Era bom demais para ser verdade. Um encontro casual de 30 segundos nas Nações Unidas em setembro passado e, de repente, Trump tinha um novo melhor amigo. O charme de um ex-torneiro mecânico havia conquistado o presidente americano. Com o tempo, a habilidade dos principais diplomatas do Itamaraty renegociou as rígidas tarifas de 50%. A exigência de conceder indulto a um compatriota golpista foi silenciosamente deixada de lado. Milagrosamente, o Brasil escapou da ira do presidente mais instável, caprichoso e vingativo da história dos Estados Unidos.
Além disso, o clã Bolsonaro e seus seguidores fanáticos erraram ao desfilar uma imensa bandeira americana, do tamanho de um quarteirão, pela Avenida Paulista para demonstrar sua deferência à grande potência do norte. A influência de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo em Washington, D.C., parecia ter diminuído. A popularidade do presidente Lula subiu repentinamente nas pesquisas. Finalmente, depois de uma década, a esquerda brasileira pôde mais uma vez vestir com orgulho as camisetas oficiais verde-amarelas da Seleção.
No mês passado, um encontro cordial entre Lula e Trump em Washington pareceu indicar que a ofensiva de charme do Brasil continuava a funcionar. Mesmo a oportunidade de cinco minutos para fotos, desesperadamente buscada por Flávio Bolsonaro quando o escândalo do Mestre explodiu em sua cara, pareceu ter tido pouco efeito na relação entre os dois presidentes.
No início deste ano, encorajado pelo seu aparente sucesso em assumir o controle da Venezuela sem enviar tropas para ocupar o país, Trump prosseguiu com uma guerra imprudente contra o Irã, que não tem fim à vista. A promessa eleitoral de 2024 de conter a inflação não se concretizou, já que os preços da gasolina subiram 50% nos últimos três meses, causando um enorme fardo para a classe trabalhadora comum.
Com isso, a popularidade de Trump nos Estados Unidos vem caindo constantemente, mês após mês. Agora, ela está num nível recorde de baixa. O índice geral de aprovação do presidente americano gira em torno de 35%, faltando apenas cinco meses para as importantíssimas eleições de meio de mandato, que determinarão quem controlará o Congresso dos EUA.
Em resumo, Trump está em apuros políticos, e ele sabe disso.
No entanto, em vez de abordar os problemas econômicos dos EUA e apelar aos eleitores independentes para manter a maioria no Congresso após as eleições de novembro, Trump se fixou na construção de seu salão de baile dourado, em colocar sua imagem nas notas de 250 dólares e em usar o Departamento de Justiça para recompensar seus apoiadores insurrecionais, enquanto emprega lawfare contra seus inimigos políticos.

O que aconteceu, então, com a paixão unilateral? Por que o governo Trump acaba de declarar que o Primeiro Comando do Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) são organizações narcoterroristas?
E quais são as intenções políticas que estão por trás do anúncio do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos de que o Brasil está envolvido em práticas comerciais desleais e pode, em breve, ser atingido por tarifas de 25% sobre mercadorias exportadas para os Estados Unidos?
A escalada dos ataques econômicos contra o Brasil visa apenas favorecer instituições financeiras internacionais ameaçadas pela Pix? É devido a uma influência contínua dos Bolsonaro em Washington? Ou há algo mais em jogo?
Cerco à ilha
Diante de uma derrota devastadora no Oriente Médio e do apoio vacilante em seu próprio país, Trump decidiu virar as costas para uma região do mundo a fim de reafirmar a hegemonia tradicional sobre outra, onde pode reivindicar sucesso.
Ao apoiar os governos de extrema direita da região – de Argentina e Equador a Honduras e Colômbia –, a Casa Branca está alinhando um conjunto de forças reacionárias que endossarão, imediatamente, qualquer ação tomada pelo atual governo dos EUA em sua reivindicação de ter o direito de interferir onde bem entender em seu “quintal”.
Embora o Brasil seja o alvo imediato do ataque, o objetivo estratégico da Casa Branca é derrubar o governo socialista de Cuba. O aumento do bloqueio de petróleo à ilha e as recentes acusações criminais contra Raúl Castro, o ex-presidente de 94 anos, por seu suposto envolvimento na queda de dois aviões em 1996, são sinais de que o governo americano espera trazer Cuba de volta ao bloco capitalista sob controle de Washington antes que Trump deixe o cargo, em janeiro de 2029.
Para isso, ele conta com o apoio incondicional do secretário de Estado, o cubano-americano Marco Rubio, que chamou Trump de “um vigarista” quando concorreu contra o atual presidente nas primárias republicanas de 2016, mas que agora é um de seus membros mais leais do gabinete. Embora o secretário de Estado tenha mudado de opinião sobre seu chefe, ele expressou hostilidade ao Brasil. Numa audiência no Congresso, em 2/6, Rubio qualificou o Brasil como uma nação “não amigável”, juntamente com Nicarágua, Cuba e Venezuela, e não mais como um aliado dos EUA.
