Carta ao Leitor — A liturgia do suplício

A melancólica festa da punição e as propostas da ultradireita para a segurança pública

Criação de Jeremy Bentham, em 1785, o Panóptico é uma concepção arquitetônica de prisão circular com uma torre de vigia espetada no centro da construção. Dali, o guarda pode observar os prisioneiros por tempo indeterminado, sem que eles saibam se, de fato, estão sendo vigiados ou não a cada momento. A ideia do filósofo e jurista inglês era a de que, com isso, os prisioneiros internalizassem os mecanismos de controle e disciplina, de modo que fosse possível gerar o máximo de ordem com o mínimo de custo e pessoal.

Em Vigiar e Punir – História da Violência nas Prisões, de 1975, o filósofo francês Michel Foucault ampliou o conceito do Panóptico para descrever as sociedades contemporâneas baseadas no poder disciplinar e na autovigilância. “O Panóptico não deve ser compreendido como um edifício onírico: é o diagrama de um mecanismo de poder levado à sua forma ideal (…) É polivalente em suas aplicações: serve para emendar os prisioneiros, mas também para cuidar dos doentes, instruir os escolares, guardar os loucos, fiscalizar os operários, fazer trabalhar os mendigos e ociosos (…) Em cada uma de suas aplicações, permite aperfeiçoar o exercício do poder”.

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