Em maio, quando quase 200 ativistas tentaram chegar até Gaza para levar ajuda humanitária, mais uma vez a flotilha foi interceptada pelas forças de Israel. O que se viu, nos dias seguintes, foi uma sequência de abusos, tortura e humilhações.
Uma das vítimas foi o brasileiro Cássio Pelegrini, que relata à revista Liberta os detalhes do que ocorreu quando foi sequestrado por Israel.
Aos 39 anos, ele é pediatra e colaborador do coletivo Sout Vozes em Movimento. É também coordenador voluntário do projeto Receituários Bilíngues, do Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo.
Segundo ele, a Global Sumud Flotilla é uma ação direta não violenta, que tem o objetivo de criar um corredor de ajuda humanitária e furar o cerco marítimo imposto à Faixa de Gaza, ilegal do ponto de vista do direito internacional. Pelegrini destaca que esse cerco viola a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar e o artigo 33 da Quarta Convenção de Genebra (sobre punição coletiva).
“O contraste dos soldados sionistas armados até os dentes, pulando nos barcos e sequestrando cidadãos desarmados, com as mãos para cima, sem oferecer qualquer tipo de risco carregando ajuda humanitária, expõe a perversidade da entidade sionista e a intenção de manter a punição coletiva sobre mais de 2 milhões de palestinos, a maioria deles com menos de 18 anos de idade”, disse Pelegrini.
De acordo com o brasileiro, outro objetivo é promover uma pressão diplomática sobre Israel. “Tanto que foi aprovada uma lei para deportar os ativistas em menos de 24 horas. A violência cometida contra nossos corpos passou a ser exercida, então, pela marinha israelense antes de chegarmos na Palestina Ocupada em alto mar, longe das lentes do vídeo divulgado pelo Itamar Ben Gvir (ministro da Segurança Nacional de Israel)“, acrescentou.
No vídeo, os membros da embarcação (cerca de 430 pessoas, conforme a Global Sumud,estavam organizados em fileiras, ajoelhados, com as mãos amarradas, enquanto eram observados e filmados pelo ministro israelense.
O médico destaca que essa foi a maior flotilha. “Descobrimos que os sionistas não têm a capacidade de interceptar tantos barcos de uma vez e esse é o motivo de nos sequestrarem a milhares de quilômetros do território de ocupação”, afirmou.
Ele insiste que a onda de flotilhas não irá parar. “A solidariedade internacional é a resposta contra aqueles que insistem em ferir a humanidade e o planeta”, completou.
Apesar de um suposto cessar-fogo em vigor, as operações de Israel sobre o território continuam e o governo de Benjamin Netanyahu controla 70% da Faixa de Gaza. Mais de mil pessoas já morreram desde que, supostamente, os canhões foram silenciados.
Eis o relato do brasileiro levado aos calabouços de Israel:
“A nossa missão era levar ajuda humanitária a Gaza, para romper o cerco ilegal imposto por Israel.
Em 18 de maio, as interceptações começaram. Eu sabia que estávamos sendo interceptados porque estávamos verificando as câmeras dos outros barcos. Os israelenses estavam muito perto de nós, mas não nos interceptaram no primeiro dia. Mais tarde, soubemos que eles optaram por deixar os barcos com mais participantes turcos para o segundo dia.
Em 19 de maio, vimos que eles ainda estavam interceptando os outros barcos. Eu sabia que eles estavam perto porque podíamos ver um enorme navio militar perto de nós. Os botes infláveis israelenses estavam se movendo muito rápido. Eles estavam vindo em nossa direção. Eu tinha medo de que colidissem conosco ou que criassem grandes ondas que pudessem virar o barco.
Então, eles bloquearam nosso VHF. Disseram que, se quiséssemos levar ajuda humanitária, deveríamos fazê-lo de outras maneiras. Que ir em direção a Gaza era perigoso e ilegal, e que deveríamos retornar ao porto de origem. Ai eles tocaram uma música israelense no rádio VHF até chegarem ao nosso barco. Nesse momento, entendi que estávamos sendo interceptados.
Queríamos garantir que não nos acusassem de terrorismo, então, jogamos fora todas as facas e tesouras, para não termos nenhuma faca, nem mesmo as de cozinha, deixando claro que éramos civis desarmados numa missão humanitária.
Colocamos nossos coletes salva-vidas. Sentamos e esperamos. Jogamos nossos celulares e aparelhos eletrônicos no mar e ficamos parados com as mãos para cima até que eles chegassem. Tudo aconteceu muito rápido.
