Por Deborah Magagna (*)
Fevereiro começou com uma cena de deslocamento no Teatro Municipal. Afrociberdelia, três décadas depois, não retornou como celebração, mas como permanência incômoda. Na noite que coincidiu com a data da morte de Chico Science, a Nação Zumbi colocou em circulação uma pergunta antiga. O que acontece quando uma obra nascida do mangue ocupa um espaço moldado pela tradição sem se deixar domesticar?
A orquestra não entrou para embelezar o mangue ou “fugir da vida suja por entre os becos”, mas como expansão de tensão. As flautas desenhavam vertigens, instaurando a instabilidade, as cordas, que cresciam junto a dinâmica das músicas, revelaram, no próprio movimento, que o espaço era maior do que parecia, enquanto a percussão, nervo central da banda, manteve seu ritmo em um pulso quase hipnótico. Canções conhecidas ganharam novas temperaturas e densidades, criando uma sensação de relevo sonoro em que cada camada parecia empurrar a outra adiante.
Quando a plateia entoou o coro de “sem anistia”, a noite deixou evidente que memória também é posição. A Nação Zumbi nunca separou som de posição histórica e política e, ali, isso não precisou ser explicado. Os aplausos longos, em pé, não celebravam apenas a releitura bem-sucedida, mas a permanência de um espírito inquieto em um de um gesto que atravessa décadas sem se acomodar. No bis, fora do álbum, o silêncio ganhou espessura, como “quem respira fundo sabendo que certos gritos continuam circulando no escuro, à espera de novos encontros”. O tempo, naquela noite, não se resolveu, permaneceu em disputa.
(*) Historiadora e economista, apresentadora do ICL