A mídia, que uns gostam de chamar de corporativa e outros de golpista mesmo, vem se referindo ao filho mais velho de Bolsonaro, o famoso “01”, simplesmente como “Flávio”, num evidente ocultamento do sobrenome BOLSONARO. É a criação do novo mito, mas, dessa vez, por um caminho curioso.
Trata-se do apagamento proposital do sobrenome Bolsonaro. Trata-se, na verdade, de uma higienização, de uma “lavagem do nome” para garantir a manutenção de um capital político cada vez mais sujo. A expressão “familícia” e a prisão do ex-presidente “ladrão de joias” são sinais evidentes da lama geral onde esteve afundada a nação, mas sempre é possível ajudar a piorar e voltar ao sadomasoquismo politico, que mantém os abusadores da democracia no poder.
A “lavagem do nome” na política equivale à “lavagem de dinheiro” no universo das finanças, pois o nome é um capital fundamental do campo do poder. Um nome bem feito sozinho, sem grandes esforços, elege um candidato. Na era da politica rebaixada à publicidade, esse tipo de “design” é tudo. Por isso, pessoas usam nomes de líderes políticos como se fossem próprios. Assim, surgiram mil “Marias Lulas da Silva” e até uma deputada envolvida no crime de racismo passou a usar o nome “Bolsonaro” como se fosse próprio.
Com um nome, elegem-se em todo o Brasil e pelo mundo afora esposas laranjas, filhos e filhas ineptos, que não têm nada além do nome do pai e que seguem em seus lugares apenas para manter o poder no círculo vicioso que beneficia as elites. Mais do que elitismo, fisiologismo ou classismo, se trata de uma espécie de “nepotismo endógeno” da política, de “habitus” monárquico, que faz as pessoas votarem sem pensar nos herdeiros do poder, apenas por que são herdeiros.
É o que filósofos – como Michel de Montaigne no começo da modernidade e Jacques Derrida na contemporaneidade – chamaram de “fundamento místico” da autoridade. Ou seja, as pessoas votam como que automaticamente em nomes que soam como estirpes políticas (Sarney, Arraes, Covas…). As pessoas escolhem, mas sem ter de fato escolhido. Votam sem real livre-arbítrio, ou, na verdade, com muito livre-arbítrio e pouca liberdade. Totalmente desligadas de projetos políticos sobre os quais deveriam refletir e ponderar, elas optam pela simples paixão da repetição. É a submissão ao líder, seja ele qual for que está na base do ato.
Uma altíssima dose de sadomasoquismo político está em cena, mas isso é assunto para outro artigo. Nosso problema agora é entender a ameaça Bolsonaro que recai sobre a democracia brasileira, mais uma vez.
Limpar um nome sujo
Jair, o pai, sujou um nome que já não era limpo. Seu histórico militar sempre teve cheiro de podre. Nos anos 1980, o ex-presidente foi acusado de liderar o plano “Beco Sem Saída” pelo qual planejava explodir bombas em unidades militares do Rio de Janeiro. Embora ele tenha negado, desenhos de explosivos foram atribuídos a ele. Ao mesmo tempo, o Exército escondeu seu desempenho na época em que esteve na AMAN (Academia Militar de Agulhas Negras), em Resende, de 1973 a 1974. Parece que ele não era um aluno que tivesse notas e desempenhos dos quais se orgulhar, sobretudo, quando se trata de um líder que pode frequentar uma escola renomada.
Ao longo de sua carreira, ele sempre pareceu mais um agitador, um baderneiro, do que um homem de comportamento ilibado. Perder a patente pelos crimes cometidos mais recentemente e que o levaram, para ironia do destino, ao famoso Complexo da “Papuda”, do qual ele sempre riu, é um processo que está em curso no Superior Tribunal Militar.
