O Irã venceu a guerra?

Trump não acha saída honrosa e está prestes a cometer o maior tropeço de sua carreira política
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Idas e vindas

Há poucos dias, numa audiência no Senado, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou que a operação militar no Irã havia terminado e que o governo de Donald Trump tinha obtido uma vitória maiúscula. Sua linguagem corporal sugeria o desconforto. Ele mal conseguia responder às objeções levantadas por senadores democratas.

A verdade factual estava estampada no rosto de Rubio: mesmo os mais fanáticos apoiadores do movimento MAGA (Make America Great Again) sabem que o conflito saiu do controle e que o governo iraniano tem demonstrado uma preparação impecável para a guerra.

(Operação militar e não “guerra”, uma vez que a declaração formal de guerra contra outra nação exigiria aprovação do Congresso.)

Na terça (9/6) e na quarta-feira (10/6), os Estados Unidos lançaram um novo ataque concentrado contra o Irã, com bombardeios que, segundo as palavras de Trump, somente aumentarão de intensidade se o governo iraniano não aceitar os termos do acordo proposto pelos americanos.

Mas, afinal, a “operação militar” acabou ou não?

Em outras palavras, por que Trump iniciou a guerra e, sobretudo, por que não consegue encontrar uma saída honrosa?

A primeira resposta tornou-se consensual: Trump foi convencido pelo agente do caos da geopolítica mundial: Benjamin Netanyahu. O presidente dos EUA acreditou que repetiria o “sucesso” do sequestro do presidente Nicolás Maduro. “Bastaria” assassinar o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, para liquidar a fatura, pois, na esteira do homicídio, a sociedade civil iraniana se levantaria e provocaria a mudança de regime.

(Para Trump e seu genro de ouro, Jared Kushner, tudo não passa de oportunidades de negócios.)

O equívoco dessa projeção de cenário, provavelmente, será o maior tropeço da carreira política de Donald Trump e poderá levá-lo a uma derrota amarga nas eleições de meio de mandato, em novembro de 2026.

A segunda pergunta é a mais importante.

João cezar Tomb of the poet Hafez by Eugène Flandin
Mausoléu do poeta Hafez, em Shiraz (Desenho de Eugène Flandin, 1851)

Guerrilha no século 21?

A iniciativa do conflito pertence hoje ao governo iraniano – e não há efeito retórico que possa mudar essa percepção mundial da guerra. Não somente a capacidade de resposta do Irã surpreendeu tanto Trump quanto Netanyahu, mas também uma importante novidade estratégica foi colocada em jogo. Isto é, militarmente, o Irã não tem condições de derrotar a coligação Israel e Estados Unidos. No entanto, uma modalidade incomum de estratégia de guerrilha tem sido empregada pelo governo iraniano, ou seja, o custo político e econômico da “vitória” dos agressores Trump e Netanyahu pode ser tão alto que já não possa ser pago.

Ao mesmo tempo, como simplesmente sair de uma guerra se o adversário não aceita declarar-se derrotado; pelo contrário, metodicamente, responde a todo ataque com força renovada? E quanto mais a guerra durar, maiores serão as consequências financeiras, no caso dos americanos; mais devastado ficará o país, no caso dos israelenses. O cálculo iraniano é preciso: se conseguir estender o conflito, mantendo poder de reação, independentemente do que ocorra no plano militar, a vitória nessa guerra absurda será do Irã.

Hafez, o poeta persa do século 14, que ainda hoje é lido com amor pelo povo iraniano, ensinou a lição mais valiosa das coisas:

Eu aprendi tanto de Deus,
Que já não posso mais chamar-me
Cristão, hindu, muçulmano, budista, judeu.

Donald Trump e Benjamin Netanyahu nunca entenderão o ecumenismo humanista do poeta.

Por isso mesmo, perderão a guerra.

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