Em seu estado natural, o Homem, a criatura humana, é egoísta, egocêntrica e insegura. “O Homem é o lobo do Homem”, sintetizou Thomas Hobbes, já em 1651, em Leviatã, obra mais celebrada de sua vasta e densa produção. Para ele, o ser humano não conhece leis nem tem conceito de Justiça em seu estado natural. Daí, onde não existe governo ou lei, os homens caem em discórdia sob uma atmosfera de competição, medo, inveja, disputa. “Na busca pela glória, derruba-se o outro pelas costas”, acreditava ele. “O conflito é perpétuo e cada Homem é inimigo de outro Homem”.
Não é coincidência enxergar o ar plúmbeo do Leviatã de Hobbes no horizonte da Brasília atual. Desde a eclosão dos escândalos em série detonados pelas liquidações do Banco Master e da operadora REAG DTVM, tudo cheira a chumbo grosso e a enxofre na capital da República, na Faria Lima, coração do mercado financeiro, e nos condomínios de luxo das franjas de Belo Horizonte, cidade de origem dos protagonistas desse thriller financeiro-político-jornalístico que eletriza e assombra o país.
A partir de um grupo de pastores evangélicos, que havia fundado uma igreja de quinta categoria, sem nenhum senso de religiosidade mais profunda, a Lagoinha, de Minas Gerais, Daniel Vorcaro escalou uma vertiginosa ascensão no mercado financeiro, em São Paulo, e dos porões da Esplanada dos Ministérios até as catacumbas da Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Encontro com Lima, o sócio
Entre 2018, quando contou com o beneplácito do então ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, colocado no posto por Michel Temer, e adquiriu o controle do Banco Máxima, limpando a ficha corrida da instituição, que já havia sido investigada por fraudes financeiras, até o ano de 2024, quando comprou cinco outros bancos menores e fintechs que atuavam no limite da responsabilidade legal (beneficiado pelas vistas grossas dos departamentos de Fiscalização e de Normas e Regulação do Banco Central, presidido à época por Roberto Campos Neto), Vorcaro experimentou todos os sabores da glória. Agora, vê-se conduzido como morto-vivo no próprio cortejo fúnebre, onde os ex-convivas tentam desmentir ou esconder as iniquidades cometidas em conluio com o ex-banqueiro mineiro.
Ainda em 2018, quando fez tramitar no BC um pedido de ampliação de sua carta-patente para atuar como banqueiro, Vorcaro foi apresentado a Augusto Lima durante uma festa promovida pelo senador Ciro Nogueira. Baiano, conhecido por vender abadás de trios elétricos e organizar eventos em Salvador, Lima tinha trânsito na prefeitura de Salvador, onde quem mandava era ACM Neto e quem cumpria ordens era o amigo João Roma. Ambos dirigiam o Democratas, embrião do atual União Brasil. Também tinham laços no Palácio de Ondina, sede do governo do estado, comandado por Rui Costa (PT).

Os contatos na Bahia e a associação original com Vorcaro renderam a Lima a vitória na privatização de um programa local de “vale-refeição”, o CredCesta. Com o programa baiano na caçapa, Vorcaro viu no universo de clientes do CredCesta – 6 milhões de pessoas – um atalho imenso para ampliar sua base de correntistas e vender a eles produtos financeiros originais e inseguros, como os agora famosos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), que prometiam retornos estratosféricos de 140% do CDI; ou participações em fundos sem lastro operados pela REAG DTVM e que, em muitos casos, tinham como controlador final o cunhado do agora ex-banqueiro, Fabiano Zettel. Investidor dito “abutre”, dito àqueles que entram num negócio para maquiá-lo, fingir que o corrige e passá-lo à frente com lucros, Zettel também era originário das pregações da Lagoinha.
Quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência da República, em 2019, Vorcaro, Lima (transformado em sócio da aventura banqueira) e Zettel viram as portas do paraíso se abrirem para eles. Naquele momento, tiveram a primeira visão das possibilidades de alocar, no barro seco de Brasília o Leviatã bíblico saído dos mares da Bahia que haviam planejado para o futuro do Banco Máxima.
Por sugestão do advogado Walfrido Warde, que pagou até os estudos de branding para tal, o Máxima mudaria de nome e se converteria em Master. No futuro, entre 2021 e 2023, Warde teria como sócia em seu escritório de advocacia Roberta Gurgel, esposa à época do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal. Em seu negócio jurídico de grande porte, Walfrido Warde reúne personalidades capitais dos períodos de Dilma Rousseff, Michel Temer e mesmo Bolsonaro em suas passagens pela Presidência. A coincidência temporal da passagem da advogada Gurgel por lá, ao tempo em que o Master via nascerem seus tentáculos em Brasília, se converteria, mais à frente, em enorme vidraça para todos os envolvidos na momentânea janela de oportunidades.