Eles se aproximaram e nos mandaram ir para a frente do barco e depois nos mandaram ajoelhar e abaixar a cabeça. Foi bem difícil porque o barco estava em movimento.
Eles me escolheram, junto com outros dois companheiros, e nos colocaram num bote inflável. Eu tinha meu passaporte na mochila. Eu disse ao soldado, porque ele pediu meu passaporte, que estava na mochila. Ele largou minha mochila no bote inflável e nos levaram com ele até um navio militar.
Havia uma escada do lado de fora do navio. Uma das companheiras era idosa e teve muita dificuldade para subir as escadas. Assim que chegamos, nos vendaram os olhos e nos colocaram num assento na frente do navio. Ficamos ali, vendados, por cinco horas. Acho que nossa interceptação começou por volta das 17h30. Ficamos no navio até as 22h.
Eles começaram a cantar e fazer barulhos como se estivessem chamando um gato. Começavam a miar como se fossem gatos. Ligavam e desligavam sirenes. Borrifavam perfume. Alguns deles se aproximavam dos companheiros e perguntavam: “Por que vocês estão fazendo isso?”, “Quanto eles pagaram para vocês?”, “Vocês são terroristas, sabiam?”.
Mais tarde, quando o pessoal do barco Sirus estava subindo nesta embarcação, eles me permitiram ir ao banheiro. A essa altura, eu já tinha urinado um pouco nas calças. Quando eu estava voltando do banheiro, eles me vendaram duas vezes.
Depois de algumas horas, havia uma senhora turca idosa. Não sei se ela estava com dor ou se estava tendo um ataque de pânico. Ela estava gritando. Um dos turcos do Sirus estava sentado ao meu lado. Ele disse que eu poderia ajudar com a tradução, porque ela não falava nenhum outro idioma. Um dos soldados perguntou a ele como se dizia “sim” e “não” em turco. Os soldados iam até a senhora idosa e gritavam com ela repetidamente: “Você precisa de um médico? Sim ou não?”. Ela ficava cada vez mais ansiosa.
Ela era do barco Sirius. Ficou quieta por, talvez, uma hora. Mas depois ouvimos todos os gritos de novo. Eles a xingavam muito.
Então, começaram a fazer perguntas às pessoas novamente: “Por que vocês estão fazendo isso? Estou perguntando de um jeito educado”, deixando claro que as próximas horas seriam muito piores.
No caminho de volta para o banheiro, me levaram até a escada novamente e subi no bote inflável. Fiquei lá por cinco horas. Quando fui ao banheiro pela segunda vez, no caminho de volta, me levaram para outro bote inflável. Nesse bote, durante o trajeto, me davam socos na cabeça e jogavam água em mim para que eu ficasse molhado e com frio.
Diziam coisas como: “Bem-vindo a Israel”, “Marinha Israelense”, “Bem-vindo à Marinha de Israel”.

Cenas de horror no navio-prisão
Depois, fomos transferidos para o navio-prisão. Quando chegamos, nos amarraram com abraçadeiras de plástico. Ainda estávamos vendados. Fomos carregados em posição de estresse dentro do barco. Tiraram a venda, pediram que eu tirasse minhas roupas, sapatos, calças e roupa íntima. Depois, me obrigaram a vestir tudo de novo. Estavam me revistando. Depois, entrei numa fila.
Todos usavam máscaras. Eu não conseguia ver seus rostos. Nessa fila, eles verificavam nossos passaportes e de onde éramos.
Quando eu disse que era do Brasil, eles me disseram: “Brasil, vamos te tratar como o Thiago”. Então, fui transferido novamente para dentro de um contêiner escuro.
Havia cinco soldados com lasers e lanternas na cabeça. Mandaram que eu me sentasse. Então, começaram a me chutar e socar com armas com muita força.
Fiquei quieto, porque tinha medo de que, se gritasse, a surra fosse ainda pior. Em certo momento, senti minha costela sendo fraturada. Então, me levantaram e mandaram que eu me sentasse novamente. Me chutaram de novo. Então, me levantei. Mandaram que eu me levantasse.
O tempo todo, eles me davam instruções contraditórias. Mandavam que eu me sentasse, depois que eu me levantasse, depois que eu me sentasse novamente, então, eu estava confuso e não sabia o que fazer.
Eles fizeram isso para nos intimidar. Não queríamos ser punidos. Eles nos davam mensagens ambíguas.
Mandaram-me baixar as calças. Olharam para mim por um tempo, depois me deram um soco na cabeça e mandaram que eu vestisse as calças de novo. Abriram uma garrafa de água e jogaram em mim para me molhar ainda mais. Me jogaram dentro da prisão.
