Vivemos, de forma hostil e acelerada, a reorganização do novo mundo multipolar; o tempo, no cenário internacional, corre no ritmo da queda hegemônica dos Estados Unidos. O império se encontra em declínio, porém, esse fim não necessariamente será pacífico. Ao contrário, tende a expressar aquilo que Giovanni Arrighi identifica como um momento de crise sistêmica e de transição hegemônica, marcado por uma dinâmica complexa de disputas de poder regional e de busca por novos equilíbrios de poder.
Nessa perspectiva, o declínio relativo da hegemonia estadunidense abre espaço para a recomposição da ordem mundial, com maior protagonismo de novos pólos regionais. Essa é a resposta do porquê a América Latina se tornou prioridade na política externa do presidente Trump e Marco Rubio. (ARRIGHI, 1996)
A América Latina, em 2026, já não se encontra apenas em disputa; encontra-se em risco. No dia 3 de janeiro, após a invasão da Venezuela, os bombardeios, ataques e sequestros romperam, na prática, a formulação da região como zona de paz, conceito que orientou a arquitetura política da UNASUL e do Conselho de Defesa Sul-Americano, e que teve em Celso Amorim seu principal formulador. O então chanceler descrevia a América do Sul como uma região de baixa conflitualidade interestatal, integrada e voltada à solução pacífica de controvérsias; em 2026, porém, esse horizonte de zona de paz, cooperação e integração se dissolveu. (AMORIM, 2011)
Aliança regional conservadora
A nova política externa da Casa Branca, liderada ideologicamente por Marco Rúbio e alinhada à extrema direita de cada país da região, tem avançado no mapa, mas não apenas como intervenções e ingerências diretas isoladas, e sim com um projeto regional comum a partir da segurança e de bases militares dos Estados Unidos. Essa política foi divulgada formalmente pela Casa Branca no documento de Estratégia de Segurança Nacional.
O relatório resgata abertamente a Doutrina Monroe cunhada originalmente em 1823 sob o lema “América para os americanos” e adaptando-a ao século 21 como a chamada “Doutrina Donroe“. O braço prático dessa doutrina materializou-se no “Escudo das Américas”, uma aliança de segurança regional lançada em março de 2026, na Flórida, reunindo líderes conservadores latino-americanos em torno de uma agenda de militarização policial e de combate ao narcoterrorismo dirigida pelo Pentágono.

Não devemos analisar apenas um país isoladamente: devemos entender que essa nova política externa da Casa Branca, concentrada na América Latina, faz parte de um diagnóstico geopolítico mundial. A política externa de Trump explicita a fragilidade do império norte-americano desde uma perspectiva econômica, num contexto que Arrighi descreve como fase avançada do ciclo sistêmico de acumulação, em que a hegemonia entra em crise e se apoia crescentemente na financeirização e no poder militar.
A aceleração da desdolarização, a perda de centralidade da economia dos Estados Unidos frente à expansão da influência econômica chinesa e o questionamento da aposta feita pelos EUA, ainda nos anos 1970, de comprar tempo, financeirizar sua economia e deslocar o capital produtivo para a Ásia, são sinais dessa etapa de crise terminal da hegemonia.
Essa queda também se manifesta no plano político e ideológico. Trump descarta a importância da OTAN, passando a enxergá-la como instrumento obsoleto. Se, no pós-Segunda Guerra Mundial e na Guerra Fria, o controle sobre a reconstrução europeia e as instituições multilaterais garantiu a hegemonia norte-americana numa combinação de coerção e consenso típica da hegemonia arrighiana, hoje esse modelo está esgotado.
Nesse novo mundo multipolar, outras regiões ganham maior centralidade, como o Oriente Médio, onde uma agenda político-ideológica fortemente influenciada por Israel e articulada ao projeto da Grande Israel tem levado os EUA a se afundar no genocídio da Palestina, na guerra com o Irã e na guerra no Líbano.
Sanções contra Cuba e Venezuela
O conflito com o Irã evidencia um novo momento de exposição da fragilidade militar dos Estados Unidos, o que fragiliza também sua influência econômica e política na região, como evidencia a aposta no controle do Estreito de Hormuz, por onde transitam cerca de 20% do petróleo e gás natural do comércio mundial. Entretanto, essa estratégia aprofunda uma crise econômica e inflacionária nos EUA, somada aos efeitos da política unilateral de tarifas. Um típico movimento de uma potência hegemônica em sobrerreação militar diante do declínio, o que acelera ainda mais o processo de deslocamento do centro da acumulação para outras regiões.