Ciro Nogueira, senador pelo Piauí, presidente nacional do PP e “marechal do centrão” – o ajuntamento político com consistência de geleia ideológica, que se nutre da relação simbiótica com os chefes transitórios dos poderes em Brasília –, foi quem incorporou o baiano Lima às hostes dos financistas bíblicos de Minas. Ambicioso e imparável, sempre procurando enxergar à frente que favores poderia prestar aos amigos da política e do mercado, apresentou à trupe o então xerife do PSL, Antônio Rueda. Pernambucano, vendedor de seguros, Rueda se jactava de ter entregado a chave da legenda para o clã Bolsonaro, em 2018. Destemperado, desligado para detalhes de compliance, Rueda passou de imediato a operar ativamente na captação de negócios para o Master.
Pandemia: oportunidade em meio à crise
Em 2020, quando a pandemia se abateu sobre o mundo e de forma devastadora no Brasil, provocando até 700 mil mortes, Vorcaro seguiu à risca o receituário de Sun Tzu n’A Arte da Guerra: viu na crise pandêmica suas maiores oportunidades para se transformar no banqueiro gigante, satanicamente leviatânico, como se imaginava.
Foi naquele momento que floresceram as más ideias de montar um esquema de inside information dentro da autoridade monetária nacional – o Banco Central –, corrompendo funcionários de carreira subalternos a Campos Neto. Também foi instituída uma milícia capaz de obter informações sensíveis à segurança de adversários comerciais, personalidades públicas, jornalistas e até mesmo às paixões transitórias de Vorcaro. Denominou-a em seus aplicativos de mensagens “A Turma” e entregou a coordenação dela ao jagunço José Philippi Mourão. Há duas semanas, Mourão parece ter se suicidado na carceragem da Polícia Federal em BH (o evento carece de maiores e melhores investigações para dirimir a dúvida de que tenha sido um crime encomendado).
Por fim, Vorcaro capitaneou a criação de um núcleo de comunicação, associando-se a mais um empresário mineiro da sua geração, Flávio Carneiro, controlador da Rádio Itatiaia, sócio do Brazil Journal (publicação econômica centrada na Faria Lima), dono do site Plato.Br e negocialmente próximo do espólio da revista Istoé e de suas operações online. Não bastassem tamanhas pretensões, Carneiro ainda tinha a intenção de comprar o que restou do grupo de mídia Diários Associados, por meio de uma especialidade dos filhotes do Leviatã Master: compra de debêntures, troca de dívidas e operações com fundos abutres.
Tudo junto e misturado, a gang arregimentada por Vorcaro tinha entrado no paraíso brasiliense pelas mãos de Ciro Nogueira, contava com auxílio capital de Roberto Campos Neto no BC e tinha lá dentro do Banco Central seus “funcionários paralelos”. Além disso, mantinha linha de comunicação sólida com Antônio Rueda, que fundia o PSL com o Democratas de ACM Neto, da Bahia, amigo de Augusto Lima. Do campo da detração de imagem dos adversários e da ameaça física a desafetos, a milícia d’A Turma cuidava. E, no setor de “criação de notícias” no mercado financeiro, Flávio Carneiro afinava a orquestra, tendo por sócio numa SPE (Sociedade para Fins Específicos) o ex-pastor Zettel.
Como tudo pode melhorar para quem não segue leis ou normas jurídicas, como o Homem do Leviatã de Hobbes, mesmo no cenário de crise pandêmica, João Roma, aquele que era amigo de ACM Neto na Bahia e que estava próximo de Lima na privatização do CredCesta, havia brigado com seu criador político baiano. Porém, lançado ao voo solo a partir do Ministério da Cidadania de Bolsonaro, Roma foi impelido a novas ousadias. No cargo que ocupava, matriculou o CredCesta como instituição apta a emitir cartões de pagamentos de benefícios federais por prestação continuada, conceder créditos consignados e funcionar como vale-refeição federal. Com essa canetada, João Roma ampliou de 6 milhões para 16 milhões a base de clientes do CredCesta/Master. Em consequência, multiplicou também o universo de compradores dos produtos financeiros alavancados e falsos do Master e dos fundos abutres da REAG DTVM.
2021, o ano da escalada Master
Alçado ao posto de ministro da Casa Civil em 2021, tendo recebido a caneta para fazer todas as nomeações da República e sublocando o poder financeiro da gestão Jair Bolsonaro a seu sócio no Congresso, Ciro Nogueira apresentou Vorcaro a um novo operador capital de seu esquema em Brasília: Arthur Lira.
Então presidente da Câmara dos Deputados, afamado por uns, difamado por outros, Lira era tido por fazer e acontecer tudo o que quisesse fazer e acontecer. Foi, então, colocado no circuito de funcionamento da engrenagem política do Master e das traficâncias operacionais da REAG DTVM. Como se aquilo não bastasse à engorda da hidra colossal do Leviatã, juntos, Ciro e Lira transformam Vorcaro e Lima em grandes amigos de outros dois ministros da equipe de Bolsonaro – Fábio Faria, das Comunicações, e Flávia Arruda, da Articulação Política.