A prisão era um quadrado feito de contêineres. Havia um contêiner que servia de recepção. Depois, todos os outros camaradas do meu barco vinham atrás de mim.
Eu conseguia ouvir os gritos deles, porque estavam sendo espancados com muita violência. Pessoas que estavam lá desde o dia anterior disseram que eles estavam sendo ainda mais violentos conosco.
Eu estava em choque. Não conseguia entender onde estava. Achei que estava dentro do navio e que havia um teto. Só no outro dia percebi que era aberto para o céu.
Dentro do navio-prisão havia garrafas de água e pão. Como minhas roupas estavam molhadas e fazia frio, as pessoas me deram sacolas plásticas para me cobrir.
Havia vários banheiros químicos, mas apenas um estava aberto. Todos os outros estavam interditados. Então, era um banheiro para 188 pessoas. Eu sei esse número porque fomos os últimos e eles colocavam esse número nas pulseiras que nos davam antes de entrarmos na prisão.
Havia três contêineres para todos dormirem. Muitas pessoas tinham fraturas, então, não conseguiam encontrar posições confortáveis para dormir. Quase não dormimos nada naquela noite.
Eles também tiraram meus óculos antes de quebrá-los. Durante aquela noite, outros médicos e eu estávamos tentando cuidar das pessoas. Estávamos verificando onde estavam as fraturas.
Um dos camaradas foi atingido duas vezes por uma bala de borracha. Ele tinha um tornozelo quebrado, que estava inchado. Havia um ortopedista conosco no navio.
Temíamos que ele tivesse um ferimento grave, mas não podíamos realmente pedir ajuda.
Alguns minutos depois que entrei na prisão, os soldados entraram num contêiner de recepção com capacetes e escudos. Havia um adesivo escrito “Foda-se o Hamas”, com bandeiras de Israel e dos EUA na porta do contêiner.
Eles lançaram granadas de efeito moral em nossa direção. Uma delas explodiu bem perto dos meus pés. Eles ordenaram que todos nós saíssemos dos contêineres e fôssemos para perto dos banheiros. Então, eles atiraram balas de borracha. Depois, nos pediam para nos movermos para um lado ou para o outro, para que pudessem mirar e lançar as granadas em nossa direção.
Então, esse cara levou um tiro nos dois joelhos pela segunda vez. Talvez ele tenha sido alvo por ser a mesma pessoa. Tentei cuidar dele. Ele estava em choque e se culpava por ter levado dois tiros. Ele não conseguia ouvir direito. Tentei acalmá-lo.
A gente improvisava para falar com as pessoas usando o que tinha de roupa, com plástico.
A noite era um pesadelo. Eles colocavam lanternas ou uma luz muito forte para que a gente não conseguisse dormir e, de vez em quando, apontavam lasers para a gente.
Eu tentava ser médico naquela situação, mas não dava.
Violência sexual
No dia seguinte, eles nos acordaram com granadas, mandaram todo mundo sair dos contêineres e ficar perto dos banheiros de novo. Aí jogaram mais granadas.
Eles escolheram um voluntário, um participante da GSF, com uma pulseira de número 132, porque ele fala árabe, inglês e turco, então, ele podia traduzir as ordens para todos nós. Ele nos dividia em filas, então, ficávamos alinhados dentro da prisão. Não sei de onde ele é. Ele é mais velho, tem cabelos e bigode grisalhos.
Eles nos colocaram em uma posição de estresse. Eu estava embaixo de uma grade e foi muito doloroso ficar ali. Ficamos assim por quatro horas. Eles tocaram o hino nacional israelense 72 vezes, nós contamos, eu e os outros camaradas do mesmo barco.
Depois de ficar lá por essas quatro horas, estava muito quente. Eles nos permitiram sentar. Eles estavam nos tirando da prisão em grupos de 10.
Uma das participantes, que também é médica, teve um ataque de pânico. Ela começou a chorar muito. Ela estava perguntando a essa participante da GSF, que era voluntária, o que tinha acontecido com os outros. Não sei o nome dela, talvez Margaret.
Naquela manhã, antes de acordarem todo mundo com as granadas de som, nós, os médicos, estávamos tentando coletar dados. Contamos 35 fraturas e 22 ferimentos por taser (arma de eletrochoque) na cabeça ou no pescoço. Não contamos os ferimentos por taser em outras partes do corpo, porque isso seria, basicamente, contar todo mundo.
