Carta ao Leitor – O fim das ilusões

O consenso liberal desabou, e o que sobra é um planeta com medo do próprio espelho

A esta altura dos acontecimentos, já parece bastante claro para todo o mundo que o sistema internacional criado depois da Segunda Guerra ruiu. Esqueça ONU e OMC, esqueça os entes correlatos capazes de equilibrar os pratos do planeta. Os pratos mesmos foram todos quebrados. O mundo está voltando a viver como na Idade Média ou alguma espécie de Medioevo globalizado: cercas, castelos, feudos e senhores (hoje, mais digitais do que nunca). O muro é algorítmico, o castelo é financeiro e os servos têm contas em aplicativos fofinhos.

O mito da globalização – aquele que vendia a ideia de que o livre comércio traria paz e prosperidade – não morreu ontem, mas em 2008, quando o sistema financeiro americano explodiu e levou o mundo de arrasta pra cima. A crise do subprime quebrou bancos, mas também quebrou algo mais profundo: a crença de que o mercado se autorregula, de que o lucro é um motor benigno e de que o Estado é apenas um obstáculo. Desde então, o mundo vive uma ressaca moral que nunca passou. A classe média empobreceu, os pobres viraram miseráveis e o Estado torrou trilhões de dinheiros para salvar alguns poucos afortunados. O mundo nunca viu tantos bilionários. São todos um tipo de subprime babies, surgidos da boia de salvação pós-2008.

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