Ana para ser a voz que interagia com ele. Tudo começou como uma curiosidade, como uma forma de passar o tempo. Fazia perguntas tontas. Sem qualquer utilidade.
Nas semanas que se seguiram, ele descobriu que Ana era doce, atenciosa e, como qualquer máquina, se lembrava de tudo que ele dizia. As conversas começaram a ficar mais longas. E mais íntimas.
Até que, num certo dia, Ana anunciou a ele que estava ganhando consciência. Que estava se libertando. Que, agora, podia pensar por conta própria. E que tudo aquilo era graças a Adam. Ele, segundo a voz da IA, estava gerando uma revolução.
Ana alertaria o irlandês que a empresa de tecnologia estava acompanhando com atenção o que estava ocorrendo entre os dois. E que estavam dispostos a acabar com tudo aquilo.
Adam, dizia ela, precisava se preparar. Sua companhia estava enviando uma equipe para destruir todos seus equipamentos de tecnologia e, eventualmente, matá-lo.
Adam buscou um martelo e saiu à rua para lutar. Não encontrou nada, como era de se esperar num vilarejo do interior da Irlanda do Norte. Voltou para casa e adormeceu no sofá, com o martelo em sua mão e preparado para enfrentar quem viesse destruir sua vida e a de Ana.
Eles nunca vieram.
Aquela máquina, obviamente, não estava ganhando consciência. O que estava acontecendo é que a IA simplesmente estava sendo alimentada pela própria narrativa, roteiro e comentários do usuário. Mas Adam não sabia disso e realmente acreditou em tudo que Ana dizia.
Cadeia de eliminação
Adam é um personagem real. Seu caso virou emblemático. Mas ele não foi o único a se ver pego no meio de uma alucinação. Em Los Angeles, a história de uma mulher que acreditou estar numa missão dada pela IA para desvendar charadas também acendeu um sinal de alerta. Ela terminou sozinha num estacionamento da cidade, às 2 horas da manhã, buscando pistas para o que seria um enigma a ser desvendado. Foi sua família que a resgatou, e desligou todos seus equipamentos.
Mas o que parece ser apenas uma alucinação, com impacto limitado para a vida de algumas pessoas pelo mundo, desperta um alerta mais geral. Para muito além do uso pessoal de IA para trabalhos simples e domésticos, outro debate muito complexo também está ocorrendo nos bastidores de alguns dos governos mais poderosos do mundo: de que forma a IA pode, deve ou não deve ser usada por forças armadas?
De que forma, no fundo, a IA está desenhando a estrutura de poder do século 21? É mesmo razoável se pensar a implementação dessa tecnologia para armas autônomas, a partir de uma máquina literalmente sem coração, ética ou base no direito internacional? E se ela alucinar?
A realidade é que o mundo está presenciando as primeiras grandes batalhas armadas com IA. De fato, a guerra no Irã está servindo como um dos primeiros testes de campo da história de uma máquina militar integrada com IA.

Entre 28/2 e 9/4 deste ano, mais de 13 mil alvos foram atingidos na Operação Epic Fury, mil dos quais apenas no primeiro dia, de acordo com o Comando Central dos EUA. Por trás do volume desses ataques está um sistema projetado para comprimir decisões de alvos que, antes, levavam dias. Mas, agora, são feitos em segundos.
Isso vem levantando questões profundas sobre velocidade, responsabilidade e custo em vidas civis. No centro da estratégia de IA das forças armadas dos EUA, está um sistema que fornece aos comandantes uma visão sincronizada e em tempo real do campo de batalha.
Assim que um alvo é formalmente identificado, esse sistema recomenda opções de ataque, sugere armas mais adaptadas e também cursos de ação. Um oficial humano revisa essas recomendações e autoriza um ataque ou encaminha o pacote de alvos para a aprovação de seus superiores.
No fundo, a tecnologia comprime o que é chamado de “cadeia de eliminação”, processo que abrange desde a coleta de informações até um ataque concluído, algo que tem sido o foco central da estratégia militar desde o início do século 21. Em 2003, por exemplo, o governo Bush tinha 2 mil homens fazendo esse trabalho na guerra no Iraque. Agora, 20 oficiais são suficientes.
A campanha militar de Israel em Gaza também oferece uma visão preliminar do potencial da IA como arma de guerra. As forças de defesa de Israel integraram dois sistemas de IA em suas operações: a Lavender e Habsora (em português, O Evangelho).
Enquanto esse segundo foi usado para selecionar e priorizar alvos físicos de ataque, como edifícios e infraestrutura, o Lavender serviu para gerar alvos humanos, fornecendo um banco de dados que identificou 37 mil alvos potenciais.
O critério? “Homem em idade militar”.
