A leitura mais difundida sobre a neutralidade de MDB, União Brasil, PP, Republicanos, Podemos e da federação PSDB/Cidadania é a do adiamento: partidos sem convicção esperariam o segundo turno para vender caro a adesão ao vencedor. Há algo disso, certamente. Mas a hipótese do adiamento supõe que a decisão ainda não foi tomada, e eu suspeito do contrário. Ela foi tomada – mas não é sobre esta eleição. O Centrão, assim como a grande mídia e parte das elites econômicas tradicionais, não está indeciso ou oscilando entre Lula e Flávio Bolsonaro em 2026. Está se organizando em torno de Tarcísio de Freitas em 2030.
Para sustentar minha hipótese, vou recuar bastante no tempo, porque o comportamento dessas legendas, embora chame atenção por isolar um candidato que mobiliza uma parcela considerável do eleitorado, não deve ser entendida como novidade. Ao contrário, o solipsismo das nossas elites políticas, bem como seu perfil localista e pragmático, é o padrão que remonta à nossa formação nacional.
Consórcio de elites locais
A colonização portuguesa não instalou aqui um Estado que depois se estendeu ao território; instalou elites territoriais – donatários, sesmeiros, senhores de engenho, coronéis –, cujos projetos eram simultaneamente patrimonialistas e extrativistas e para as quais a unidade nacional foi sempre um dado exterior, útil quando protegia a propriedade e a exportação, dispensável no resto.
A nação foi montada por cima dessas elites, não por elas. E o sistema político que construímos ao longo do século 20 foi desenhado à imagem dessa sociedade: um federalismo com unidades subnacionais fortes, um sistema proporcional de lista aberta que individualiza a competição e incentiva cada candidato a constituir uma base territorial própria, e um multipartidarismo que converte essa fragmentação em uma miríade de legendas, as quais, embora nacionais, funcionam como um consórcio de elites locais.
Essas regras, que conformam nosso sistema político e eleitoral, são o rebatimento de uma estrutura social em que o poder sempre se organizou a partir do território. A opção pelo presidencialismo e a polêmica que ela causou na Assembleia Nacional Constituinte, que remete à própria origem do Centrão, é um ponto fora dessa curva, na medida em que a figura do presidente é um mecanismo de unidade em um universo no qual a fragmentação é a regra.
O fato de identificarmos a fragmentação como padrão não implica ignorar as recentes e profundas transformações no nosso sistema político. A questão é que, a despeito do imperativo social de desestimular o comportamento patrimonialista e solipsista de nossas elites locais, essas transformações acabaram por reforçá-lo, oferecendo a elas acesso direto a recursos incomensuráveis.
O fim da verticalização desobrigou os diretórios estaduais de reproduzir a aliança nacional. O fim das coligações proporcionais e a implementação da cláusula de barreira dificultaram a vida dos pequenos partidos. A proibição do financiamento empresarial, em 2015 – seguida da criação do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e da consolidação das emendas impositivas, a partir de 2016 – aumentou a importância da eleição para o Legislativo Nacional, pois transferiu para dentro dele o controle do dinheiro que antes vinha de fora.
Essa autonomia financeira inverteu os incentivos que organizavam a carreira política. Por décadas, a dinâmica institucional incentivava a ascensão a cargos majoritários – prefeituras, governos — e, para quem permanecia no Legislativo, incentivava a conexão com o Executivo: pela via eleitoral, apoiando um presidenciável, governador ou prefeito, ou pela via da indicação para ministérios e secretarias. Em ambos os casos, os incentivos iam na mesma direção: aproximar-se de quem ocupava ou disputava o Executivo, porque era dali que vinham os recursos que sustentavam o mandato.
É esse incentivo que desapareceu. O Orçamento de 2026 contém R$ 60 bilhões em emendas disponíveis para os parlamentares; o FEFC distribuirá quase R$ 5 bilhões. Levantamento do DIAP indica que 448 dos 513 deputados federais – 87,32%, o maior percentual da série – pretendem disputar a reeleição, não mais como etapa a caminho do Executivo, mas como carreira que hoje se sustenta por si mesma. O parlamentar deixou de precisar do presidenciável para financiar a campanha e para chegar ao eleitor. Essa é a novidade decisiva: a neutralidade ficou barata.

Uma direita que prefere não se nomear
Chamar nossas elites políticas tradicionais de centro é impreciso, ainda que elas estejam mais ao centro do que a extrema direita que conforma o núcleo duro do bolsonarismo – sendo esta apenas uma das razões da disputa atual. Diferentemente do bolsonarismo – mas, não necessariamente do PL, uma vez que podemos incluir nessa lista o segmento liderado por Valdemar da Costa Neto –, MDB, PP, União Brasil, Republicanos, Podemos e, em alguma medida, o PSD não têm um programa nacionalmente definido; a moderação que se lhes atribui é resultado de um posicionamento pragmático e territorialmente definido. São legendas que funcionam apenas como consórcio de elites locais, organizando e registrando candidaturas, viabilizando, em termos cartoriais, seu acesso à máquina pública.
