O Brasil vive um momento raro: assistir a um ex-presidente ser responsabilizado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe. A palavra “golpe” sempre ecoa fundo em nossa história, porque não fala apenas de política — fala de vidas. Fala da ruptura de lares, da insegurança nos mercados de trabalho, da violência liberada contra corpos já marcados pela exclusão. Como mulher preta e articuladora política, olho para este julgamento com o coração dividido: sinto o alívio da justiça, mas também a ferida aberta de um país que, usando farda, insiste em brincar com a democracia. Só que ela não é descartável.
Na psicanálise, aprendemos que os traumas não desaparecem sozinhos. Talvez seja isso que o Brasil esteja vivendo: a repetição de suas feridas autoritárias ainda abertas, do racismo estrutural, da desigualdade que se perpetua em cada esquina. O julgamento de Bolsonaro é, neste sentido, uma chance coletiva de elaboração — de dizer “não” ao retorno do que já tanto nos machucou. Mas, como em qualquer processo psíquico, não basta a sentença: precisamos transformar essa marca em aprendizado e mudança real.