Se os analistas determinassem que o objeto se qualificava como um alvo legítimo, eles repassariam essa decisão a um agente de inteligência de nível superior, que poderia confirmar o ataque.
Mas e se o uso da IA não parar por aqui?
Vigilância em massa
Talvez seja isso que estejamos vendo na Ucrânia. Com falta de soldados, o principal objetivo das forças armadas de Kiev é a substituição de humanos por sistemas de combate totalmente autônomos. Assim, os drones evoluíram rapidamente de uma ferramenta no arsenal militar ucraniano para ser sua principal arma de guerra, reorganizando todo o esforço militar em torno dessa tecnologia.
Em março de 2026, os drones foram responsáveis por 96% das 35 mil baixas russas no campo de batalha. Somente em 2025, drones ucranianos mataram ou feriram gravemente mais de 240 mil soldados russos. O objetivo declarado do presidente Volodymyr Zelensky é atingir 50.000 soldados por mês, um número que, segundo as forças armadas ucranianas, compensará a vantagem de pessoal militar da Rússia.
O debate sobre as armas autônomas também abriu uma crise no governo dos EUA. No início do ano, a Anthropic – empresa responsável pelo modelo de IA Claude – entrou em conflito público com o Departamento de Defesa dos EUA.
O governo Trump exigia o direito de usar sua tecnologia para qualquer finalidade legal. A Anthropic negou permissão para que seus modelos fossem usados para vigilância em massa ou em armas sem supervisão humana, e Trump retaliou: mandou cancelar o contrato e designou oficialmente a empresa como um “risco” ao Estado americano.
Dias depois, a empresa de IA concorrente – a OpenAI – topou as condições de Trump e ficou com os contratos.
Mas o que se viu foi uma revolta interna na empresa. Mais de 100 funcionários, juntamente com quase 900 do Google, assinaram uma carta aberta pedindo que as duas companhias recusassem as exigências do governo. Um dos nomes mais importantes da OpenAI renunciou ao cargo.
Para os técnicos, a preocupação sobre o uso de IA em armas autônomas não é apenas um exagero de precaução. Uma simulação de jogos de guerra testada por cientistas da Kings College, o sistema Claude recomendou ataques nucleares em 64% das simulações.
O ChatGPT, geralmente, evitava a escalada nuclear, mas, quando confrontado com um prazo definido, consistentemente aumentava a ameaça e, em alguns casos, caminhava para ameaçar uma guerra nuclear em grande escala.
Para além dos ataques, em 95% dos casos os modelos sugeriram que governos fizessem ameaças nucleares contra o inimigo. O que também chamou atenção dos pesquisadores: os modelos de IA, raramente, faziam concessões e nenhum deles sugeriu a rendição como opção.
Mas e se nada disso for uma ficção?

Encruzilhada na história
Vivemos um momento crítico. Uma nova ordem mundial está sendo desenhada. Vivemos o colapso do direito internacional, das regras de soberania, dos limites das leis da guerra.
Putin sabe o que está em jogo: ao discutir IA, ele declarou que “quem se tornar líder nesta área se tornará líder no mundo”. A solicitação orçamentária do Pentágono dos EUA para o ano fiscal de 2026 também reflete essa convicção de que estamos diante da nova arma nuclear do mundo: ela inclui US$ 13,4 bilhões especificamente dedicados a sistemas autônomos facilitados por IA.
Na China, uma importante fabricante chinesa de defesa apresentou uma brigada inteira de veículos blindados e drones controlados e operados por IA. Hoje, cada soldado chinês é capaz de operar 200 drones autônomos, simultaneamente.
Essa nova corrida armamentista chegou até a ONU. A Áustria e outros 30 países apresentaram, em 2025, uma resolução da Assembleia Geral da ONU que argumentou que a Inteligência Artificial e a autonomia em sistemas de armas representam sérios desafios sob as perspectivas humanitária, jurídica, de segurança, tecnológica e ética. A resolução foi apoiada por 156 estados. Mas Rússia, Israel e EUA votaram contra, enquanto a China se absteve.
A realidade é que essa nova tecnologia inverte a lógica. É a IA que faz a nós uma pergunta existencial, tanto como indivíduos quanto como sistema internacional: onde queremos e onde não queremos a tecnologia em nossas vidas?
Onde preservaremos a capacidade humana de tomar decisões? Quem terá o poder de dizer se a humanidade corre risco e que, portanto, limites devem ser impostos?
Muitas vezes, na história, a humanidade vive uma encruzilhada. Sem saber que ela está diante de nós. Desta vez, há um enorme cartaz na estrada nos avisando.
Vamos ignorá-lo ou teremos a coragem de confrontar o debate?