Aqui está o ponto que me parece mal compreendido: a indeterminação programática não é uma fraqueza dessas siglas, é seu principal ativo, na medida em que amplia seu escopo de atuação. Permite combinações locais incompatíveis entre si – apoiar Lula num estado e Flávio no vizinho, sem custo de coerência. Permite variação na produção legislativa, porque nenhuma posição prévia impede a transação. E permite abrigar sob a mesma legenda tanto o eleitor fortemente ideologizado do interior quanto aquele que decide por obra, serviço e relação pessoal. A capilaridade que daí resulta é de outra ordem de grandeza: em 2024, PSD elegeu 891 prefeitos, MDB 864, PP 752 e Republicanos 440 – 2.947 prefeituras somente nessas quatro siglas contra 788 de PL, PT e Novo reunidos.
De todo modo, é preciso deixar algo bem claro. Embora não possam ser consideradas de extrema direita, essas elites tradicionais não são de esquerda. Isto é, não se compreendem à luz de um ideal de mudança e transformação das relações sociais. A superação das opressões, econômicas raciais, de gênero etc. é elemento constitutivo de qualquer definição de esquerda e faz parte do projeto que identifica a frente ampla formada em torno do Partido dos Trabalhadores, ainda que se defina de modo diferente quando observamos os diferentes atores que a compõem.
A afinidade das elites tradicionais, por sua vez, é com projetos de conservação. Quando votam em temas como segurança pública, direitos civis, meio ambiente, legislação trabalhista e regulação ambiental, votam à direita do PT e com notável constância. O Centrão é a direita brasileira. Ele é muito anterior à reviravolta trazida pelo bolsonarismo. Ela jamais estará alinhada com o PT em termos ideológicos, ainda que possam estar juntos por motivos pragmáticos.
O PP é descendente direto da Arena, via PDS, PPR e PPB; o União Brasil descende do PFL, dissidência do mesmo tronco. A linhagem é contínua e ocupa o Estado brasileiro há tempos imemoriais. Mas essa é uma direita que, na maioria das vezes, manda mas não governa: elegia-se no Legislativo e chegava ao Executivo por adesão, emprestando sustentação a candidaturas que se apresentavam como outra coisa, porque não havia um ideário capaz de conectá-la com os eleitores em termos nacionais e majoritários.
Foi Jair Bolsonaro que lhe deu o que ela nunca tivera – um eleitorado que se identifica como de direita, se reconhece nesse nome e comparece. O que não se sabe é o quanto essa identificação depende de seu nome na urna.
Não me parece que a direita brasileira tenha estado confortável com a hegemonia da família Bolsonaro. A radicalização ideológica promovida a partir da emergência do ex-capitão do Exército estreita o leque de alianças e discursos passíveis de serem adotados por essas lideranças. Estreita no eleitorado, porque uma identidade que mobiliza intensamente também repele com intensidade equivalente. Estreita nas combinações entre elites locais, porque um quadro marcado como bolsonarista se torna indisponível para arranjos que, no plano municipal, seguem sendo decididos por outros critérios. E estreita na produção legislativa, porque uma agenda ideologizada gera proposições de alta visibilidade, deslocando energia da negociação orçamentária fisiológica – alocação de recursos nos territórios – para a guerra cultural.
Com Bolsonaro inelegível, condenado e em prisão domiciliar, abriu-se uma disputa sucessória que instaurou a possibilidade de que as elites tradicionais pudessem retomar sua hegemonia dentro do campo. Tarcísio de Freitas surge como o escolhido para pavimentar essa transição. Se apresenta como criatura de Bolsonaro, mas atua como porta-voz do Centrão.
O cálculo de 2030
No dia 1º de agosto, no Ibirapuera, Tarcísio de Freitas foi lançado à reeleição amparado por uma coligação de doze partidos – Republicanos, MDB, PSD, União Brasil, PP, Podemos, PSDB, Cidadania, PL, Novo, Avante, PRD, Solidariedade, com pequenas variações conforme a fonte. Ou seja: quase exatamente o conjunto de siglas que declarou neutralidade na disputa presidencial. O Centrão não está neutro. Está coligado – apenas não em torno da Presidência. Flávio Bolsonaro compareceu ao evento de lançamento da candidatura de Tarcísio.
Creio, inclusive, que Flávio reconhece e tenta reagir a esse cenário. Primeiro, tentou atrair os demais partidos oferecendo-lhes o posto de vice. Depois, apresentou a PEC 4/2026, que extingue a reeleição presidencial com aplicação imediata, alcançando inclusive a si mesmo, caso vencedor deste pleito.
Aqui está o núcleo da questão. Uma vitória de Flávio não apenas adia a sucessão da direita: pode fechá-la por uma geração. Ele tem 45 anos, três irmãos na política eleitoral e uma madrasta que disputa a herança direta do sobrenome, todos jovens. Um Bolsonaro no Planalto significa uma família com máquina federal, controle da maior bancada da Câmara e um banco de sucessores – uma fila sem fim visível para quem pretenda entrar nela. Investir em Flávio hoje é aceitar sair da disputa pela liderança da direita por prazo indeterminado.
Já uma vitória expressiva de Tarcísio em São Paulo produz o efeito inverso: consolida-o como alternativa viável de longo prazo. Quanto maior essa margem, mais facilmente ele se fortalece como sucessor desse consórcio de elites que configura a direita tradicional e que, por um golpe de sorte, ou de azar, se viu capturada por Jair Bolsonaro. Essa é a aposta do Centrão em 2026.