Antes de seguir, é importante lembrar, contra o hábito brasileiro de desprezar a memória, quais foram os crimes cometidos por Bolsonaro recentemente. Vamos enumerá-los: 1 – Abolição violenta do Estado Democrático de Direito; 2 – Golpe de Estado; 3 – Liderar organização criminosa armada; 4 – Dano ao patrimônio da União; 5 – Deterioração de patrimônio tombado.

No caso do crime de “Abolição violenta do Estado Democrático de Direito”, se trata de “tentativa de eliminar o regime democrático por meio de violência ou grave ameaça”; enquanto o crime de “Golpe de Estado” vem a ser a tentativa de derrubar um governo legitimamente constituído, também por meio de violência ou ainda grave ameaça. No caso da “organização criminosa”, houve agravante na condenação do ex-presidente devido ao emprego de armas. O projeto envolvia planos para matar o presidente Lula, o vice-presidente Geraldo Alckmin e até mesmo o ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Quanto aos crimes de dano ao patrimônio da União e deterioração de patrimônio tombado, a condenação se refere aos atos de 8 de janeiro de 2023, quando da invasão das sedes dos Três Poderes, que foram depredadas por milhares de bolsonaristas em Brasília. O papel de Jair Bolsonaro, que partiu para os EUA antes da posse do novo presidente, foi o de incitar seus seguidores ao crime e, estando longe, escapar às responsabilidades, caso tudo desse errado.
Os vândalos, de sua parte, acreditavam que estavam fazendo algo sem maiores consequências, não imaginavam que seriam punidos por isso, pois consideravam que sua ação não era um crime, mas já era a vitória. Acreditavam que não havia nada de errado em romper a ordem constitucional e impedir o funcionamento das instituições, e que, literalmente “quebrar tudo” não era um problema, pois o líder assumiria o poder e eles seriam ovacionados enquanto heróis nacionais.
Todo esse “delírio do poder” tinha bases sólidas na cultura brasileira. Para além da falta de memória, um ponto ainda mais complicado estava e segue em jogo. Ele se refere ao desprezo pela lei que leva ao desprezo pela própria noção de crime. A anomia, ou desconhecimento da lei, é um fato no contexto da falta de educação para o direito e o sistema de justiça, mas, além disso, é o próprio crime que está culturalmente autorizado no Brasil, desde que ele seja praticado pelos “líderes autoritários” e idolatrados pelas massas ou por agentes consensuados: homens brancos e ricos, raramente, são presos.
Assim, os bolsonaristas atacam Lula como “presidiário”, sustentando até hoje a crença em crimes totalmente imaginários, enquanto, ao mesmo tempo, desconsideram os crimes reais de seu líder e de muitos outros em posição de poder. É fato que a falta de racionalidade das hordas bolsonaristas, elas mesmas fascistas, leva muita gente a pensar que essas pessoas estão maníacas, que estão em surto, inclusive contra o Judiciário, que não é composto de homens santos. E não é errado falar em “síndrome autoritária” em relação às massas e seus líderes, como escreveu Theodor Adorno acerca do nazismo alemão. Mas isso também é assunto para outro artigo.
Diante disso tudo, como limpar o nome Bolsonaro? Para isso, é preciso operar um reposicionamento da marca e a mídia corporativa tem um papel decisivo nisso. Desvinculando “Flávio” de “Bolsonaro”, tentando apresentá-lo como um sujeito razoável e ponderado, ele se torna um candidato viável. Ao mesmo tempo, as operações do “gabinete do ódio” (uma mídia de guerrilha, que trabalha veiculando ódio e fake news) segue criando o “inimigo” Lula e a inimiga “esquerda” num oceano de desinformação. Os cidadãos desavisados podem colaborar, simplesmente, passando adiante e participando da orquestração mentirosa e delirante, enquanto alcançam o gozo exigido por seu ressentimento generalizado contra a democracia.
