Vida além do trabalho

Uma reflexão sobre a unidade da esquerda a partir da proposta do fim da escala 6 x 1
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Finalmente, a famigerada escala 6 x 1 deverá ser abolida no Brasil. Falta ser aprovada no Senado, mas a parte mais difícil, que era a provação da Proposta de Emenda Constitucional nos dois turnos da Câmara dos Deputados, vingou na quarta-feira (27/5).

A proposta era a redução da jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas. Eram necessários 308 votos favoráveis. Houve 472 votos a favor contra 22 que se negaram a apoiar a proposição no primeiro turno. No segundo turno da votação, 461 parlamentares foram favoráveis e 19 votaram contra. No Senado, para onde a proposta vai agora, a metade dos senadores precisa aprovar para acabar com o regime de escravização dos trabalhadores, que é também economicamente desnecessário, como vêm demonstrando empresários que usam uma escala menor de trabalho.

A disputa foi gigantesca, pois o objeto é gigantesco. Afinal, se está falando da vida de milhões de trabalhadores e suas famílias. Justamente por isso, foi objeto de manipulação pela extrema direita, que não queria aprovar a proposta de jeito nenhum. Descobriu-se que os deputados mais veementes contra o fim da escala 6 x 1, como Nikolas Ferreira e Juliana Zanatta, são os que menos trabalharam em seus postos, e isso pegou muito mal para eles.

Mudança de cenário

A derrota da extrema direita foi acachapante e sinaliza um descontentamento crescente do povo em relação a políticos que, perdidos em sua coerência antipovo, tentaram a todo custo manipular a opinião pública. Certamente, o “Chupetinha” (como Nikolas é chamado) e a diva-nazi de Santa Catarina deixam de ser novidade e é muito provável que não se elejam com a mesma votação que lhes subiu a cabeça.

Sóstenes Cavalcanti, que trabalha pouco e segue sem esclarecer o que fazia com mais de R$ 400 mil em espécie dentro de um saco de lixo, chegou a mentir que não havia assinado a emenda pela jornada de 52 horas proposta pela extrema direita na contramão da escala de 40 horas. Todos ficaram em pânico e os mais espertos mudaram de posição para garantir a simpatia do povo, pois eleitores de igrejas, encabrestados por discursos teológicos, chantagens ou uma arma na cabeça, como acontece com os eleitores de milicianos no Rio de Janeiro, seguem sendo trabalhadores e, com um pingo de consciência, devem defender direitos favoráveis a si mesmos.

A vitória é VAT, sigla do movimento Vida Além do Trabalho, criado para defender o fim da escala  6×1. Seu grande líder é Rick Azevedo, um balconista de farmácia que se tornou vereador no Rio. Rick se tornou famoso ao desabafar sobre seu sofrimento físico e mental, sobre sua exaustão como trabalhador. O VAT nasceu da identificação com o sofrimento e a necessidade de mudança de cenário. A projeção nacional do movimento veio com um abaixo-assinado que recebeu milhões de assinaturas.

A Proposta de Emenda à Constituição nasceu em parceria com a deputada federal Érika Hilton, que, na origem, defendia a redução para 4 x 3. Antes, o deputado federal Reginaldo Lopes, do PT de Minas Gerais, havia proposto uma PEC na mesma linha, com redução para 36 horas ao longo de dez anos. Na votação atual, os dois projetos foram fundidos. Um processo de união das esquerdas.

Manifestantes carregam faixa com a mensagem "Não à escala 6x1" durante ato na Avenida Paulista em defesa da redução da jornada de trabalho.
Manifestação pelo fim da jornada 6 x 1 na Avenida Paulista, em SP (Foto: Letycia Bond/Agência Brasil)

Clamor do povo

Essa movimentação envolve vetores importantes, tornando-se exemplo de ação política. Um trabalhador se manifesta sobre sua dor, se torna uma liderança autóctone, concorre a um cargo eletivo, é eleito por quem com ele se identifica, ocupa um espaço de decisão e age. Ele está acompanhado de um movimento que mobiliza os votos, mas também de toda a carga simbólica da ação coletiva na produção de um poder de transformação.

Quem está na proa dessa imensa conquista é um trabalhador de um balcão de farmácia, mas tem um detalhe não menos importante, ele é negro e gay, tendo se tornado vereador no Rio de Janeiro. Além dele, uma travesti negra que, depois de ter sido prostituída e morado na rua, é hoje a deputada federal mais votada pelo maior colégio eleitoral do país, ou seja, o estado de São Paulo. Rick Azevedo e Érika Hilton são pessoas marcadas pela pecha de “identitários”. São eles que, no entanto, uniram toda a esquerda, pois fizeram saber ao esquerdomachismo que pessoas LGBTQIAPN+ também são trabalhadoras, assim como pessoas negras e pessoas mulheres.

Por mais valor que o deputado Reginaldo Lopes do PT tenha, ele não conseguiria sozinho criar essa unidade. Que a unidade tenha sido produzida a partir do clamor do povo e de pessoas marcadas pelo preconceito identitário é um sinal dos novos tempos da política e da democracia radical que está sendo construída na cultura política do Brasil.

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