Trevas na escuridão: Temer tem seu ‘Dark Horse’

Filme hagiográfico do ex-vice decorativo de Dilma Rousseff acalenta delírio do que há de pior no Brasil

No documentário 963 Dias, o cineasta Bruno Barreto, um dos melhores diretores e roteiristas do cinema brasileiro, deixa de abordar pontos essenciais da escalada burlesca de Michel Temer até a usurpação da cadeira presidencial de Dilma Rousseff. Também deixa de trazer à superfície a verdade do diálogo nefasto ocorrido no subsolo do Palácio do Jaburu entre o empresário Joesley Batista e o personagem central da hagiografia que dirigiu e, agora, coloca em exibição no mercado cinematográfico. Da mesma forma, dribla o fato contemporâneo mais obscuro da nossa história: a entrega dos aparatos de comunicação e de mobilização capilar das Forças Armadas brasileiras ao destrambelhado esquema de pré-campanha de Jair Bolsonaro, em maio de 2018.

Sem mergulhar fundo no pântano onde tentam sufocar esses fatos, qualquer pretensão de se escrever ou rodar uma biografia do homem que se dizia “vice decorativo” de Dilma Rousseff resultará numa hagiografia. É narrativa para edulcorar passagens amargas e mistificar maus passos dados por coadjuvantes medíocres, repentinamente, alçados à ribalta. Assim, 963 Dias, o documentário de Barreto que omite passagens ruins da trajetória de Temer no processo de usurpação do poder, não é em nada diferente da ficção equestre Dark Horse, rodada por um plantel de quinta categoria da Série C do cinema comercial e financiada com dinheiro sujo saído dos cofres corrompidos do Banco Master. A propósito: Daniel Vorcaro, ex-controlador do Master, contribuiu com R$ 1 milhão para a produção do filme sobre Temer.

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