Nesse contexto é que se insere “Flávio” como herdeiro legítimo de seu pai. Balançando no pêndulo pendurado ao pescoço dos donos dos meios de produção da notícia, o Flávio vai surfando. Ele tem que equilibrar o peso positivo do nome para os extremistas de direita e o peso negativo do nome para aqueles que buscam a assepsia decorativa na política, a saber, certa direita que acha Bolsonaro um horror porque, na verdade, não consegue manipulá-lo para os seus fins.
No projeto de limpeza do nome, devemos nos perguntar: como vai ser possível esconder o esquema das “rachadinhas”, um ato de corrupção, sendo que a palavra “corrupção” também vem sendo evitada para falar desse cidadão? O arquivamento do processo das rachadinhas, sob o governo do pai, em 2021, não é mera coincidência. Além disso, como esconder a compra de uma mansão de luxo por R$ 6 milhões e a condecoração do miliciano Adriano da Nóbrega na Assembleia Legislativa do Rio? Como escamotear que Flávio Bolsonaro também empregava em seu gabinete a mãe e a ex-mulher de Nóbrega, quando era deputado na Alerj? Adriano da Nóbrega era figura central do escritório do crime até ser assassinado em Salvador, quando, aliás, Eduardo Bolsonaro passeava por lá. Eduardo, alcunhado de “bananinha”, por sua vez, anda sumido, provavelmente para não atrapalhar o irmão.
Com um salário de deputado e depois de senador não seria possível comprar a mansão de Flávio quando ainda era Bolsonaro. Talvez os 383 depósitos na conta de Fabrício Queiroz, preso em 2020, possam ajudar a explicar esse tipo de compra. A suposta lavagem de dinheiro na loja de chocolates parece ter sido confirmada. O MP disse que o senador usou, pelo menos, R$ 2,7 milhões em dinheiro vivo nos esquemas envolvendo essa loja.
Isso sem falar dos 51 imóveis comprados, inclusive, com dinheiro vivo em transações que somam R$ 13,5 milhões na época (e que, corrigidos, passam de R$ 25 milhões, segundo dados do UOL). A familícia inteira esteve envolvida nessas tramas, ela e seu lacaio, o Queiroz, o ex-presidente, os filhos e as ex-mulheres. Sobre os valores da família tradicional cristã que o grupo diz defender, não é preciso dizer mais nada.
Lavagem cerebral
Não vai ser fácil fazer a lavagem do nome, mas a mídia corporativa pode tudo usando uma competente lavagem cerebral. Basta tirar tudo isso da cena e das narrativas. Basta apagar também a relação entre os bolsonaristas e o caso Vorcaro, assunto que deixaremos para depois.
Talvez, seja importante interromper esse novo mito que surge. Lembrar ainda que o filho de Bolsonaro ajudou a prender o próprio pai, quando postou um vídeo convocando a população a se manifestar contra a prisão domiciliar de Jair, é essencial, agora, para avisar os bolsonaristas-raiz que esse novo ex-Bolsonaro não lhes representa. Lembremos que aquela gravação virou uma das justificativas para a decretação da sua prisão preventiva. É bem importante lembrar que os filhos do Bolsonaro são iguais a ele e capazes de tudo por poder. Até de colocá-lo na cadeia.
Compreender por que as pessoas votam em BOLSONARO e por que a mídia corporativa insiste nesses tipos, se já ficou provado que até a elite perde com isso, é uma questão misteriosa a ser debatida.
O Brasil do golpe de 2016 até o governo de Bolsonaro viveu uma catástrofe cultural e econômica e antidemocrática sem precedentes. A campanha do campo progressista deverá fazer o trabalho da memória e lembrar que “Flavio é o Bolsonaro” a todo momento. O setor menos ideológico do eleitorado e mais sensível a mudanças na percepção política precisa ser disputado em sua inteligência e sensibilidade. A aparição do “mito Flávio”, em busca de diálogo com esse público enquanto se mantém no pêndulo agradando a base conservadora. é um perigo real à democracia brasileira.