“Você é corrupta ou estúpida. Você sabe que essas eleições são manipuladas. Sua rede de TV sabe que são manipuladas. Tudo bem! Vamos encerrar por aqui porque já tive o bastante. Obrigada, querida. Divirta-se.”
Esses insultos foram ditos por Donald Trump para a experiente jornalista Kristen Welker, da NBC. Em seguida, ele arrancou o microfone e se levantou. Em certo momento, a mão do presidente tocou o ombro da jornalista, mas não havia nada de “camarada” nesse gesto, pelo contrário, o gesto era intimidador.
A cena violenta de Trump discutindo e insultando a jornalista foi ao ar no programa Meet the Press, em rede nacional, no domingo (7/6). O tema era eleição e o presidente, mais uma vez, voltou a dizer que o sistema é manipulado. Kristen bateu de frente, como uma profissional séria deve fazer. Na cena, Trump vai ficando cada vez mais irritado, até que perde o controle, chama a profissional de estúpida e se levanta. Seu olhar é de desprezo e ódio.
Trump, mais uma vez, se descontrolou diante de uma mulher jornalista, algo que não é novidade para ele nem para outros colegas seus da mesma laia, a de “machões de extrema direita”, como o ex-presidente Jair Bolsonaro.
A falta de capacidade de lidar com jornalistas é óbvia: diante de mulheres que os questionam e os criticam, esses homens não conseguem esconder o ódio que sentem por mulheres que ousam fazer perguntas e discordar deles.
Mulheres, para eles, são objetos decorativos. Devem ficar nos bastidores e, quando aparecem, que seja para concordar e inflar o ego desses homens. A primeira-dama Melania Trump, por exemplo, é a própria “esposa troféu”. Michelle Bolsonaro, o exemplo perfeito de bela e recatada que “edifica o lar.”
“Quieta, porquinha”
A lista de ofensas de Trump a jornalistas mulheres é tão grande que não cabe nessa coluna. Mas só para lembrar de alguns casos. Em novembro de 2025, uma repórter da Bloomberg News questionou o presidente sobre a liberação dos arquivos Epstein e ele disse, na frente de todos, ignorando a pergunta: “Quieta. Quieta, porquinha”(!). Sim, é inacreditável, mas ele chamou uma profissional de porca.
Em outra ocasião, Trump escreveu em sua rede social, a Truth Social, que a repórter do New York Times, Katie Rogers, “era uma pessoa feia por dentro e por fora”. Na ocasião, ele estava chateado com um artigo publicado no jornal. O texto havia sido escrito por Rogers e seu colega Dylan Freedman. O homem foi ignorado no ataque, enquanto a mulher foi chamada de feia, uma das ofensas prediletas de políticos de extrema direita contra mulheres. Impossível não lembrar de uma das páginas infelizes e machistas da nossa história, aquela quando o então deputado Jair Bolsonaro disse para a também deputada Maria do Rosário que ela “não merecia ser estuprada por ser muito feia”.

O ex-presidente Jair Bolsonaro agia de forma parecida com a de seu ídolo, respondendo a jornalistas aos berros, principalmente, se fossem mulheres. Na época da pandemia, por exemplo, Bolsonaro mandou a jornalista Laurene Santos, da TV Vanguarda, afiliada da Globo em São José dos Campos (SP), “calar a boca”.
Em outros momentos que ficaram “famosos”, Bolsonaro chamou a jornalista Daniela Lima de “quadrúpede” e fez uma ofensa sexual contra a repórter Patrícia Campos Mello. Ao conversar com seus apoiadores, ele disse que a jornalista “queria dar o furo” (usando o jargão jornalístico que se refere à publicação de uma notícia exclusiva) como ofensa sexual.
Apito de cachorro
Não são só os líderes que proferem esses ataques. Os principais influenciadores de extrema direita também usam o ódio a mulheres jornalistas como ferramenta política. Sim, os ataques misóginos não são apenas “momentos de descontrole”, mas também “apito de cachorro” para seus seguidores, principalmente nas redes sociais.
Ao ver seus ídolos ofendendo uma mulher, os seguidores passam para o ataque em massa. Sei do que estou falando porque também fui vítima: sofri ataques em massa de apoiadores do então presidente Jair Bolsonaro, especialmente em 2022, com direito a postagens de seus filhos.
Esses ataques levaram a ofensas, montagens em redes sociais, ameaças de morte e “invasão” de meu telefone pessoal com mensagens de conteúdo bolsonarista. Como muitas, vivi um pesadelo bem real. Ou seja, esses “descontroles” não são apenas “chiliques”. Eles têm a função de calar quem ousa questionar e de também fazer barulho nas redes sociais. O ódio às mulheres, sabemos, infelizmente, engaja e faz sucesso.
Falar mal do jornalismo é um dos truques de retórica mais usados pela extrema direita. Para eles, nós seríamos “comunistas”, “extremistas” e parte de uma grande conspiração. Toda a imprensa e o ofício são desprezados por ele e seus seguidores. Subjugar mulheres, sabemos, também faz parte dessa cartilha. Mulheres jornalistas são, portanto, as vítimas e “vilãs” perfeitas. Por isso, são “enquadradas” e chamadas de porcas, feias e imbecis, que precisam calar a boca.
Não obedecemos nem pretendemos obedecer.