A guerra contra o Irã, ideologicamente alinhada a Israel, retira popularidade de Trump justamente num momento crucial do ciclo eleitoral e sob forte pressão da mídia, ao mesmo tempo em que expõe os limites da capacidade estadunidense de ordenar o sistema internacional. Em paralelo, a América Latina é incorporada a uma agenda antilatino-americana, promovida internamente nos Estados Unidos por órgãos como o ICE, que constroem a narrativa de que o problema do “americano médio” – a falta de mobilidade social, emprego e bem-estar – é culpa dos imigrantes.
Reatualiza-se, assim, um mecanismo de deslocamento das contradições internas para inimigos externos, típico de potências em declínio. Os latino-americanos voltam a ser construídos como inimigos, enquanto se instrumentaliza a questão das drogas e da saúde mental, atribuindo ao narcotráfico latino-americano a responsabilidade por problemas domésticos profundos e estruturais dos EUA.
Dessa forma, a agenda anti-América Latina do segundo mandato Trump fortalece uma linha ideológica e um lobby interno de apoio: se o Irã retira popularidade, a América Latina devolve, ao ser tratada como espaço privilegiado para reafirmação de poder e para controle de recursos estratégicos, em particular petróleo e outras riquezas naturais. Em termos arrighianos, trata-se de uma tentativa de recomposição periférica da hegemonia, buscando manter zonas de influência em regiões ricas em recursos, mesmo quando o centro dinâmico da acumulação global se desloca para a Ásia.
A vitória da coalizão de Javier Milei nas eleições legislativas da Argentina, em outubro de 2025; a eleição de Rodrigo Paz na Bolívia, em outubro de 2025, encerrando duas décadas de governos de esquerda; e a vitória apertada de Nasry Asfura, apoiado por Donald Trump, em Honduras, em novembro de 2025, evidenciam que, sob essa nova política externa, o mapa regional mudou. Essa tendência se consolidou em 2026, com a eleição de Keiko Fujimori no Peru confirmada pelo tribunal eleitoral, em 3/7 e a vitória de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, em 21/6.
Os processos eleitorais, extremamente frágeis, os tensionamentos, as ingerências e influências externas têm se mostrado suficientes para produzir uma atualização conservadora na América Latina, com resultados eleitorais mínimos, muitas vezes com menos de 1% de diferença, em projetos antagônicos ao extremo comum, como aconteceu no Peru e na Colômbia. A nova ofensiva norte-americana é acompanhada por um endurecimento brutal de sanções econômicas contra Cuba e Venezuela, mostrando que atacar ideologicamente o campo progressista também é importante.
Democracia sob ataque no Brasil
E o Brasil? Aqui viveremos a maior ingerência da história do país nos próximos meses. A atual política externa da Casa Branca demonstra plena disposição para intervir nos campos político, midiático, financeiro e militar. No dia 15/7, foram aplicadas as novas tarifas de 25% com a consolidação da taxa de 25% sobre importações brasileiras pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), sob justificativas regulatórias unilaterais, que miram desde o sistema Pix até políticas ambientais e de propriedade intelectual.
Paralelamente, no plano político e militar, a designação oficial do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais pelos EUA representa um ataque contra a soberania do país. Ao transpor facções criminosas da esfera estritamente policial para o enquadramento de terrorismo internacional, Washington pavimenta o caminho jurídico e discursivo para futuras intervenções e ações secretas unilaterais sob o pretexto do combate ao narcoterrorismo.
Essa nova onda conservadora impacta diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no pleito eleitoral do Brasil. Como linha ideológica, é necessário atualizar que o multilateralismo morreu e a América Latina já não é mais uma zona de paz. Essa dura realidade deve sedimentar um acúmulo político realista para os próximos meses de disputa eleitoral. As instituições democráticas brasileiras irão mais de uma vez passar por testes, desde seus métodos até a segurança.
A eleição será ideologicamente polarizada e a democracia já está sob ataque. O embate com a extrema direita brasileira tem dimensão global, será uma eleição altamente internacional, desde intervenções e observação. Em outubro, vamos definir se o sonho progressista latino americano terá fôlego para sobreviver à agressividade de um império em queda e se a democracia brasileira vencerá a furia do colapso estadunidense.
Bibliografia:
AMORIM, Celso. A política externa do governo Lula: os dois primeiros mandatos (2003-2010). Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 411-435, jul./dez. 2010.
ARRIGHI, Giovanni. O Longo Século XX: dinheiro, poder e as origens de nosso tempo. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto; São Paulo: Editora UNESP, 1996.