Carta ao Leitor — Uma entrevista com Lula

Conhecido por seus improvisos, presidente não se negou a responder nenhuma pergunta
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Cheguei no alto da escadaria da Piazza Di Spagna exausto e com os pés latejando. Naquele dia frio de novembro de 2009, eu havia comprado sapatos novos por um motivo nobre a qualquer jornalista: entrevistar um presidente da República. Luiz Inácio Lula da Silva estava em Roma para uma visita de Estado. À tarde, pudemos fazer um “quebra-queixo” com Lula e o então primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi – uma entrevista em pé, rápida – como se diz no jargão jornalístico. Era fim de tarde quando cruzei as portas do hotel onde Lula estava hospedado e dei de cara com o presidente.

Conversamos por algum tempo sozinhos. Os jornalistas brasileiros tinham ido embora e Lula esperava por alguém da equipe. O presidente brasileiro corria às voltas com um caso rumoroso de relações internacionais entre os dois países: Cesare Battisti. Condenado na Itália por atentados nos anos de chumbo italianos, Battisti estava no Brasil. A Itália pedia sua extradição, tanto o governo quanto o maior partido de esquerda daquele país, o Partido Democrático. Lula me disse: “farei o que o STF decidir”.

Tirei uma foto com ele, nos demos um abraço e nos despedimos. Eu jamais imaginaria que iria cruzar de novo com o presidente muitos anos depois, em 2019, quando ele me agradeceu – em uma conversa reservada no Instituto Lula – por sua soltura da prisão graças à série de reportagens Vaza Jato.

O encontro em Roma me veio à cabeça quando Lula entrou na sala em que faríamos a entrevista com o presidente no começo de abril deste ano. Desta vez, como no longínquo 2009, Lula também estava às voltas com o STF. O caso Master dominava os noticiários e a imprensa, mais uma vez, misturava seu governo com as decisões e atitudes do Supremo e de seus ministros. Piscava diante de mim a pergunta que não poderia deixar de ser feita, como no passado.

A entrevista atrasou uma hora. Enquanto Lula não chegava, brinquei com Marco Aurélio Santana Ribeiro, um dos mais próximos assessores de Lula, que eu cobraria mais 10 minutos no ar a cada 10 minutos de atraso do presidente. Não precisei. Diante de mim e de meu colega Eduardo Moreira, Lula falou por 1h40 minutos sobre todos os temas mais quentes da eleição. Escala 6×1, reestatização de refinarias, eleições, Trump e… Banco Master, é claro. Antes e depois da conversa ao vivo no ICL, Lula parecia animado e até certo ponto irritado. Cobrou assessores que lhe passassem informações sobre os temas do dia. Atirou na mesa um maço de folhas. Nas duas primeiras, foto e biografia resumidas de “Leandro Demori e Eduardo Moreira”. Nas demais, sob títulos em caixa alta na cor vermelha, os assuntos que imaginava precisar abordar: TERRAS RARAS, ESTREITO DE ORMUZ, TARIFAS.

Conhecido por seus improvisos, Lula deu pouca margem para o destino. Chegou afiado e não se negou a responder nenhuma pergunta. Ao final, tiramos fotografias juntos, pude entregar a ele o livro sobre os bastidores da Vaza Jato – editado pelo Intercept –, nos abraçamos e nos despedimos. Na dedicatória, escrevi uma frase que havia dito para ele em 2019: “Uma história sobre liberdade para quem nunca deveria ter deixado de ser livre”.

Assine a Revista Liberta

Tenha acesso ilimitado a todas as edições, com reportagens exclusivas, análises jurídicas e políticas, além de um olhar crítico sobre a história sendo escrita diante dos nossos olhos.

Quero Assinar
Já é assinante? Entrar