Também contabilizamos dez casos de violência sexual. Não entramos em detalhes sobre o tipo de violação sexual, pois queríamos apenas os números para poder fornecê-los aos advogados.
Fomos colocados em fila. Fomos algemados novamente, do barco-prisão até um cais. Nesse cais, havia uma tenda grande e uma tenda menor em frente a ela.
Na tenda menor, cinco soldados me chutaram.
Então comecei a gritar; eu sabia que tinha quebrado uma costela. Eles me bateram mais um pouco e depois me soltaram.
Nos dividiram em grupos de dez pessoas dentro da tenda grande.
Fomos colocados lá em posição de estresse, com a cabeça baixa no chão. Eu não sentia meus pés porque estavam dormentes.
Eu tentava me mover bem devagar para que eles não percebessem que eu estava me mexendo, pois nos puniam por qualquer movimento que fizéssemos.
Quando as pessoas se mexiam, eles escolhiam essas pessoas, mandavam-nas para a tenda pequena e as espancavam. As pessoas gritavam o tempo todo.
Às vezes, os soldados riam, outras vezes faziam piadas entre si.
Então, começaram a escolher as pessoas. Não sei quais eram os critérios. Levavam as pessoas para essa tenda pequena e as espancavam.
Eu também conseguia ouvir alguns soldados gemendo enquanto estupravam as pessoas. Também conseguia ouvir o som de uma bolha estourando. Imaginei que pudesse ser o lubrificante que usavam para estuprar as pessoas.
Tentei olhar por um espaço entre as minhas pernas. Consegui ver um soldado gordo com a camiseta aberta e metade da virilha à mostra. Ele estava com metade das calças abaixadas. Isso foi o pior para mim, porque eu estava com muito medo de ser escolhido, de ser estuprado. Esse era o meu maior medo.
Ficamos ali na tenda por três horas nessa posição. Eles também estavam tocando música. Após essas três horas, mandaram-nos levantar. Amarraram as pessoas com abraçadeiras de plástico em diferentes posições.
Eu estava com as mãos amarradas à frente do corpo. Soldados mais jovens chegavam, talvez fossem policiais ou guardas costeiros. Não sei. Usavam uniformes diferentes, mas neles estava escrito “polícia”. Levaram todos nós em fila para dentro do porto, onde o processo de imigração é feito.
Ficamos lá por duas horas, em pé. Nos obrigavam a ficar em posições diferentes, como sentar, levantar, e isso aconteceu o tempo todo.
O policial que estava perto de mim acariciava minhas costas e, às vezes, agarrava minha nuca. Também me dava socos nas costas. Pediu que eu dissesse algo em hebraico. Talvez fosse “Eu amo Israel”. Não tenho certeza do que significa. Ele oferecia o zíper da abraçadeira para outros policiais para que pudessem puxá-lo e apertar meus pulsos.
Como eu já havia passado por esses dois assaltos com cinco soldados, não queria ser punido novamente, então apenas repeti o que ele me disse.
Fomos levados para perto de algumas mesas. Eles tentavam falar com as pessoas em diferentes idiomas. Meu inglês não é muito bom, falo espanhol melhor. Então, disse que iria com os espanhóis. Também informei que falo português.
Estávamos esperando, e o tempo todo eles gritavam conosco e nos chamavam de terroristas. Eles faziam isso o tempo todo, durante todo o processo, não apenas enquanto esperávamos.
Fui levado até uma mesa. Havia um oficial de justiça e um tradutor. Então, pedi um advogado, atendimento no consulado e assistência médica.
Os soldados estavam ficando cansados de esperar por ela, então começaram a preencher um formulário. Eu respondia repetidamente que esperaria pelo meu advogado.
Exigi assistência médica para minha costela quebrada e para falar com o consulado brasileiro.
Eles simplesmente preencheram o formulário e disseram: “Agora você pode ir”. O policial responsável por mim foi trocado. Foi substituído por uma moça muito pequena e baixinha. Eu tinha que andar quase de joelhos, porque ela não levantava os braços.
Depois, fui transferida para o ônibus da prisão.
Havia uma cela minúscula dentro de uma van. Havia pequenos alto-falantes acima da cela e eu fiquei com medo de que estivessem nos gravando ou ouvindo nossas conversas. Tentei avisá-lo, mas não conseguimos evitar falar sobre informações pessoais. Levamos talvez três ou quatro horas para chegar à prisão. Eu não sabia que prisão era aquela.
Eu estava com medo de ser levado para a prisão de Sde Teiman, onde estupraram aquela palestina. Quando chegamos, nos algemaram. Algemaram nossas mãos e colocaram correntes nos tornozelos.