Nesse sentido, a nomeação de Daniel Perez, atual presidente republicano da Câmara dos Representantes da Flórida, para o cargo de novo embaixador dos EUA no Brasil se encaixa perfeitamente no plano geral de Trump e Rubio para a América Latina. Perez, um cubano-americano de extrema direita e leal a Trump, apoiará de bom grado os esforços para interferir nos assuntos internos brasileiros, ao mesmo tempo rm que se junta a Rubio na conspiração para derrubar o governo cubano.
Para levar adiante seu plano, o governo Trump precisa impedir que o presidente Lula vença as eleições de outubro. Dadas as tendências políticas atuais em todo o continente e os desafios contínuos que a presidente mexicana progressista Claudia Scheinbaum enfrenta para conter o poder e a influência do império do norte, o Brasil é, essencialmente, a única potência latino-americana com peso suficiente para mobilizar apoio internacional contra qualquer incursão dos EUA na ilha.
Trump já experimentou o charme e o carisma de Lula. Se ele se desse ao trabalho de ouvir seus especialistas em relações exteriores, o que é improvável, saberia que Lula continua popular entre o eleitorado brasileiro e tem boas chances de vencer as eleições presidenciais de outubro. No entanto, se as novas tarifas entrarem em vigor, provavelmente, causarão instabilidade econômica.
Além disso, a acusação de que a CV e o PCC são organizações narcoterroristas permite que o governo Trump aplique sanções a instituições financeiras brasileiras. Além disso, a alegação eleitoral da extrema direita de que o governo atual é leniente com o crime cria uma situação complexa, já que Lula insiste em defender a soberania brasileira contra a interferência dos EUA em assuntos internos.
Aqui, o objetivo não é preparar uma invasão do país, mas sim implementar medidas para interferir na economia brasileira a fim de influenciar as eleições. Embora seja difícil criticar o Pix, dada a sua eficiência, conveniência e baixo custo para garantir transações financeiras, o programa poderia facilmente sofrer uma tentativa de minar seu sucesso por meio de alegações de que é responsável por permitir que organizações criminosas movimentem ativos e lavem dinheiro. Isso poderia levar à sanção de bancos que utilizam o instrumento financeiro, causando novamente caos na economia.
Afora isso, é provável que Trump apoie publicamente Flávio Bolsonaro em breve, dada sua prática anterior de apoio a outros políticos de extrema direita na Argentina, Chile, Honduras e Hungria. Embora o sentimento nacionalista no Brasil possa fazer com que essa medida se volte contra a extrema direita, já se pode imaginar o argumento pragmático de uma campanha eleitoral direcionada aos eleitores indecisos de que é melhor ter um aliado na Casa Branca do que um adversário ao menos pelos próximos dois anos.
Ameaça à democracia
Em 2022, durante a temporada de campanha presidencial brasileira, o Washington Brazil Office (WBO), um think tank não partidário, organizou uma delegação de 20 representantes de organizações da sociedade civil que viajaram a Washington para alertar o Congresso dos EUA sobre as ameaças à democracia no Brasil e o temor de que Jair Bolsonaro tentasse reverter os resultados das eleições.
Eles foram calorosamente recebidos por representantes do Congresso, que se manifestaram em defesa da democracia brasileira. Políticas paralelas do governo Biden apresentaram argumentos semelhantes, enviando uma mensagem clara às Forças Armadas brasileiras de que o governo dos EUA não sancionaria um golpe de Estado. Agora, sabemos que esses esforços dividiram os militares brasileiros, o que contribuiu para minar a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro e seus apoiadores.
Nesta semana, entre os dias 3/6 e 5/6, uma delegação de quatro líderes congressistas brasileiros – Jandira Feghali (PCdoB/RJ), Pedro Campos (PSB/PE), Pedro Uczai (PT/SC) e André Janones (REDE/MG) – esteve em Washington para se reunir com membros do Congresso dos EUA e representantes da Organização dos Estados Americanos e da Comissão Interamericana de Direitos Humanos. A sua mensagem é simples: não à interferência dos EUA nas eleições brasileiras.
Fortalecer o diálogo internacional com políticos progressistas de ambos os países em Washington é um esforço importante para apoiar a democracia no Brasil. Paul Abrão, diretor executivo da WBO, explicou: “Neste momento, é essencial diversificar as vozes legislativas brasileiras que dialogam com os Estados Unidos. Esta delegação reúne líderes democráticos de alto nível, cuja participação contribuirá para um debate mais informado e uma compreensão mais profunda da realidade política e institucional do Brasil no cenário internacional.”
No início da década de 1960, o governo dos EUA esteve ativamente envolvido, tanto clandestina quanto abertamente, no apoio às forças que realizaram o golpe de Estado de 1964 e à ditadura que durou 21 anos. Parece que as relações entre EUA e Brasil estão, infelizmente, numa encruzilhada semelhante.