Caso Klein: por que escândalo nacional não repercutiu como o de Epstein?

Já se passaram cinco anos desde que as denúncias contra o fundador das Casas Bahia vieram a público
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Exploração sexual, aliciamento de crianças e adolescentes, dinheiro e poder. Era abril de 2021 quando documentos, depoimentos e uma imagem de embrulhar o estômago vieram a público: meninas de biquíni dentro de uma piscina, abraçadas a um senhor, entoando em coro “êô, o Samuca é o terror”.

No centro da cena, estava o empresário Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, gigante do varejo que se tornou um ícone popular no Brasil nos anos 1990, por meio do crediário acessível e do bombardeio de propagandas com slogans e jingles que grudavam na cabeça.

Por trás da marca onipresente, havia um esquema perverso, que envolvia o “rei do varejo” e sua empresa. Segundo as denúncias, Samuel Klein aliciava meninas de 9 a 17 anos em situação de vulnerabilidade, que eram pagas com o caixa das Casas Bahia. Em um quartinho anexo à sua sala na loja de São Bernardo do Campo (SP), ele cometia os abusos, intermediados por funcionários, seguranças e motoristas. Um esquema que durou por, ao menos, 30 anos e passou de pai para filho: seu herdeiro Saul Klein é investigado por aliciamento e estupro de dezenas de mulheres.

Uma história que só recentemente ganhou dimensão pública, embora tenha circulado internamente em grandes veículos de imprensa ao longo de décadas. Os detalhes vieram à tona mais de seis anos depois da morte de Samuel Klein, após extensa investigação de um veículo de imprensa independente, a Agência Pública de Jornalismo Investigativo, onde eu trabalhei por sete anos. Não participei diretamente dessa cobertura – liderada pelo editor Thiago Domenici junto a cinco repórteres –,  mas acompanhei de perto o impacto e o silêncio que a cercaram.

As reportagens da Agência Pública podem ser republicadas gratuitamente, e é comum que grandes veículos reproduzam investigações de fôlego. Neste caso, porém, o silêncio foi quase absoluto, apesar das tentativas da equipe de firmar parcerias de publicação. A diferença de repercussão chama atenção, quando comparada ao caso do empresário americano Jeffrey Epstein, cujas denúncias de exploração sexual de menores mobilizaram debates públicos e cobertura contínua da imprensa brasileira.

Enquanto o escândalo nos Estados Unidos gerou uma comoção duradoura – reacendida, recentemente, com a divulgação de documentos pelo Departamento de Justiça (DOJ), estampando as capas de jornais impressos e digitais do país – , o Caso Klein permaneceu restrito a nichos jornalísticos e a círculos mais atentos ao tema, ecoado, principalmente, por jornalistas mulheres.

O escândalo brasileiro não se transformou em série de reportagens televisivas nem ocupou o noticiário das emissoras de televisão. Nenhum veículo avançou na investigação contra Samuel Klein, como de costume em grandes escândalos.

Os repórteres que participaram desta investigação me contaram terem enfrentado grande dificuldade para falar com as vítimas, porque muitas delas relataram que já haviam sido procuradas por jornalistas anteriormente, que denunciaram tudo o que viveram, mostraram processos, documentos, e, ainda assim, nunca tiveram suas histórias publicadas.

Alice saul klein foto prefeitura de Araraquara
Saul Klein: investigado por aliciamento e estupro (Foto: Divulgação/Prefeitura de Araraquara)

Amarras de cobertura

Compartilho esses bastidores com a licença dos meus colegas – e aproveito para saudar a coragem e a perseverança de levar essa investigação adiante, também narrada, no ano passado, no podcast Caso K: A história oculta do fundador das Casas Bahia (acesse aqui) O último episódio, “Por que só agora?”, aborda, justamente, o silenciamento da imprensa e traz relatos de jornalistas de grandes emissoras de TV que tiveram acesso à denúncia de estupro feita por uma das vítimas de Samuel Klein, entre 2008 e 2009, mas foram impedidos de publicá-las.

“O que nossa apuração indica é que muitos dos grandes veículos nacionais tiveram amarras por se tratar da Casas Bahia, uma das maiores anunciantes do país. A história não era desconhecida de repórteres e editores, mas muitos, como demonstramos na apuração, foram impedidos de seguir na história. Por isso, o caso Epstein não tinha amarras de cobertura como o caso Klein – e nem mesmo o caso Epstein, até recentemente, teve cobertura dos impactos no Brasil”, observou Thiago Domenici, diretor da Agência Pública.

Já se passaram cinco anos, desde que as denúncias contra Samuel Klein vieram a público, e os questionamentos levantados por Domenici e pela cofundadora da Pública, Natália Viana, em artigo publicado no site Poder 360, permanecem: “Quem eram os seguranças e motoristas? Quem eram os advogados que tentaram silenciar essas mulheres? As implicações econômicas e contábeis, também, deveriam merecer espaço nos jornais de negócios. Como a empresa mascarava esses pagamentos retirados à boca do caixa? Houve contadores que ajudaram a encobrir essa rede criminosa? São todas perguntas que o jornalismo deveria buscar respostas. Por que não estamos respondendo, como imprensa? Por que estamos deixando de cumprir nosso papel?”.

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