Abuso psicológico
Começaram a nos obrigar a andar muito rápido, para que as algemas nos machucassem. Me deram outro soco no rosto. Eles estavam socando as pessoas sempre que podiam, mas não com tanta força quanto antes.
Talvez porque fosse diferente na prisão. Mandaram que tirássemos a roupa e nos deram um uniforme de agasalho cinza. Naquele momento, eles estavam nos abusando psicologicamente.
Ficavam nos transferindo de um lugar para outro. Era uma bagunça. Fomos levados para uma cela pequena, tipo 19 pessoas numa cela de três metros quadrados. Na cela, pude identificar mais fraturas.
Então nos levaram, todas as pessoas que falam espanhol.
Houve um exame físico. Eu repeti que precisava consultar um médico por causa da minha fratura na costela.
Eles nem sequer verificaram meus sinais vitais. Não fizeram nada, não tocaram em mim. Tiraram fotos do meu corpo apenas de frente e de lado, para que não ficassem registradas as contusões nas minhas costas.
Fomos, então, transferidos para uma cela cercada por arame farpado e, ao sairmos, tentaram nos obrigar a assinar um documento em hebraico, com um pequeno trecho em inglês, mas eu recusei.
Depois, nos levaram para um lugar com uma tela enorme exibindo uma cena horrível de pessoas sendo decapitadas e punidas. Nos forçavam a assistir e diziam: “Esses são seus amigos, o Hamas”. Tentei não olhar, então, fiz manobras, como desfocar os olhos, para não conseguir assistir.
Mas, quando olhei pela primeira vez, vi a cena de um homem e outro com uma picareta apontando para a cabeça de alguém. Ficamos lá por muito tempo. Tivemos que pegar um cobertor e um colchão com as algemas ainda presas, e fomos colocados numa cela com 29 pessoas.
Não havia camas suficientes para todos, então, algumas pessoas tiveram que dormir no chão. Estava cheio de poeira. Também havia ratos e não havia banheiro.
Não havia água, nem comida. E o mesmo camarada turco começou a sentir dor no peito. Comecei a gritar que precisava de ajuda, que era uma emergência, que ele tinha problemas cardíacos e estava com dor no peito.
Eles se aproximaram e, a princípio, tentaram ouvir, mas depois ouviram mesmo e eu disse: “Sou médico”. Eles responderam: “Ah, você é médico? Que chato!”. E, simplesmente, foram embora.
Então, comecei a organizar as pessoas com costelas quebradas para dormirem nos beliches de baixo. As pessoas sem costelas quebradas podiam dormir nas camas de cima.
Dormimos. Na manhã seguinte, trouxeram-nos um sanduíche de atum e água.
Permitiram que algumas pessoas fossem ao banheiro. Muitas pessoas não foram, porque todos queriam usar. Talvez oito pessoas tenham ido e todas as outras não puderam.
Devolveram-nos os passaportes e perguntavam: “Quem é você?”. Depois, me identificaram e me levaram para dar uma volta. Me agarraram, me algemaram novamente. Puxaram meu cabelo com as algemas e me carregaram assim.
Fui colocado de volta na cela e, quando saí, nos levaram para o ônibus da prisão, onde ficamos por duas ou três horas. Estava muito quente.
Não sabíamos para onde estávamos indo. Pensávamos que iríamos a uma audiência no tribunal, talvez à embaixada ou à Jordânia.
Só soubemos que nos levaram para o aeroporto porque consegui ver uma placa de partidas.
Nos deram uma garrafa de água. Bebemos alguns goles de água pela manhã e, depois, uma garrafa de 500 ml para mim e para meu camarada turco, que estava comigo na cela.
Ele chorou o tempo todo. Ele tem 28 anos. Estávamos apenas tentando conversar sobre o dia a dia, fazer planos para o futuro, tranquilizá-lo de que isso ia acabar. Eu tentava respirar com ele e coloquei minhas mãos em seu peito para acalmá-lo. Fiquei algemado o tempo todo.
Retiraram as algemas no aeroporto e vimos aqueles aviões da Turkish Airlines. Alguns dos camaradas começaram a gritar: “Palestina livre!”
Só sabíamos para onde estávamos indo, para a Turquia, porque perguntamos à tripulação.
Eu estava sempre preocupado, porque tinha ouvido falar de pessoas sendo estupradas. Perguntei à tripulação se podia dar um recado pelo rádio. Anunciei que, assim que chegassem a Istambul, todos deveriam ir ao hospital para tomar profilaxia”.