Conceição Evaristo costuma dizer que, ao contrário do que ocorreu à escritora Carolina Maria de Jesus, nenhum jornalista entrará para a história dizendo que a descobriu. O fato de ter uma atuação reconhecida no circuito independente e no movimento negro, no entanto, não a poupou de ser manchete de um jornal da chamada grande mídia sob o título “Vinda da favela, Conceição Evaristo se consolida como escritora (…)”.
À época desta publicação, em 2017, Conceição havia deixado a favela há mais de quarenta anos para dar aulas no Rio de Janeiro, onde fez carreira acadêmica, participou de coletivos literários como Negrícia e Quilombhoje – estreando ainda nos anos 1990 nos Cadernos Negros – e lançou seu primeiro livro, Ponciá Vicêncio (2003). Por sorte, os tempos não eram os de Carolina, e o estigma que tentou encerrá-la aos estereótipos de gênero, raça e classe não colou.
Mesmo estreando tardiamente nos circuitos literários hegemônicos, Conceição se consagrou como uma das autoras mais importantes da literatura contemporânea, influenciando uma geração de autoras e autores e atraindo multidões de fãs por onde passa. Emblemático, portanto, que sua comemoração de 80 anos, no dia 29/11, seja quase um fechamento das celebrações do Mês da Consciência Negra.
Poeta, contista, romancista e ensaísta, a mineira completa oito décadas reafirmando sua importância com o lançamento de uma caixa com toda a sua obra editada pelas editoras Pallas e Malê, que inclui clássicos como Ponciá Vicêncio e Becos da Memória, além de um guia de leitura organizado pelo editor Vagner Amaro e pelo professor Henrique Marques Samyn.
O pacote de novidades traz ainda Escreviventes (Ed. Pallas), uma conversa entre Conceição e a escritora Eliana Alves Cruz (colunista da Liberta), cujo registro audiovisual será base para o documentário homônimo (ainda sem data de estreia), dirigido por Estevão Ribeiro; e o livro-homenagem A Gente Combinamos de Escrever (Ed. Malê), com contos inspirados em personagens de Conceição, assinados por nomes de diferentes gerações como Calila das Mercês, Itamar Vieira Junior, Jeferson Tenório, Cuti e Elisa Lucinda.
Numa longa conversa com Conceição para a edição de novembro da revista literária Quatro Cinco Um, o que mais chama a atenção é a insistência em atribuir sua escrita a algo que não está nos livros. “Sou uma pessoa de gestos comedidos. Portanto, essa competência herdei da oralidade, das conversas que vivi em casa, que, além da voz, envolviam o silêncio e o olhar”, diz ela.
Ao transformar essas conversas em texto, Conceição atualizou as regras da língua pela sintaxe das ruas, ajustando o português ao ritmo e à vida de sua gente, da mesma maneira que poetas populares, sambistas e rappers.

Gramática do cotidiano
Uma característica que ampliou o alcance de seus romances, contos e poemas. Além de tema de estudos em universidades no Brasil e no Exterior, as histórias de Conceição circulam nos ambientes que a inspiram a escrever, a exemplo da homenagem feita pela escola de samba Império Serrano no Carnaval deste ano. “Meus livros são traduzidos em inglês, francês, tcheco, árabe, espanhol, italiano, mas vê-los circular numa escola de samba, onde as classes populares exercem sua liberdade de criar e festejar, é outra coisa”, afirma a autora.
Nada disso ocorre ao acaso. Por trás de sua popularidade, está um trabalho meticuloso com as palavras, incluindo uma pesquisa acadêmica que a levou a desenvolver o conceito de escrevivência. Em essência, escreviver é lidar com a memória da ancestralidade, preenchendo os vazios deixados pela violência do processo de escravidão por meio da fabulação, mas também colocar em perspectiva o presente, a partir de referências outras que não o cânone europeu que pautou a teoria literária.
Esse campo de estudos passou a referendar um novo cânone na literatura brasileira, no qual personagens e vivências periféricas são centrais em narrativas como Meridiana, de Eliana Alves Cruz, recém-eleito Melhor Romance pelo Prêmio Jabuti; Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves; Torto Arado, de Itamar Vieira Junior; Mata Doce, de Luciany Aparecida; ou O Avesso da Pele, de Jeferson Tenório.
Em diferentes sotaques e formas, essas e outras autoras e autores reproduzem o que Conceição chama de “gramática do cotidiano”, numa tradição literária que parte de pioneiras como Maria Firmina dos Reis e Carolina Maria de Jesus, perpassa o rap e encontra similaridades em autoras e autores da diáspora africana como a estadunidense Toni Morrison, a cubana Teresa Cárdenas e a guadalupense Maryse Condé, entre muitas outras/os.
Nesse cenário, Conceição é farol, iluminando e apontando múltiplos caminhos a serem seguidos por quem a tem como referência, ao mesmo tempo em que segue firme em sua própria produção. Para o próximo ano, Conceição tem planos de lançar pelo menos sete novas publicações, entre romances, antologias poéticas, críticas e até um rap. Para nossa sorte, saúde e criatividade não lhe faltam.
Sobre Carolina Maria de Jesus ter sido “descoberta” por Audálio Dantas, um parênteses: segundo Conceição Evaristo, ao saber que um jornalista estaria na favela, a escritora deu um jeito de ser notada por ele, falando sobre as histórias que escrevia sobre o lugar. “Foi Carolina quem descobriu Audálio, não o contrário.”