Bancos são instituições poderosas no capitalismo. Não é por acaso, portanto, que o sistema – normalmente através do Estado – atue permanentemente para preservá-los de instabilidades.
Em 2008, quando a bolha imobiliária explodiu nos Estados Unidos, dando origem à maior crise econômica desde a grande depressão de 1929 e contaminando o sistema financeiro do mundo todo, o socorro dos governos mais poderosos do planeta chegou primeiro aos bancos do que às pessoas. Só no governo Obama, foram mais de US$ 700 bilhões injetados diretamente nas instituições bancárias em poucas semanas.
Por isso, a quebra de um banco no capitalismo é sempre vista como prenúncio de problemas. No Brasil, não foram poucos os casos de instituições bancárias que entraram em apuros: Banco Nacional, Bamerindus, Banco Santos, Panamericano, Banco Econômico, dentre outros. A liquidação do Banco Master, portanto, não é uma novidade. Nem mesmo os indícios de fraude seriam algo inédito quando se trata do mercado financeiro brasileiro.
O que salta aos olhos, para além das ameaças inerentes que a quebra de um banco traz à economia de qualquer país, é o esforço de atores da política e do Judiciário para incidir sobre o processo de liquidação do Master. Vale lembrar: o banco chamou atenção quando da tentativa de aquisição pelo BRB, banco público de Brasília, questionada pelas autoridades.
Articulação política
De lá pra cá, vieram à tona evidências de graves irregularidades – incluindo fraudes de mais de R$ 12 bilhões em títulos sem lastro – que ameaçavam correntistas e investidores e colocavam em risco toda a economia do país. A consequência foi a liquidação do Master, determinada pelo Banco Central, com argumentos técnicos, para evitar um efeito contágio.
Tudo andava mais ou menos dentro do previsto até que o ministro do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e o Tribunal de Contas da União, entraram na jogada.
Toffoli atendeu a um pedido da defesa de Daniel Vorcaro, controlador do banco, para que futuras diligências e medidas de investigação sejam previamente submetidas ao crivo do Supremo, que conduzirá as investigações sobre as possíveis fraudes promovidas pelo Master. A medida não é comum.
Em paralelo, o TCU exigiu explicações detalhadas do Banco Central, sob o argumento de que a nota técnica apresentada pelo órgão não teria sido suficiente, e insinuando que a liquidação teria sido precipitada. A ofensiva tem cheiro forte de articulação política: o relator do caso no TCU, Jhonatan de Jesus, foi indicado ao cargo com forte apoio do centrão, bloco sempre pronto a defender interesses privados, desde que bem remunerados, é claro.

No meio de tudo isso, está o nome do banqueiro Daniel Vorcaro. Ele foi preso na Operação Compliance Zero numa investigação que apura fraudes financeiras e emissão de títulos falsos, que só vieram à tona após relutância em explicações convincentes sobre a saúde financeira da instituição. Reportagens indicaram que o banco contratou escritórios com laços familiares de ministros do STF e circulou em ambientes da cúpula do Congresso Nacional para tentar reverter a decisão do BC.
E aqui um alerta: não se trata de santificar o Banco Central; instituições técnicas podem errar, decisões podem ser debatidas e processos revistos. Mas há dois pontos inegáveis: a) a liquidação do Banco Master foi motivada por irregularidades materiais, que colocavam em risco correntistas, investidores e o próprio sistema financeiro; e b) a atuação do Banco Central foi coesa em resguardar o interesse coletivo, inclusive, colocando em risco os interesses imediatos de grandes detentores de capital em defesa da saúde macroeconômica.
Mesmo diante de pressões externas, o rigor técnico prevaleceu – e isso é algo que merece reconhecimento, especialmente num contexto em que a regulação financeira global é constantemente atacada.
Mas, se a pressão política sobre o BC em favor dos interesses de Vorcaro não fosse suficiente, o conflito transbordou para as redes sociais, com uma movimentação organizada de influenciadores nas últimas semanas para atacar o Banco Central e sugerir que sua atuação foi injusta ou precipitada.
Ofensiva midiática
Segundo reportagem do ICL, contratos de até R$ 2 milhões foram firmados para alimentar essa narrativa, inclusive, com ataques ao presidente do BC, Gabriel Galípolo, e sua família. Entre os influenciadores contratados, há vários ligados diretamente ao bolsonarismo, interessados em criar uma crise financeiro no ano da eleição.
O que está em jogo, como vemos, não é apenas quem fica com o Banco Master. É quem decide o destino das instituições públicas no Brasil. Do lado de cá, temos uma autoridade técnica – o Banco Central –, que atuou dentro de suas atribuições para conter uma falência catastrófica e proteger credores, acionistas e a própria confiança no sistema financeiro. Do outro, temos um festival de interferências políticas, tentativas de reverter decisões técnicas através de cortes ilegítimos para tanto, e uma ofensiva midiática paga que busca deslegitimar uma decisão razoável e justificada.
Esse episódio, como sabemos, revela que o capitalismo no Brasil funciona em duas frequências. De um lado, a exigência de legalidade e alguma transparência para garantir a “confiança” do mercado. De outro, a barbárie capitalista, que tenta atropelar as regras do jogo que ele mesmo definiu. Um capitalismo meio miliciano, meio clandestino, meio gangster. Duas faces do mesmo sistema.
No olho do furacão, está a credibilidade do Brasil como república que valoriza regras, instituições e o interesse coletivo – e não atalhos para garantir o lucro fácil de quem tem acesso aos corredores do poder.