Quando as águas começaram a baixar no Rio Grande do Sul depois das enchentes que destruíram cidades inteiras dois anos atrás, surgiu uma espécie de disputa sobre a memória da tragédia. Enquanto a lama ainda estava fresca, enquanto as pessoas ainda procuravam fotografias de família dentro de casas destruídas e tentavam entender onde iriam dormir na semana seguinte, todos falavam do assunto. Governadores, prefeitos, empresários, jornalistas. A tragédia ocupava as manchetes, as redes sociais e as conversas de bar. Depois, como sempre acontece, ela começou a desaparecer. A água recuou, as câmeras foram embora e o país voltou a discutir outras coisas, relegando àquele momento o tom de onda anômala que nunca mais iria acontecer. O problema é que o alarme já voltou a tocar.
Passei boa parte daquele período percorrendo cidades atingidas pela enchente. Vi cenas que jamais imaginei encontrar no Brasil. Não porque fossem inéditas – infelizmente não eram –, mas porque a escala era difícil de compreender para quem tinha nascido naquele chão sem jamais ter visto algo parecido. Havia bairros inteiros transformados em paisagens irreconhecíveis, o famoso “cenário de guerra” descrito por jornalistas com algum exagero. Naquele caso, no entanto, não havia descrição mais precisa.