Documentos provam que Lula não ligou para Epstein

A imprensa e a pressa de desinformar
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Há histórias que parecem boas demais para ser verdade. E muitas são apenas mentira mesmo. A suposta ligação telefônica entre Lula, então preso em Curitiba, Noam Chomsky e Jeffrey Epstein é uma delas. Viralizou rápido, ganhou manchetes, comentários indignados, jogou o presidente do Brasil no olho do furacão de um caso criminal vil e nojento. Análises apressadas foram publicadas como em uma padaria industrial de bobagens. O problema é que faltou o básico: apuração. A ligação, como mostram os próprios documentos oficiais do caso, nunca existiu.

Bastava algo elementar no jornalismo – conferir datas, ler documentos, aplicar um mínimo de coerência lógica. Os próprios arquivos disponíveis no sistema do Departamento de Justiça dos EUA desmontam a narrativa. Vejamos.

No dia 21 de setembro de 2018, Jeffrey Epstein escreveu a Steve Bannon a frase que virou fetiche informativo: “Chomsky called me with Lula. From prison. What a world.” (“Chomsky me ligou com Lula. Da prisão. Que mundo.”)* É uma afirmação extraordinária. Um dos maiores intelectuais do mundo pegou seu telefone e, da cadeia, fez uma ligação para Epstein ao lado de Lula.

Demori

Justamente por seu teor explosivo, essa informação solta exigia alguma prova extraordinária. Ela não só inexiste, como outro documento contido no próprio arquivo apreendido pela polícia desmonta facilmente a suposta ligação.

No mesmo dia da mensagem de Epstein para Bannon (​​21 de setembro de 2018), existe um e-mail apreendido pelas autoridades, com cabeçalho completo, enviado por Noam Chomsky a Epstein às 8h40 da manhã. Nele, Chomsky informa que estava no Brasil, envolvido nas atividades do movimento “Lula Livre”, e diz explicitamente que ele e Valeria haviam visitado Lula na prisão no dia anterior. O tom do e-mail é informativo, quase protocolar.

“In Brazil, very much involved in ‘Free Lula’ activities (Valeria and I visited him in prison yesterday) and other commitments.” (“ [estou] No Brasil, muito envolvido nas atividades do ‘Free Lula’ (Valeria e eu o visitamos na prisão ontem) e em outros compromissos.”)

Demori

Não há qualquer menção ao telefonema que teria acontecido no dia anterior. Na verdade, é neste momento que Epstein descobre que Chomsky esteve com Lula.

É aqui que a história cai por terra. Se Epstein tivesse, de fato, falado com Lula ao telefone no dia anterior ao e-mail – ainda mais com Chomsky na linha – não faria o menor sentido Chomsky escrever, horas depois, explicando que esteve com Lula, como se estivesse trazendo uma informação nova. A lógica não fecha. Os documentos não conversam entre si. A versão da ligação não se sustenta.

Tanto é assim que Epstein só diz para Bannon que teria estado em uma ligação com Lula horas depois do e-mail de Chomsky. Ou seja: é Chomsky que o informa sobre a visita, por e-mail. Era 01:33 da tarde quando a mensagem é enviada por Epstein ao conselheiro de Donald Trump. Cinco horas depois do e-mail.

O que resta, então, é uma hipótese muito mais simples: Epstein mentiu para Bannon. Inflou seu próprio grau de acesso, como tantas vezes o fez, para se apresentar como alguém conectado aos grandes personagens e eventos do mundo. Isso é compatível com seu histórico judicial. O que não é compatível é a imprensa tratar uma frase solta, sem lastro documental e sem apuração mínima, como fato estabelecido.

O problema aqui não é apenas esse caso. É o método. Vivemos uma era com milhões de documentos disponíveis, vazamentos reais, crimes financeiros complexos, redes de poder que exigem investigação séria e paciente. A imprensa não pode se dar ao luxo de escorregar para o fait divers, para a anedota escandalosa que rende clique rápido e desinforma.

Informar exige tempo. Exige checar datas. Exige ler tudo até o fim. E, sobretudo, exige resistir à tentação da história fácil e do medo de ser furada por alguém no twitter. Porque quando a imprensa troca apuração por pressa, ela não apenas erra – ela ajuda a fabricar ruído onde deveria haver clareza.

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