Parte relevante do debate sobre Donald Trump orbitou uma pergunta central: ele tentaria um golpe definitivo contra a democracia americana? A obsessão com um cenário maximalista talvez tenha obscurecido um fenômeno mais concreto, gradual e, possivelmente, mais transformador: a utilização do poder presidencial como instrumento simultâneo de enriquecimento patrimonial, processo cumulativo de mudança institucional (lealdade pessoal acima da neutralidade institucional), blindagem pós-governo e construção de legado personalista.
Minha hipótese, hoje, é menos sobre ruptura abrupta (embora seja ainda plausível) e mais sobre permanência funcional. Não necessariamente permanecer no poder formalmente, haja vista que a Constituição americana impõe limites claros, mas permanecer no centro gravitacional do poder político, econômico e cultural dos Estados Unidos.
Trump compreendeu algo que poucos presidentes antes dele haviam explorado com tamanha intensidade: a presidência não é apenas uma instituição de governo; é também uma plataforma de valorização simbólica, financeira e relacional. Principalmente, quando se trata do maior poder militar e economia do mundo…
Assim, o segundo mandato parece operar sob uma lógica diferente da de 2017. No Trump 1.0 havia improviso, fragmentação interna e uma permanente disputa entre establishment republicano e trumpismo insurgente – e o establishment deteve Trump em grande medida. No Trump 2.0, observa-se algo mais organizado: uma consolidação de ecossistema.
Espetáculo e capital simbólico
Não se trata apenas da Casa Branca, mas de um circuito integrado entre poder institucional, capital político, mídia, super PACs, clubes privados, aliados empresariais e investidores ideologicamente alinhados. O resultado é um modelo de influência em que fronteiras entre esfera pública, branding político e interesse privado parecem, progressivamente, menos nítidas.
A sucessão de episódios recentes (da centralidade do MAGA Inc. ao crescimento exponencial de doações de setores regulados, passando pela aproximação entre entretenimento, cripto, esportes de combate e símbolos presidenciais) alimenta uma percepção política relevante: a de que o acesso ao presidente e à sua rede se tornou, ao menos simbolicamente, um ativo econômico.
Há exemplos verificáveis dessa dinâmica. O MAGA Inc., principal super PAC pró-Trump, arrecadou centenas de milhões de dólares no ciclo eleitoral de 2024, com grandes aportes de bilionários como Timothy Mellon, herdeiro do setor financeiro e ferroviário, que sozinho doou dezenas de milhões de dólares, segundo registros da Federal Election Commission (FEC).
No setor de criptoativos, Trump passou de crítico a defensor da indústria e investidor (World Liberty), discursando na conferência Bitcoin 2024, em Nashville, e atraindo apoio explícito de investidores do setor após prometer uma abordagem regulatória mais favorável. Já no universo do entretenimento e esportes de combate, sua presença recorrente em eventos do UFC, frequentemente ao lado de executivos, influenciadores e aliados políticos, reforçou a fusão entre espetáculo, identidade política e capital simbólico.

É importante afirmar algo com rigor: doadores de ambos os partidos, historicamente, buscaram proximidade com governos. Lobby e influência fazem parte da anatomia do sistema político americano. Um exemplo clássico é o papel de grandes doadores em administrações democratas e republicanas, frequentemente recompensados com acesso privilegiado, nomeações diplomáticas ou influência regulatória indireta, prática amplamente documentada pela imprensa americana e por organizações de monitoramento político.
Mas o trumpismo introduz uma diferença qualitativa: um estilo profundamente personalista de governança. Em vez do tradicional triângulo Washington-Congresso-agências reguladoras-lobbies institucionais, emerge algo mais próximo de uma “política de corte”, na qual proximidade pessoal com o líder, acesso ao círculo íntimo e demonstrações públicas de lealdade assumem centralidade incomum.
Talvez um dos fenômenos mais reveladores do trumpismo contemporâneo não esteja apenas nas instituições formais do poder, mas nos espaços onde influência e proximidade se transformam em capital político. O chamado Third Branch (o nome é uma brincadeira com o Poder Judicial, mas age como um quarto poder privado de trump), orbitando o universo de Mar-a-Lago, parece funcionar menos como um clube social tradicional e mais como uma antecâmara informal de acesso: um lugar onde empresários, doadores, operadores políticos (nacionais e internacionais) e figuras da nova direita americana compartilham algo mais valioso do que ideologia – a possibilidade da proximidade.
Em democracias mais autoritárias e personalistas, o poder raramente se exerce apenas pelos canais oficiais; ele também circula em jantares privados, relações de confiança e geografias exclusivas da influência. Se Washington possui seus corredores institucionais, Palm Beach parece ter aperfeiçoado seus salões.
