A poeira mais densa do drama venezuelano apenas começou a baixar. Porém, a recuperação dos dados e dos movimentos dos principais players desse cenário, além da desfaçatez das declarações do principal desses jogadores, permitem visualizar as linhas mestre das três maiores perspectivas em jogo no intrincado xadrez geopolítico da questão Venezuela pós-Maduro.
A primeira delas exige um reconhecimento bem objetivo, com palavras duras e bem diretas: o presidente Maduro foi “entregue”, e não sequestrado ou capturado.
O quadro político da Venezuela, na era Trump 2, revelava forte luta pelo poder entres três grupos políticos, todos oriundos do útero chavista, bem diferenciados enquanto ambições políticas, ideológicas e de sobrevivência financeira. Nos três grupos, a figura de Maduro não se encaixava mais, em qualquer sentido.
Negociações secretas
O primeiro destes grupos é o de Delcy e Jorge Rodriguez, ambos com formação nos EUA (ela também na França). Ele psiquiatra, ela advogada. Jorge é presidente da Assembleia Nacional. Delcy foi ministra das Relações Exteriores, entre 2014 e 2018, e ministra das Finanças e da Energia. entre 2020 e 2024.
Como gestora da economia – quando as sanções financeiras foram retiradas por Biden, em agosto de 2023, na esteira do acordo de Barbados, em troca de eleições livres e justas –, Delcy, literalmente, conseguiu obter alguma ordem na esfera econômica do país, contendo a forte desvalorização cambial e praticando alguma liberalização da economia, o que permitiu a recuperação do PIB. Por essa razão, foi escolhida vice-presidente na chapa de Maduro para as eleições de 2024.
Nessa condição, também, a partir de abril de 2025, iniciou negociações secretas com o secretário de Estado Marco Rúbio (agora reveladas pela mídia americana) para levantar sanções dos EUA para a indústria petrolífera e cuidar da reinserção do chavismo na ordem internacional.
O segundo grupo, comandado por Diosdado Cabello, é expressamente ideológico. Eleito representante na Assembleia desde a morte de Hugo Chávez, Cabello tem forte representação política. Após as denúncias de fraude nas eleições e das múltiplas sanções internacionais, foi nomeado ministro do Interior e Justiça.
Nesse posto, Cabello controla a Guarda Nacional, a poderosa Direção Geral de Contra Inteligência Militar (DGCIM), que tem forte presença dos agentes da inteligência cubana. É ele também quem controla as poderosas milícias civis armadas, que monitoram as ruas das maiores cidades do país.

O terceiro grupo é, essencialmente, do estrato militar, em torno do general Vladimir Padriño Lopes, ministro da Defesa. Esse grupo tem, também, forte presença política e econômica, porque toda a vida econômica na Venezuela, toda mesmo, não só na PDVSA, a estatal do petróleo, tem ativa presença de militares na gestão das empresas.
O fato é que esses três grupos não precisavam mais da desgastada figura de Nicolás Maduro para seus projetos políticos. Efetivamente.
Fora a feroz luta política interna, a segunda grande perspectiva para entender o cenário venezuelano pós-Maduro é a imposição da Doutrina Donroe, a corruptela semântica proposta pelo presidente Trump para definir como vê e como pretende tratar a América Latina.
A Doutrina Monroe, do presidente James Monroe, 1823, previa uma “América para os americanos” frente ao conturbado mundo pós napoleônico. Trump descreveu o que queria de forma clara: “A Doutrina Monroe é algo muito importante, mas nós a superamos em muito. Eles agora a chamam de Doutrina Donroe”. A frase foi dita horas depois da captura de Maduro na Venezuela. E tem o sentido de “demonstração dramática de Trump de estabelecer a hegemonia dos EUA em todo o hemisfério ocidental”, como analisou Gideon Rachman em artigo publicado no Financial Times , edição de 6/1/2026.
O articulista de uma das principais “bíblias” da ordem liberal avisa que as implicações da mudança do regime na Venezuela são “verdadeiramente globais”. E Rachaman define que a Doutrina Donroe tem a ver com “articulação com a China em torno de esferas de influência” das grandes potencias. E conclui: a operação na Venezuela sugere que Trump cultivará outras intervenções no “quintal dos EUA definido de forma mais abrangente: hemisfério ocidental!” Sem meias palavras. Inclusive em relação à europeia Groenlândia.
Mas a terceira perspectiva que emana da tragédia Venezuela é a obvia cautela com a eleição de novembro nos EUA que renovará os 435 assentos da Câmara de Deputados, a Casa dos Representantes, e um terço do Senado.
