A carne mais cara do mercado

O "xerife" Cláudio Castro desfrutava dos prazeres da vida com toda a sorte de bandidos
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Mesmo após séculos de pesquisa científica e reflexão filosófica, a humanidade ainda não foi capaz de responder alguns dos maiores mistérios da existência, tais quais: como a vida surgiu? O que havia antes do Big Bang? Há uma partícula da gravidade? Deus existe?

Contudo, neste momento, nenhuma pergunta é mais intrigante para o cidadão do Rio de Janeiro do que saber por que diabos Cláudio Castro ainda não está de camiseta verde da SEAP numa cela escura do complexo de Bangu.

O amigão de infância de Flávio Bolsonaro, apoiado por ele para ser candidato ao Senado mesmo após ser condenado por corrupção no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), tem tudo para aumentar a lista de governadores do Rio de Janeiro que fizeram um intensivão de sistema penitenciário.

Como revelou Juliana Dal Piva, colunista do ICL Notícias, Castro não perdia uma boquinha-ostentação paga pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Magicamente, logo depois órgãos de seu governo liberavam milhões em investimentos no Banco Master.

Boca na botija

Um desses encontros se passou na churrascaria do chef turco Nusret Gökçe. O cozinheiro com visual greco-goiano é uma espécie de Romero Britto do churrasco. Sua principal iguaria, apreciada por dez entre dez blogueiros e outros ricos cafonas, é carne folheada a ouro.

Os filés de Gökçe custam uma fortuna. Só o jantar de Castro, proporcionado pela generosidade de Vorcaro, saiu pela bagatela de US$ 13,3 mil. O político do PL elogiou o jantar e agradeceu o convite. “Amigo, foi uma experiência incrível. Muito obrigado”, escreveu o governador no WhatsApp.

Seria cômico se não fosse trágico. Um carniceiro como Cláudio Castro foi pego com a boca na botija por apreciar carne folheada a ouro paga com dinheiro dos aposentados do Rio.

Enquanto se alimentava com o fruto de um escândalo bilionário de corrupção, Castro tinha como única plataforma política a exploração mais extrema da violência de Estado. Infelizmente, o cantor católico de qualidade questionável encarnou a máxima entoada pela voz potente da eterna Elza Soares. Na política atual, a carne mais barata do mercado segue sendo a carne negra. E é ela que garante o acesso da extrema direita às mesas com as carnes mais caras do mundo.

Rouba e não faz

É possível traçar muitos paralelos entre Castro e seus antecessores que acabaram presos. Mas é preciso dar o braço a torcer: nomes como Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, pelo menos, usavam realizações como subterfúgio para assaltar os cofres públicos.

Cabral, afeito aos luxos de Paris e réu confesso por vício em roubar, colhia sua “taxa do oxigênio” de projetos relevantes para o cidadão. Como destaca em sua nova vida de influenciador digital, foi o responsável pela expansão do metrô, pelo arco metropolitano e pela modernização das polícias.

Pezão, poste que Cabral deixou no governo, é mais simples: preferia tomar uma Brahma gelada acompanhada por petiscos no boteco Rei do Torresmo, na sua Piraí.  Participar de jantares caros no Antiquarius, no Leblon, não era muito a sua praia. O paladar simples não o impediu de se lambuzar em corrupção, mas ao menos ele fez por merecer a alcunha de “pai do PAC” por tocar obras de urbanização de favelas.

Cabral e Pezão estão no tradicional registro do “rouba, mas faz”, cunhado em homenagem de Ademar de Barros.

Um desafio a você, cidadão do Rio de Janeiro: puxe aí na sua cabeça um único projeto importante que seja legado da infeliz passagem de Castro pelo Palácio Guanabara.

Dificilmente você será capaz de citar alguma coisa. O dinheiro da privatização da Cedae sumiu. O déficit no orçamento do estado só cresceu, e hoje o rombo chega a R$ 19 bilhões. O desembargador Ricardo Couto, que governa interinamente o Rio, já desentocou mais de 3 mil fantasmas dos principais órgãos do estado.

A única plataforma política de Castro foi a barbárie. Ele pegou o “tiro na cabecinha” de Witzel, seu antecessor, e pôs em prática em escala industrial. Sob seu governo ocorreram todas as maiores chacinas policiais da história do Rio de Janeiro.

A chacina do Jacarezinho, em maio de 2022, matou 28 pessoas – com um policial na lista – e pavimentou a reeleição de Castro. O sucesso foi tanto que, nos bastidores, ele se defendia da acusação de uso eleitoreiro da violência de forma inusitada. Dizia que, se estivesse pensando em votos, faria uma operação daquelas por semana.

Corpos cobertos por lonas após operação policial no Rio de Janeiro, em imagem que retrata uma das chacinas citadas no texto.
Corpos estendidos após operação policial no Rio, em outubro de 2025 (Foto: Bruna Fantti/Folhapress)

A segunda foi pensada para viabilizar sua eleição ao Senado neste ano. Em 28 de outubro de 2025, uma operação das polícias civil e militar terminou com 122 mortos, cinco deles agentes da lei. A cena de dezenas de corpos enfileirados numa praça na Vila Cruzeiro, recolhidos por moradores depois de serem abandonados pelas forças do Estado, chocou o mundo. Ao mesmo tempo, catapultou a popularidade do governador.

Enquanto colhia os dividendos do massacre, Castro mantinha uma vida dupla. Na frente das câmeras, era o xerife enfrentando o “narcoterrorismo”, sedento por cortes para as redes sociais. Longe delas, vivia os prazeres da carne com toda a sorte de bandidos: frequentava camarotes no Maracanã para ver jogos do seu Flamengo ao lado de TH Joias, deputado preso e cassado por ser um braço político do Comando Vermelho. E ostentava com Daniel Vorcaro, o pai do maior escândalo financeiro da história do Brasil.

O Rio não é mesmo para amadores.

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