As memórias de Galeazzo Ciano, genro de Mussolini e um dos homens fortes do fascismo italiano, são um documento desconfortável: revelam um regime que não apenas imaginava o mundo à sua maneira, mas o manipulava, o forçava e o redesenhava para seus interesses íntimos, misturando ideologia, ambição e brutalidade. Ciano descreve a política internacional dos anos 1930-40 como um tabuleiro de poder, onde a narrativa é uma arma, a diplomacia é um teatro e a violência é apenas outro instrumento no cofre do Estado.
Suas memórias podem ser lidas em seus diários, publicados pela primeira vez em 1946. Os escritos, que cobrem o período de 1937 a 1943, foram contrabandeados para a Suíça por sua esposa, Edda Ciano, antes da execução de Galeazzo, em janeiro de 1944. Seu assassinato por “traição” foi ordenado por Mussolini, seu sogro. Os diários de uma Itália em guerra, sob a dominância do fascismo, são um documento histórico fundamental para entender o mundo de então e o mundo de agora.
Hoje, quase um século depois, não estamos diante de um fascismo clássico, mas vemos ecos perturbadoramente semelhantes na política externa dos Estados Unidos sob Donald Trump – ecos que se expressam de forma mais clara e mais brutal na crise venezuelana.
Trump, como bem mostram as ações concretas de seu governo, reedita doutrinas antigas sob roupagem nova: ele não apenas empurra sanções e pressões econômicas; ele prepara intervenções armadas, desloca meios militares no Caribe, assassina pescadores com disparos de drones invisíveis, autoriza operações da CIA e afirma que “os dias de Maduro estão contados”, mesmo sem um plano diplomático claro. Por fim, entra num país estrangeiro e sequestra o casal presidencial.
A Venezuela, nesta lógica, torna-se um espelho gigante. O que começa como discurso moral – “derrubar um regime que viola direitos humanos e ameaça a segurança regional” –, rapidamente, se transforma em algo muito mais concreto: projeção de poder, disputa por recursos (o petróleo que corre sob o solo venezuelano, mas não só) e um reposicionamento estratégico dos Estados Unidos frente a rivais globais e regionais. Maduro, preso numa gaiola de vidro, agora vira um adereço no Salão Oval, onde todos os chefes de Estado se sentam. A mirada é assustadora.
Assim como Ciano descrevia a política internacional do eixo fascista como algo que operava por cima das populações e ao redor de interesses que nunca eram confessados, a política de Trump para a Venezuela não funciona apenas sobre a narrativa oficial. Por trás da retórica sobre “lutar contra o narcotráfico” ou “restaurar a democracia”, há interesses geopolíticos, econômicos e estratégicos que jamais aparecem completos nas manchetes das agências internacionais, mesmo que muitos sejam confessados pelo próprio regime estadunidense.
Este paralelo não é simplista nem uma acusação gratuita. É, antes, um alerta histórico: regimes diferentes em épocas diferentes podem usar as mesmas técnicas – de narrativa, de mobilização e de poder – para mascarar objetivos que, raramente, são os que anunciam em público. Ciano aprendeu isso da pior maneira possível e deixou registrado: o poder internacional tende a se vestir de virtude enquanto persegue seus próprios fins. O poder nunca é suficiente; a sede por mandos e desmandos nunca pode ser saciada.
Não estamos em 1939, mas as forças que moldam as relações internacionais continuam a operar dessa mesma maneira: sob o verniz da moral, do interesse superior, da luta contra o mal. A Venezuela não é uma exceção, é uma nova e velha regra. Ao que tudo indica, o mundo será novamente dividido como um bolo, e nós somos as fatias a serem cortadas.
Boa leitura.