O peso da inflação a partir do tarifaço de Trump, desde 2 de abril do ano passado, começa a cobrar seu preço, na perda de poder de compra do eleitor médio americano. Esse fato terá graves consequências eleitorais. O presidente Trump percebeu o risco.
Na campanha eleitoral de 2024, Trump prometeu acabar com as guerras de Gaza e da Ucrania “no dia seguinte” que tomasse posse. Nada disso aconteceu. A opção de uma “conquista” na Venezuela era muito mais realizável para ter um feito internacional para “chamar de seu”.
A revista The Economist, edição de 9/11/2025, percebeu com clareza esse fato: “Uma pesquisa da YouGov no mês passado revelou que a maioria dos americanos se opõe a uma ação militar na Venezuela. Mas, outra pesquisa, da AtlasIntel, mostrou que a maioria dos latino-americanos apoiava a ideia”. Esse é o ponto. O eleitor latino poderá ser decisivo nos seis estados pêndulo, que decidem qualquer eleição nos EUA.
Cereja do bolo
Essas três perspectivas que emanam da tragédia venezuelana – a luta interna pelo poder, a imposição da Doutrina Donroe e as preocupações eleitorais – não são a cereja do bolo. O petróleo venezuelano é esta cereja. Com múltiplos sentidos. O maior deles, com certeza, é o petróleo futuro: a Venezuela é o estado-mãe da maior reserva de petróleo mundial, maior do que a da Arábia Saudita. E petróleo barato, fóssil mesmo, não o de xisto, caro e perigoso ambientalmente, como é explorado nos EUA. Prevenção quanto ao futuro energético americano não renovável está no sentido dessa “tomada” do maior lençol petrolífero do mundo, o venezuelano.

Mas… a questão petróleo não se encerra aí. Chama a atenção a urgência de tomar, de imediato, a produção e a venda do óleo venezuelano. A bacia petrolífera não sairá geologicamente do subsolo venezuelano. Não necessitaria tamanha urgência, a começar dos famosos 50 milhões de barris a serem entregues, que não são nada no consumo mundial, que é de 100 milhões de barris /dia. A Venezuela, hoje, produz menos de 900 mil barris, ou seja, menos de 1% da produção mundial. Por que a pressa em tomar a gestão e a distribuição do óleo de Caracas?
A resposta dessa pressa de Trump é outra e está misturada até com o medo do impeachment, com uma derrota em novembro que o faça perder maioria em uma das casas do Congresso. Estrangular rapidamente o regime de Cuba justifica essa pressa. Cuba consome modestos 70 mil barris/dia. A Venezuela, desde Chavez, garante petróleo bem subsidiado a Cuba. Maduro, no ano passado, garantiu 30 mil barris dia ao isolado regime cabano.
Aqui começa a explicação da pressa. Como reconheceu artigo do Financial Times (edição de 7/1/2026, de John Paul Rathbone), Cuba não tem onde comprar óleo com as sanções americanas, fora da Venezuela. E usa óleo para gerar energia como for possível. Na maioria dos dias, os cortes de energia são de 18 horas, mesmo em Havana. Nos cálculos de Trump, sem uma gota de petróleo venezuelano, o regime cubano “está com os dias contados”, como garantiu o senador republicano Lindsay Graham, ao lado de sorridente Trump
Uma debacle do regime cubano fará uma reviravolta eleitoral nos EUA, não só nas eleições de novembro. Nos estados pêndulos, especialmente a Florida, o voto latino terá um viés trumpista, mesmo com inflação. Poderá ser decisivo. E mais, poderá construir uma opção “fortíssima” da candidatura do filho de imigrante cubano, de extrema direita, Marco Rubio. Trump parece inclinado, nessa direção, para seu legado.
Para alcançar essa “virada” de corações e mentes nos eleitores trumpistas, apesar da inflação das tarifas, o regime cubano precisa colapsar. Petróleo é sempre o caminho para este tipo de colapso impulsionado, faz muito tempo. Os estrategistas da Casa Branca sabem disso muito bem. O silêncio democrata quanto a Venezuela tem muito desse receio: passar uma imagem de proteção à Cuba e fortalecer a candidatura Marco Rubio.
Esse quadro faz pensar no quanto o xadrez geopolítico de imposição de esferas de influências fortalece o legado da era Trump. Esse ponto é essencial para pensar como a Venezuela se transformou no cenário da tragédia da continuidade de uma era perversa. Uma das mais preocupantes da História.