Todas as pesquisas de opinião que questionam quais são as maiores preocupações dos brasileiros captam um mesmo fenômeno: em 2026, eleitores irão às urnas com o tema da segurança pública na cabeça. Ou, ao menos, com a sensação de insegurança na cabeça – dois fenômenos distintos que, por vezes, se sobrepõem.
Alguns irão às urnas votar em quem subscreve operações como a que vimos, recentemente, no Rio de Janeiro. Há quem tenha visto as cenas das viaturas da Faria Lima e vá às urnas desejando mais ações como a Operação Carbono Oculto. São aqueles que apostaram menos no binômio ostensividade policial e encarceramento em massa e mais na inteligência no combate ao crime organizado. Os que querem uma polícia que seja parte da solução, não do problema.
Por fim, alguns irão votar sem saber exatamente o que defendem no âmbito da segurança pública, mas se sentindo vulneráveis e buscando candidatos que falem do tema com propriedade e aplaquem essa ansiedade.
Todos estes perfis vão demandar de seus candidatos ações no que tange à segurança pública e vão se deparar com um vasto cardápio de nomes de todos os campos políticos. Vai dar trabalho diferenciar o joio do trigo.
Assim, um desafio para o campo progressista se impõe: como falar sobre o tema? Que lideranças progressistas trarão para o debate propostas coerentes com os ideais de seu campo e que, simultaneamente, sejam enérgicas e acalmem os que se sentem desprotegidos?
Sabidamente, o campo progressista enfrenta dificuldades em parir e comunicar propostas robustas para a segurança pública. A direita, por sua vez, nada de braçadas quando fala da questão. As narrativas de conservadores e reacionários sobre segurança pública soam sempre mais eloquentes.
É bem verdade que vimos, no ano de 2025, emergir diversas movimentações desenhadas para enfrentar a criminalidade. A PEC da Segurança, o PL Antifacção e a CPI do Crime Organizado são algumas de tais movimentações.
Contudo, cada uma dessas propostas apresenta fragilidades. A PEC da Segurança é vista, pelo campo progressista, como uma contribuição relevante, mas insuficiente. A PEC, que é provavelmente a maior aposta do governo federal que versa sobre segurança pública, não avança em dilemas complexos como, por exemplo, a definição de competências.
O PL Antifacção também traz problemas, como a falta de debate público informado e de alto nível sobre seu conteúdo. Se mal amarrado, o PL pode terminar por criminalizar movimentos sociais. A CPI do Crime Organizado, enfim, escancara rachas internos do próprio campo progressista e pode gerar resultados extremamente problemáticos. Por enquanto, nenhuma dessas iniciativas foi levada a termo.
E o que um projeto abrangente para a segurança pública deveria abordar? Que desafios extrapolam as atividades acima elencadas e continuam sem respostas? Seguem breves reflexões sobre dois destes desafios.
Territórios ocupados
O primeiro ponto diz respeito à necessidade de políticas públicas baseadas em evidências que permitam a retomada de territórios ocupados por facções, milícias e grupos que controlam regiões onde são perpetrados crimes ambientais.
Trata-se de uma questão crítica, para a qual todos os que buscam se eleger em 2026 deveriam apresentar respostas. É justo dizer que a experiência de maior êxito nessa linha foi o programa de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), realizado em algumas favelas do Rio de Janeiro. Entretanto, apesar dos avanços que as UPPs encarnaram, a experiência também tinha debilidades que comprometeram seus resultados.
A aproximação das forças policiais das comunidades, pedra fundamental do programa, nunca deu os frutos esperados, dadas as falhas de comando, controle, logística e treinamento adequado. Os escândalos relacionados ao abuso do uso de força, tortura e corrupção também abalaram a confiança no projeto. Especialistas apontam ainda para a subestimação do poder de reação do tráfico como uma das razões do fracasso da iniciativa.
Ademais, o programa era caro e, portanto, insustentável no médio e longo prazo. Por isso, tornou-se uma experiência difícil de ganhar escala ou ser replicada. Além disso, as UPPs só alcançariam os resultados desejados se fossem uma ação dentre muitas complementares, implementadas nos territórios ocupados.
O ex-secretário Nacional de Segurança Pública e ex-subsecretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro (uma das mentes mais brilhantes por trás das UPPs) Luiz Eduardo Soares disse, em 2017, em entrevista concedida ao UOL, que as UPPs fracassaram porque elas sozinhas não bastavam.
Desde então, muito pouco foi feito por lideranças progressistas para a retomada de territórios ocupados com a ousadia, a ambição e o caráter inovador das UPPs. Em contrapartida, a presença do crime organizado – em especial do PCC e do CV – foi ganhando capilaridade em todo o Brasil.
Candidatos do campo viável do setor progressista para a Presidência da República, para governos de estados, Senado e Câmara Federal precisarão ter algo contundente a dizer sobre segurança pública, sob pena de não conseguirem estabelecer conexões promissoras com o eleitorado. Candidaturas que forem negligentes nesse ponto terão, certamente, um desempenho pior nas urnas.
Da porta para dentro
Em segundo lugar, qualquer candidato ou candidata que deseje ter a caneta na mão em 2027 precisará falar de segurança para meninas e mulheres.
De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil teve, em 2024, o maior número de registros de estupros e estupros de vulnerável de sua história. Vivemos uma epidemia de violência contra mulheres em nosso país. O 190 foi acionado para atuar em casos de violência de gênero duas vezes por minuto naquele ano. As tentativas de feminicídio aumentaram 19%. Os registros de stalking subiram 18,2%. Oito em cada 10 mulheres vítimas de feminicídios morreram nas mãos de seus companheiros ou ex-companheiros.
Quanto às medidas protetivas de urgência (MPU) descumpridas pelo agressor, houve aumento de aproximadamente 11%. Se olharmos para as pesquisas de vitimização, 91,8% das mulheres dizem que a violência sofrida no ano passado teve testemunhas e 27% responderam que as testemunhas foram seus filhos.

Além disso, pesquisas de vitimização permitem a captura de dimensões do fenômeno nos registros das Secretarias de Segurança Pública e do SUS.
A estratégia nos permite observar a subnotificação, uma vez que as mulheres responderam que 47,4% das vítimas não fez nada após as violências sofridas. Se somarmos este contingente às mulheres que procuraram a ajuda de familiares, amigos e lideranças religiosas, chegamos a uma cifra assustadora: 87,8% das mulheres não recorreram ao Estado após episódios de violência grave.
Se há desafios gigantescos quando pensamos sobre o que é fazer segurança pública no Brasil, há desafios ainda maiores quando nos perguntamos sobre como fazer segurança pública para meninas e mulheres. Fazer segurança pública da porta para fora é difícil, uma chaga brasileira. Fazer segurança pública da porta para dentro é ainda mais complexo.
Em 2026, ouviremos quase todos os postulantes ao Executivo e ao Legislativo falarem sobre segurança pública. Caberá ao eleitorado discernir entre quem fala do assunto da boca para fora e não apresenta planos de trabalhos razoáveis, baseados em evidências e com condições de dar conta do recado, e quem fala de segurança pública, frequentemente sem tanto potencial para a lacração, mas traz debaixo do braço conjuntos pujantes de propostas para o tema.
Temos que ir às urnas no ano que vem com a ideia clássica de Nelson Mandela em mente: segurança não é algo que simplesmente acontece, ela é o resultado de consensos coletivos construídos a duras penas e de investimento alto. Ou seja, não há atalhos ou bala de prata. Bons resultados no campo da segurança pública só são obtidos se homens e mulheres na política estiverem dispostos a gastar dinheiro e sola de sapato.