Lima e Flávia se apaixonaram nos primeiros encontros. Faria, um festeiro contumaz do anedotário brasiliense, conquistou o coração pagão do próprio Vorcaro a ponto de entabular com ele a venda de um negócio de sua família no Rio Grande do Norte, que estava havia 15 anos encalhado, uma usina eólica. Como comissão por ter entregue os moinhos de vento instalados nos antigos salares da família Faria em Galinhos, Faria recebeu R$ 70 milhões do cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, logo depois que deixou o ministério de Jair Bolsonaro.

Cadeia de chantagens e ilegalidades
Em paralelo ao círculo de poder e influência em Brasília, agigantou-se a voracidade do monstro financeiro que Vorcaro, Lima e Zettel haviam construído, com o beneplácito e as outorgas necessárias de Campos Neto. Mas, em dado momento, o dinheiro escasseou e os donos das vistas-grossas do BC, mesmo regiamente pagos por suas consultorias ilegais contratadas sob a administração anterior do Banco Central, ligaram os alertas.
Corria o segundo semestre de 2024 e Roberto Campos Neto se preparava para deixar o comando do Banco Central ao fim de seu mandato. Foi ali, mais precisamente em outubro de 2024, que o mesmo Ciro Nogueira, ombreado por Antônio Rueda, estabeleceu a meta de fazer o Banco Regional de Brasília comprar o Master a qualquer preço. Era uma tábua de salvação da intrépida trupe. Todos foram, juntos, levantar dinheiro onde houvesse facilidade política para tal.
Os fundos previdenciários administrados por Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), como o RioPrevidência (ligado a Cláudio Castro), o MaceióPrev (ligado a Arthur Lira), o AmPrev, do Amapá (ligado ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre), e o AmazonasPrev (ligado ao governador bolsonarista do Amazonas, Wilson Lima) significavam imensas oportunidades. Castro, em seu linguajar claudicante, ampliou o espectro da caça destinada a saciar o Leviatã alquebrado e faminto e conectou os cuidadores do Master a fundos de pensão de prefeituras fluminenses.
Em janeiro de 2025, o economista Gabriel Galípolo assumiu a presidência do Banco Central. Em 1º de março do ano passado, o BRB anunciou que compraria o Master à revelia do BC. A autoridade monetária lembrou aos atores do processo que ela tinha de autorizar a compra. Em setembro, a compra do Master pelo BRB foi desautorizada. Naquele mesmo mês, Galípolo entregou à Polícia Federal e ao Ministério Público Federal o rol de investigações internas do BC sobre o Master. Em 18 de novembro de 2025, o Banco Master foi liquidado extrajudicialmente. O resto é a história que está sendo contada nos últimos meses, inclusive com o cerco do ex-banqueiro Daniel Vorcaro ao Poder Judiciário brasileiro.
O roteiro traçado até aqui não autoriza que se tire do oceano de maledicências, mentiras e fake news da direita e da extrema direita brasileira a gênese e a gestação do Leviatã de Daniel Vorcaro, do pai dele, Henrique Vorcaro, do cérebro da Lagoinha, André Valadão, e de seus obreiros Fabiano Zettel e Nikolas Ferreira. Sim, Nikolas Ferreira: o deputado do PL de Minas Gerais surge no fim dessa tragédia como obreiro em construção da cadeia de chantagens e ilegalidades da Lagoinha, denominação religiosa onde pregou e por cujo caixa foi pago, em 2022, para fazer campanha para Jair Bolsonaro.
Definitivamente, o Leviatã Master é uma hidra malsinada das alas mais pérfidas da direita brasileira. Egoístas, egocêntricos e inseguros de suas relações humanas e da capacidade de provarem serem limpos os negócios que faziam, os homens do Master passaram a devorar uns aos outros, a partir de todos os rastros de fraudes bancárias e maquinações financeiras corruptas que o monstro deixou em sua trajetória de ascensão.
A natureza dessa criatura desumana, o Leviatã desossado e encarniçado que Daniel Vorcaro, Augusto Lima e Fabiano Zettel queriam exibir ao mundo como negócio próprio, capaz de ser tão grande que se tornaria inquebrável, apodrece exposto nos gramados da Esplanada dos Ministérios e nas pedras portuguesas da calçada da Praça dos Três Poderes, em Brasília, sem deixar dúvidas: Thomas Hobbes estava certo, já em 1651, quando anteviu o rompimento do Contrato Social entre o povo, os operadores do poder, as maquinações do Judiciário e a necessidade de tocar uma Nação em frente expurgando dela o que há de asqueroso e de mal feito. Só o expurgo e a delimitação dos espaços de poder permitem visões de futuro.