Barraco de coroneis na cela da Papudinha

Convivência forçada na área especial da Papuda, onde também cumprem pena Bolsonaro e Anderson Torres, expõe disputa interna na cúpula da PMDF do 8 de janeiro de 2023
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Por Cleber Lourenço

Tem coisa que relatório nenhum consegue esconder. E, às vezes, nem precisa de quebra de sigilo: basta colocar todo mundo junto na mesma cela. É exatamente o que acontece com a antiga cúpula da Polícia Militar do Distrito Federal no caso do 8 de janeiro. Fábio Augusto Vieira, Klépter Rosa Gonçalves, Jorge Eduardo Naime, Paulo José Ferreira de Sousa Bezerra e Marcelo Casimiro Vasconcelos Rodrigues — o núcleo duro da cadeia de comando — divide o mesmo espaço no Complexo Penitenciário da Papuda.

Não é um grupo exatamente harmonioso. A cela virou um ambiente de tensão constante, com discussões, divergências e um incômodo difícil de disfarçar. Na hora do banho de sol, ainda desprezam contato e sequer trocam olhares com o ex-ministro Anderson Torres, que respondia pela Secretaria de Segurança do Distrito Federal no dia do golpe de Estado e também está preso lá. A convivência forçada colocou frente a frente oficiais que já tinham diferenças antes da crise — e que agora disputam, na prática, quem carrega qual pedaço da responsabilidade.

O epicentro do problema está na relação entre Fábio Augusto e Jorge Eduardo Naime. Não é só divergência. É disputa. O desgaste entre os dois antecede o 8 de janeiro de 2023, com suspeitas de que Naime buscava enfraquecer Fábio dentro da estrutura da corporação. Na prática, era uma briga entre quem tinha o cargo e quem tinha o controle.

Fábio era o comandante. Naime operava a máquina. Esse tipo de arranjo funciona — até parar de funcionar. E, aquele dia 8, há três anos, parou. O resultado foi um comando dividido, em que autoridade formal e poder operacional não estavam alinhados. Quando o plano falhou, essa fratura deixou de ser um detalhe interno e virou um problema central da investigação. Nesse jogo, a regra é simples: o limite da responsabilidade de um começa exatamente onde começa a culpa do outro.

No meio desse ambiente tóxico, o ex-secretário de Segurança do DF, Anderson Torres, aparece como figura isolada. Segundo relatos, houve encontro no pátio da unidade — sem conversa, sem aproximação e com um silêncio que diz mais do que qualquer depoimento. O recado é claro: dentro da PM, a percepção é de que a conta não foi dividida na mesma proporção. No papel, a hierarquia continua intacta. Na prática, a cena é outra: cinco coronéis, uma cela e nenhuma harmonia.

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