Estética personalista de poder
Nesse contexto, a preservação de influência política após 2028 torna-se estratégica. O volume extraordinário de recursos acumulados pelo MAGA Inc. sugere que Trump não imagina um pós-presidência convencional. Dados da FEC (comissão eleitoral federal estadunidense) mostram que o super PAC entrou, em 2024, com reservas financeiras robustas e capacidade de financiar campanhas, publicidade negativa e mobilização eleitoral em escala nacional.
Ainda constitucionalmente impedido de retornar à cédula eleitoral, ele poderá permanecer como grande distribuidor de legitimidade dentro do Partido Republicano, capaz de premiar aliados, punir dissidentes e influenciar primárias por anos (algo já observado quando figuras republicanas críticas a Trump, como Liz Cheney, perderam espaço político após confrontos públicos com o ex-presidente).
Há também outra dimensão menos debatida: a do legado. Presidentes, frequentemente, perseguem uma narrativa histórica capaz de transcendê-los. No caso de Trump, o legado parece menos institucional e mais civilizacional: reconfigurar o Partido Republicano à sua imagem, alterar o funcionamento do Estado administrativo, consolidar mudanças regulatórias duradouras e institucionalizar uma nova estética de poder: mais confrontacional, personalista e antiestablishment.
Mas há também um vetor patrimonial concreto: a expansão do ecossistema de negócios da família Trump, especialmente no setor imobiliário, com novos empreendimentos e licenciamentos internacionais com frequência impulsionados pela força simbólica da marca presidencial. Após sua saída da Casa Branca, a Trump Organization anunciou projetos e acordos de licenciamento em países como Omã, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, repetidamente em parceria com fundos e incorporadoras locais.
Já os filhos Donald Jr., Eric e Ivanka, ainda que em graus distintos, funcionam como extensões desse legado, ampliando redes de influência, negócios e capital político para além do mandato formal. O genro Jared Kushner tem um papel singular, pois transita abertamente entre governo, diplomacia e negócios privados (Affinity Partners), embora, oficialmente, seja somente um “conselheiro informal”.
A tentativa do Departamento de Justiça de restringir o acesso e a divulgação das declarações de imposto de renda de Donald Trump e de membros de sua família (inclusive após o término de seu mandato) pode ser interpretada como parte de um esforço mais amplo para institucionalizar uma lógica de excepcionalidade em torno da atual administração. Nesse sentido, não se trata apenas de uma disputa sobre privacidade ou prerrogativas presidenciais, mas de mais uma peça numa arquitetura política voltada a moldar o ambiente institucional, econômico e jurídico do período pós-Trump.
O debate em torno do Project 2025, elaborado pela Heritage Foundation e por organizações conservadoras aliadas, oferece um exemplo concreto dessa ambição de transformação estrutural. O projeto propõe uma ampla reorganização do Executivo federal, ampliando o controle presidencial sobre a burocracia permanente e reduzindo a autonomia de agências tradicionalmente concebidas como independentes. A lógica subjacente não é apenas governar de forma diferente, mas redefinir as regras do funcionamento do Estado para além de um único mandato.

Projeto de longo prazo
Há ainda uma dimensão menos debatida do chamado Trump 2.0: a construção de redes duradouras de lealdade política. Nesse contexto, o Departamento de Justiça, as agências regulatórias e outros instrumentos do Executivo podem desempenhar um papel que vai além da implementação de políticas públicas, tornando-se mecanismos de reorganização de alianças, redefinição de prioridades institucionais e redistribuição de poder dentro do Estado. Medidas como perdões presidenciais, alívio regulatório, reversão de sanções ou reabilitação política de figuras anteriormente marginalizadas podem produzir um ativo estratégico de longo prazo: relações de gratidão, reciprocidade e dependência política capazes de sobreviver ao próprio mandato presidencial.
Se essa leitura estiver correta, Trump pode não estar apenas governando um segundo mandato, mas consolidando as bases políticas, econômicas e simbólicas do trumpismo para além de sua própria liderança. É um projeto de longo prazo.
Talvez a pergunta sobre um “golpe” esteja errada. A pergunta relevante seja outra: que tipo de democracia emergirá depois de Trump… E quão profundamente sua lógica de poder terá sido incorporada pelas instituições americanas? Poderá ser revertida?
Para que romper abruptamente a democracia, se é possível remodelar seus incentivos gradualmente, nomeando aliados, reorganizando burocracias, alterando regulações, concentrando lealdades pessoais, expandindo influência financeira e redefinindo os limites informais do aceitável dentro das instituições?
Golpes clássicos pertencem ao século 20. O poder se expande por reinterpretação institucional, normalização de exceções e personalização crescente das regras do jogo. Nesse sentido, Trump já está sendo bastante eficiente, com a cartilha do Projeto 2025 embaixo do braço. Para que dar um golpe, afinal, se as regras podem ser gradualmente ajustadas para trabalharem a seu favor?