Perder Copas do Mundo não significa rigorosamente nada para a vida de um país, apesar de tanto significar.
Das 211 federações nacionais de futebol associadas à FIFA, apenas oito foram campeões mundiais desde de que a Copa começou a ser disputada, em 1930, e lá se vão 23 edições.
Alemanha, Argentina, Brasil, Espanha, França Inglaterra, Itália e Uruguai formam o restrito clube dos países que abrigam federações vencedoras de Copas e nem por isso os países que as abrigam são melhores, ou piores, do que os 203 que jamais ganharam.
Pegue a Noruega de Erling Haaland e seus simpáticos remadores.
Por melhor que seja a campanha feita nesta Copa, é improvável que venha a ser campeã, e mui possivelmente estará eliminada pela Inglaterra quando a rara leitora e o raro leitor estiveram lendo estas maltraçadas.
Tomara que não.
Porque, além do Cometa Haaland, do faceiro armador Martin Odegaard e do goleiro Ørjan Nyland, a presidenta da Federação Norueguesa de Futebol, Lise Klaveness, orgulha o pequeno país de menos de 6 milhões de habitantes.
Ex-jogadora da seleção, advogada e juíza, ela se tornou a primeira mulher a comandar a entidade em 120 anos de história, e é uma das raras vozes críticas ao comando corrupto e arbitrário da Fifa.
Apito do cachorro
Exatamente aí é que reside o ponto.
Perder a Copa é o de menos.
Duro é perder a vergonha na cara, a dignidade, a personalidade, a alegria e o respeito de seu povo.
Duro é constatar que ídolos de pés de barro, de chuteiras enlameadas, ainda tenham tantos seguidores.
Desanimador é a CBF seguir em mãos tão inescrupulosas, sejam as que servem como fantoches de plantão, sejam as que as manipulam de luvas gananciosas.
Triste é sentir o pertencimento chutado a escanteio.
É trocar a tristeza pela raiva, pela irritação causada por derrotas cafajestes, sem honra.
É ter saudade de perder como em 1982, quando o choro do brasileiro era o mesmo de Sócrates, Zico, Cerezo, enfim, de pessoas que você queria levar para casa, ser amigo delas.
Até o presidente da CBF, Giulite Coutinho, era homem de bem. Conservador, concentrador de poder, mas honesto, competente e de mãos limpas.
Viramos meros espectadores da festa dos outros – e, talvez, a distância nos permita ver com mais clareza, e frieza, de que festa se trata a do futebol.
Nos encantamos ao ver a bola rolar no pontapé inicial de cada jogo e abstraímos do que há por trás, das bets às botas e às bestas.
O amarelado Donald Trump tentou que o rio corresse para seu Mar-a-Lago ao matar um cartão vermelho no peito em tabelinha indecorosa com Gianni Infantino, o cretino.
Mas não há apito de cachorro, ou humano, que impeça a goleada que os belgas impuseram aos estadunidenses, embora possa ajudar os argentinos se estiver correta a atual teoria da conspiração sobre uma aliança Trump&Milei.

O intervencionismo seletivo do VAR na heroica vitória de Lionel Messi e companhia contra os faraós comandados pelo brilhante Mohamad Salah justifica a desconfiança.
Pois é disso que se trata: se o mundo permite o genocídio em Gaza, não serão as falcatruas de um torneio de futebol que o indignarão.
E, diante da nossa incapacidade de manter a indignação viva, atuante e com consequências, os déspotas, os gatunos, os espertalhões dançam e sambam sobre nossos cadáveres.
O futebol brasileiro como o conhecíamos está morto, sepultado e perdeu a vergonha na cara não é de hoje, tanto que dirigido pela Casa Bandida do Futebol.
Para ressuscitá-lo, será obrigatória a intervenção estatal como indutora de política como as adotadas na França e, coincidência?, na Noruega, desde a base, em busca de talentos e formadora de cidadania.
Kylian Mabppé e Haaland são bons exemplos.
Não, aqui não está nenhuma proposta da criação da Futebras, mas do Estado como incentivador e parceiro de iniciativa que concentre, com método e estrutura, o novo berço para recriar nosso velho futebol, com dirigentes menos preocupados com o luxo e mais com o país, capazes de enfrentar a transnacional da corrupção chamada FIFA, a Federação Indecorosa de Futebol e seus Associados.