Um frio percorreu a espinha de quem tem filhos – homens – e leu as manchetes sobre a adolescente que sofreu estupro coletivo no Rio de Janeiro. Ela foi atraída para um apartamento em Copacabana, acreditando que teria um encontro com um ex, também menor de idade.
Mas era uma emboscada.
Ela saiu do apartamento de um jovem no qual confiava com a costela fraturada após um chute. Lesões nas costas, nas nádegas e na região genital.
Diante dessa brutalidade, muitas famílias, horrorizadas, respiraram (em segredo) aliviadas. Aquele pensamento involuntário, muitas vezes contrariando até nossos valores pessoais, perpassou a mente de muita gente. “Ainda bem que não foi o meu filho”. Ou ainda: “Isso jamais teria acontecido na minha família, porque eu educo meu filho”. Será?
Alguém está ensinando os nossos filhos a odiar mulheres.
O caso do Rio de Janeiro é emblemático porque destrói o senso comum de que o agressor é um “monstro” ou “desconhecido”. Os suspeitos são estudantes de instituições tradicionais, como o Colégio Pedro II e a Unirio. Um deles é filho de um ex-subsecretário de Estado do Rio. São jovens de classe média. O agressor pode ser o tio que senta do nosso lado na ceia de Natal, o filho prodígio, o “parça” do futebol de segunda-feira, o colega de classe que ri da piada no grupo de amigos… A lista é infinita.
Banquete de ódio
É impossível respirar aliviado. Primeiro, porque manchetes como essas reviram os nossos estômagos diuturnamente. Ninguém sai ileso. E, segundo, porque o fantasma do discurso de ódio na internet – e até onde ele pode chegar – está sempre nos rondando. Foi assim quando duas funcionárias do Cefet, o Centro Federal de Educação Tecnológica, no Rio, foram assassinadas por um homem que “não gostava de ter chefes mulheres”. De onde vem tanta violência?
Além da escola e da família, há uma outra sala de aula da qual não conseguimos proteger nossos filhos: a internet. Algoritmos e criadores de conteúdo entregam um banquete de ódio e ressentimento aos meninos. Canais do movimento red pill transformam o que pode ser uma frustração em doutrina extremista.
No YouTube, canais que promovem esse discurso somam quase 4 bilhões de visualizações. E não é exagero dizer que é ali que se aprende a desumanizar mulheres. Levantamentos do Instituto Promundo mostram que 48% dos adolescentes já tiveram contato com algum conteúdo da machosfera. Garotos são treinados para enxergar mulheres não como sujeitos, mas como adversárias a serem subjugadas. Coisificadas, como mercadorias descartáveis. Começa na linguagem, quando elas aparecem ridicularizadas em fóruns de discussão. Mas pode terminar em feminicídio.
Para além de uma discussão sobre a regulamentação urgente das plataformas digitais, também há projetos tramitando no Congresso que buscam criminalizar a misoginia e desmonetizar canais que lucram com o ódio. No segundo semestre de 2025, o Senado chegou a aprovar um projeto que equipara a misoginia ao crime do racismo. A proposta ainda não seguiu o rito da Câmara dos Deputados para virar lei. Há projetos específicos pela criminalização dos red pills, como dos deputados federais Reimont (PT-RJ) e Duda Salabert (PDT-MG).
São propostas urgentes – mas não bastam. É preciso, sim, falar em punição legal e no asfixiamento financeiro desses grupos, que utilizam estratégias de monetização digital para transformar o ódio às mulheres numa indústria rentável. Acontece que a lei chega quando já houve dano. Acredito que a prevenção passa, também, por uma etapa anterior: a da disputa pela subjetividade desses garotos na construção dessa identidade. Para que homens sejam forjados não pela matriz da violência, mas pela do cuidado – para que a vulnerabilidade não seja tratada como fracasso e o cuidado como algo exclusivamente feminino. Brincar de boneca ou expressar vulnerabilidade através do choro, por exemplo, não faz parte de um processo de feminização, mas constrói o alicerce para uma masculinidade que sabe cuidar.
Meninos precisam de espaços de diálogo e escuta. Precisam poder expressar e falar sobre suas emoções. Ser ensinados sobre limite, consentimento e afeto. A entender que amor é diferente de controle. A pedir desculpas. E a construir referências de masculinidade positiva – pode ser um pai, um tio, um amigo.

Me deparei com uma provocação da psicanalista e educadora Antônia Burke: “Educar não é só conversar dentro de casa, não é só papel da família. Tem que disputar narrativa, ensinar pensamento crítico, nomear misoginia assim que ela aparece. Não relativizar a violência. E não dá para fazer isso sozinho dentro de casa, porque o menino está aprendendo todo dia que a mulher vale menos. O caminho natural é ele achar que pode fazer qualquer coisa com ela. E, aí, não é mais um problema individual. É uma cultura que está escolhendo não se responsabilizar”.
A violência contra a mulher não é “problema das mulheres”. Episódios de violência como o do estupro coletivo em Copacabana não são exceções trágicas – são expressões de uma violência que está entre nós todos os dias. Já se perguntaram por que mulheres sempre conhecem uma vítima de abuso, mas nenhum homem consegue nomear um estuprador conhecido? É. Reconhecer que o agressor pode ser “um de nós” é doloroso – mas essa responsabilidade é nossa. Do contrário, vamos continuar enterrando mulheres.